Eu disse sim! 


Não teve anel de diamante. Não foi numa praia paradisíaca ou numa dessas montanhas tão altas que a gente tenta tocar o sol. 

Não tinha vista bonita, mas, se eu respirasse bem forte, talvez até conseguisse sentir – lá longe – o cheiro do mar. 

Não foi em um dos nossos – tantos – paraísos preferidos. Não teve jantar romântico, pétalas de rosa, violino, discurso ensaiado. Não foi do jeito que eu sonhava. Até porque, depois de um noivado que não tinha dado certo, eu era do tipo que não sonhava com isso. Ou evitava sonhar. 

Eu estava suada. Engolia as lágrimas enquanto terminava de arrumar as malas. Pensava no visto que ia vencer e na minha necessidade em retornar ao país antes que isso acontecesse. Tinha muito pepino pra resolver. 

Avô doente. Eu não queria ir, mas não podia ficar. O meu avô é o meu pai, ele merecia que eu ficasse. À medida que o meu retorno se aproximava, mais tristinho ele ficava. Não comia direito. Reclamava que os netos estavam todos partindo pra longe dele novamente. O meu avô, que sempre foi uma pessoa super de bem com a vida, andava triste demais.

Enquanto eu chorava, ele tentava me acalmar e insistia em dançar. De vez em quando, se me vê triste ou brava com algo, ele me rodopia, na tentativa de me desarmar e me arrancar um sorriso. Já conheço esse truque dele. E me irritei. Disse que ele não imaginava como eu me sentia. Que aquilo era sério. Reclamei da sua insensibilidade e da mala que ele ainda não havia começado a fazer. Falei que ele brincava nas horas impróprias. 

Ele continuava me segurando em seus braços, dizendo que tudo iria ficar bem. Me rodopiou uma vez. “Marc, eu tenho medo de não ter a chance de ver o meu avô novamente. Ele já está velhinho e agora doente. Você me entende?”

Lágrimas. 

E ele me abraçou mais forte. Me rodopiou mais uma vez e quando eu encostei em seu peito, ele ensaiou umas palavras, pausou e depois sussurrou: “Vamos casar?” 

Eu fiquei muda. Não lembro quando foi a última vez que alguém me deixou sem reação. Talvez nunca. 

Ele continuou, como quem tenta explicar que o que ele havia acabado de falar fazia sentido. “A gente se ama e já se conhece há tanto tempo. Essa é a hora certa. Você fica o tempo que precisar com o seu avô. Eu ficarei o tempo todo aqui com você. A gente aproveita e dá a ele a felicidade de ver você se casar.” 

Eu chorei ainda mais. 

Assim, sem que eu esperasse, em poucos minutos ele reorganizou a minha vida inteirinha e me deu de presente o TEMPO. 

O tempo dele ao meu lado e o meu tempo ao lado dos meus avós. 

Me deu a chance de descobrir que sim, era possível amá-lo ainda mais. Não teve champanhe, não teve música, jantar caro ou quarto decorado. Não foi do jeito que eu havia imaginado, não foi no momento esperado. Foi numa dessas horas em que tudo que você mais quer é colo. 

Num desses momentos em que a gente se vê num beco sem saída, com o coração apertado. Que a gente procura um botão que pause a vida. 

Foi quando eu menos esperava que ele me embalou em seus braços e me mostrou que não importava o ritmo da música, eu jamais dançaria sozinha nessa vida. 

Dançamos. 

E eu disse SIM. ❤️

P.S: Ganhamos uma festinha surpresa da minha família linda, com direito a um bolo maravilhoso e tudo mais. Eles são demais! 

Sr. Jayme e Dona Áurea, meus avós lindos
 

Estamos todos muito felizes!  

:) 

Um café pra aguentar o cansaço

  
Amores, 

Cheguei ao último dia de College! E a felicidade que toma conta de mim é proporcional ao meu cansaço. Falta fazer mais uma prova, que acontece em 3 horinhas. 

E enquanto estou sentada na cafeteria, me enchendo de cafeína para dar conta da exaustão, passa um daqueles filmes nostálgicos e bem clichêzinhos na minha cabeça. Putz, preciso confessar. Eu não via a hora de acabar o curso. Porém, dá um frio na barriga saber que daqui pra frente o esforço deve ser ainda maior. Procurar trabalho, enfrentar mil entrevistas de emprego e encontrar um job que me dê a e$tabilidade que preciso. Afinal, agora é hora de colher os frutos de todo esse esforço. 

Já tem muita coisa legal acontecendo, muitos planos para serem colocados em prática e uma viagem ao Brasil nos próximos dias. O blog já está quase com 500 mil visitas – eu disse MEIO MILHÃO meu povo – e eu sou muitíssimo grata por todo o carinho que recebo. 

Muito obrigada, 

A. 
P.s: Agora me desejem boa sorte, pois ao invés de estudar, fiquei fotografando o meu café fotogênico hahahaa #ferrada

Não, dessa vez não foi a bunda virada pra lua


Dizem por ai que quem grita aos quatro ventos que é muito bom naquilo que faz é convencido. Ou que adora se exibir. E a gente se acostuma a esconder muito do nosso orgulho, não o orgulho desdém, mas aquele que nos faz dar dois pulinhos em frente ao espelho do quarto, enquanto estamos sozinhos, depois de termos passado em um exame, sermos promovido ou após qualquer outra conquista, só pra que não nos chamem de “nada modestos”.
A gente canta vitória só com os amigos mais chegados, ou nem mesmo com eles, pois tem sempre um que fala sobre a tal da energia negativa e da inveja. “Ih, pare de falar sobre o seu sucesso, tem gente que vai se morder de inveja”, nos dizem.

E com isso a gente se esquece até de dar os pulinhos em frente ao espelho, porque o tal do costume em internalizar a felicidade torna a comemoração do nosso sucesso cafona, arriscada e desnecessária.

Esquecemos também das qualidades que a gente tem, porque quase nunca falamos sobre elas. Já percebeu o quanto é difícil fazer o seu próprio currículo? E porque a gente precisa praticar tanto para uma entrevista de emprego, se tudo que a gente precisa fazer é falar sobre as nossas qualidades e competências?

Demorou uma eternidade, mas certo dia me dei conta de que passei muito tempo sem reconhecer o quanto havia conquistado. E que eu nunca pulava em frente ao espelho e quando vibrava o fazia sem muita empolgação, pois sempre achava um motivo para atribuir as minhas conquistas a outros fatores e não à minha capacidade. É a chamada Síndrome do Impostor, descoberta lá pelos anos 80 e que atinge 70% da população, principalmente as mulheres.

E sabe porque a síndrome leva esse nome? Pois com as conquistas, muitas vezes vem o sentimento de “fraude” e de que a qualquer momento alguém vai descobrir que não somos tudo aquilo que os outros pensam.

A gente se convence de que os elogios e o reconhecimento dos outros pelo nosso sucesso nem sempre são merecidos, e atribuímos as nossas conquistas à sorte, a um empurrãozinho dado por alguém ou, sei lá, ao horóscopo do dia.

Demora um bom tempo para que a gente deixe de lado a vergonha de se exibir, de assumir que se tem talento e a não ter medo de dizer que não, não foi porque você é aquariano nascido no terceiro decanto ou porque Saturno está em Sagitário que você se formou com louvor, conseguiu o emprego dos seus sonhos ou foi promovido. Você conquistou tudo isso porque merecia. Porque fez a sua parte.

Mas e a sorte, mulher? Não tem gente que nasce com a bunda virada pra lua? Ih, ô se tem. A sorte ajuda sim. E muitas vezes. Mas eu disse A-J-U-D-A. Pois a sorte não te dá o emprego dos sonhos, não te transforma num aluno exemplar e não tem influência alguma no quanto os outros vão admirar o seu trabalho. O nome disso é talento, força de vontade e persistência. O nome disso é VOCÊ. E ninguém vai tirar o seu mérito.

Agora vai ali na frente do espelho e dê dois pulinhos pra comemorar uma conquista recente. Não, relaxa que você não vai parecer que é bobo. Bobagem mesmo é não reconhecer que você é capaz de conquistar o mundo. Ou que já conquistou e ainda nem percebeu.

 
*Aritta Valiense era jornalista e achava que não tinha talento algum até criar asas e coragem para desbravar o mundo. Foi viver no Canadá, onde descobriu que não só tem talento, mas também capacidade para fazer um monte de coisas legais. Acaba de se formar com louvor em Marketing e nas horas vagas gosta de dar pulos de felicidade para comemorar todas as suas conquistas. 

Estudar no Canadá… Vale a pena?

Foto: Patrick Tomasso

Em dez dias completo o meu curso de Business Marketing no George Brown College, em Toronto, no Canadá. Foram dois anos que passaram voando, apesar das noites em claro, do estresse, exaustão e das crises de choro quando achava que não conseguiria chegar ao final. 
Parece exagero, eu sei. Mas, para aqueles que se doam por inteiro e mergulham de cabeça nos seus sonhos, a vida vem mesmo temperada com uma pitada a mais de drama. E põe drama nisso…
Eu nunca quis ser uma aluna medíocre. Comecei o curso com o foco em ser uma das melhores. Tive muita dificuldade com as matérias de exatas, e essas foram as que me fizeram chorar. Mas eu meti a cara nos livros e superei o meu trauma com os números.

E ai, valeu a pena?

Muita gente me escreve perguntando se vale a pena vir fazer um college no Canadá. E hoje, às 11 da noite, após um dia super cansativo, com reuniões de projetos finais, uma prova e uma dor de cabeça daquelas, sentei na minha cama rodeada por papéis, resumos e anotações das oito matérias que estou cursando e decidi escrever para desabafar. Eu tô uma pilha, pronta para desabar. Mas, vou fazer aquilo que mais gosto: escrever.

  
Vale a pena todo o esforço, dinheiro e tempo investido?

Eu diria que vai sim, valer a pena, se você levar em consideração alguns fatores… 

Prepare o bolso: O investimento é alto. O semestre no college irá te custar uma média de 8 mil dólares. Multiplica por dois e, em um ano você vai ter gasto, no mínimo, 16 mil dólares só com o valor do curso. Você ainda terá que investir em livros, que, novos, custam em média $120 dólares cada (por baixo, pois já paguei $160 em um único livro). Em outros cursos, como arquitetura, eles são ainda mais caros e você desembolsa entre $200 e $350 por livro. 

Livros usados são vendidos por uns $60-$80. Alguns professores exigem que você compre materiais novos, pois eles trazem um código para atividades online que só pode ser usado por um aluno. São 6 a 7 matérias por semestre. Faz a matemática, pois como eu falei antes, tô exausta.

Você vai ter que ESTUDAR MUITO: Os semestres aqui são mais curtos. Se as aulas começam em janeiro, terminam em abril. Se começarem em setembro, terminam em dezembro. Ou seja, você tem 4 meses para frequentar as aulas, fazer mil trabalhos, apresentações, projetos em grupo, testes e provas finais. Uma coisa que eu aprendi durante os meus dois anos de college é que você não precisa ter um inglês perfeito e não precisa ser super inteligente para se dar bem nas aulas. Você precisa mostrar interesse, responsabilidade e organização. O aluno que frequenta as aulas, não se atrasa, pergunta, participa das discussões, entrega os trabalhos em dia e envia e-mails aos professores sempre que tiver dificuldades nas aulas, é aquele que os professores reconhecem e podem ajudar no futuro. 

Reconhecimento dos professores VALE OURO: Quando digo que dei o melhor de mim durante os dois anos de faculdade aqui, algumas pessoas acham que eu me esforcei demais sem necessidade alguma. Tinha necessidade, sim. O college é, para muitos de nós, estudantes internacionais, a chance de reconstruir uma carreira. É um recomeço. Não se trata apenas do dinheiro investido, pois muitos não ralam tanto, tiveram a sorte de ter condições financeiras para arcar com tudo sem doer tanto no bolso. O que muitos não percebem é que viemos para um país no qual a maioria da população é formada de imigrantes que, sedentos por uma vida melhor, correm atrás de qualificação, cursos, especializações e etc. Tem muita gente qualificada.

Em entrevista de empregos, uma carta de referência é super importante. Além disso, os professores que te reconhecem como um bom aluno, te convidam para participar de eventos com profissionais da sua área e te ajudam muito nos primeiros passos para encarar o mercado de trabalho. Quando você estiver escolhendo as suas aulas, vale a pena visitar alguns sites nos quais os professores são avaliados pelos alunos e escolher aqueles com as melhores pontuações.

Preocupe-se com o seu GPA: O GPA (Grade Point Average) é a sua média em cada curso. Ao final de cada semestre você recebe um transcript (boletim) com todas as médias e o seu GPA final. Você pode alcançar no máximo 4 pontos no seu GPA e os alunos que alcançam 3.5 ou mais do que isso, entram na lista do Dean (reitor). O Dean te envia uma carta parabenizando pelo seu desempenho e por ter entrado na lista dos melhores alunos, com um GPA superior a 3.5. Nem todas as empresas irão perguntar pelo seu GPA, mas muitas perguntam. E ter no seu currículo que você se formou com honra – GPA final superior a 3.5 – é um extra.

Esqueça o famoso “jeitinho brasileiro”: Aqui não tem mimimi nem chororô. Perdeu a data de entrega de um trabalho, o professor pode até te liberar para entregar no outro dia. Mas, vai descontar uns 20% da sua nota. Você pode inventar que estava internado no hospital, pode “matar” parente distante, dizer que houve uma inundação no seu banheiro, que foi atropelado por uma bicicleta, que o seu projeto foi comido pelo seu urso de estimação… Nem adianta. Os trabalhos devem ser entregues no dia, ou pontos serão descontados. 

Porém, se você for um bom aluno e se der mal em um trabalho ou prova, não deixe de pedir uma segunda chance. Há poucos dias eu tirei 6 em uma prova, escrevi para o professor explicando que a nota era muito baixa comparada às outras e que gostaria de ter uma segunda chance, pois eu não aceitava nada abaixo de 8. Claro, eu me “vendi” no e-mail, pontuando todas as minhas qualidades como aluna, a minha participação nas aulas e porque eu merecia uma segunda chance. Ele é o meu professor de Vendas, então eu usei as técnicas aprendidas em aula para escrever o e-mail. 

O professor ficou super impressionado com a minha coragem e com a forma com a qual eu usei os conceitos das aulas para me vender como uma aluna que merecia uma segunda chance. Ele disse que apenas eu e mais um outro aluno haviam pedido uma segunda chance, apesar da maioria da sala ter se dado mal. E que ele jamais esquecia dos alunos esforçados. Para a minha felicidade, ele me deixou refazer a mesma prova uma semana mais tarde.

Enfim…

Eu poderia escrever um texto gigante com muitos outros pontos que devem ser levados em consideração caso você decida estudar aqui no Canadá. Porém, a verdade é que tudo que escrevi ai em cima se resume a uma só frase: sem dedicação, o seu investimento não vai te trazer retorno algum. E isso não é apenas para aqueles que vão estudar no Canadá, mas em qualquer lugar do mundo.

Se você vai pagar um preço alto e se matricular no College apenas para dar entrada nos papéis da imigração, eu acho que você está desperdiçando a chance de adquirir conhecimento, se profissionalizar e construir uma carreira de sucesso no país que escolheu morar. Passar nas matérias não é difícil. Mas, de que adianta passar se você não vai ter as qualificações necessárias para conseguir um bom emprego?

É um investimento alto? É. E põe alto nisso. 

Mas, eu prometo que, se você se dedicar e colocar na caixola que você quer fazer a diferença e não apenas ser “só mais um imigrante tentando ganhar a vida em outro país” os seus esforços serão reconhecidos. E, quando isso acontece, você se torna ainda mais forte e mais seguro de que fez a escolha certa. Você se sente tão orgulhoso pelas suas conquistas que todo o investimento, tempo, esforço e dedicação farão sentido.

Você colocou uma mochila nas costas, deixou para trás a família e amigos, saiu da sua zona de conforto e enfrentou o mundo. E o mundo te mostrou que para enfrentá-lo, você precisava enfrentar a si mesmo e redescobrir os seus limites. É nessa batalha entre você e o mundo que você descobre que os seus limites vão muito além do que você imaginava. Basta você se esforçar. E dar o melhor de você aonde quer que você vá. O resto? Ah! O resto o mundo se encarrega de te presentear. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O meu tio não era louco


Foi um cara que nunca conheceu o tédio. O tipo de pessoa que transformava uma conversa informal sobre sapatos numa explicação completa sobre a anatomia do pé. Eu tinha muitas razões para o admirar. A  minha favorita era o fato de saber que ele nunca me deixaria sem uma resposta. E ele não deixava.

Tio Aroldo sofria de transtorno bipolar. E era também o cara mais inteligente que já conheci. Para quem não sabe, o transtorno bipolar é uma doença psiquiátrica caracterizada por variações do humor, crises de depressão e o surgimento de algumas manias. É como viver em uma montanha russa. Em certos dias a pessoa está depressiva, noutros ela está eufórica. Pode ser bem difícil de lidar (como no caso do meu tio), mas muitos conseguem controlar o transtorno com o acompanhamento de um psiquiatra e o uso constante de medicamentos. Infelizmente, não tem cura.

Foi o meu tio Aroldo que, mesmo sendo pão duro de carteirinha, no início da minha adolescência me levou numa loja bacanérrima para me dar a minha primeira calça “de marca”. Eu era apaixonada pelos meus jeans da Yes Brazil. No meu corpinho enxuto de adolescente, a calça caía como uma luva. Tio Aroldo tinha bom gosto e se preocupava com os pequenos detalhes.

No inicio eu não entendia muito bem quando as crises aconteciam. De repente ele falava mais do que o normal, ficava bastante eufórico e se tornava mais sincero do que já era. Falava tudo que desse na telha e muitas vezes arrumava confusões com os conhecidos da nossa cidade, que não é tão grande e nem tão pequena. O chamavam de louco. E eu, sem muita maturidade, mas cheia de amor pelo meu tio, me doía por dentro cada vez que o via daquele jeito.

A risada de alguns amigos, o pouco caso feito por conhecidos e a tristeza dos meus avós ao tentar lidar com uma doença ainda pouco conhecida machucava muito todos que o amavam. Ninguém sabia direito o que era a bipolaridade. E, até que alguém explicasse o que levava aquele homem bem vestido a usar óculos escuros à noite, enquanto gritava com desconhecidos no meio da rua, era mais fácil dizer que ele tinha, sim, um parafuso a menos. O meu tio não era louco. O meu tio era um cara normal que de vez em quando ficava doente.

Ele cortava o bife em pedaços minúsculos. Misturava farinha e um pouco de pimenta no arroz com feijão e, assim como eu, não resistia à jarra de sucos. Comia em frente à TV, tinha uma coleção de camisas da Lacoste e usava sempre o mesmo perfume – CK One. O bigode era a sua marca registrada. Ele era charmoso.

As crises vinham sempre depois de algum abalo emocional. O fim de um relacionamento, a morte de alguém especial, uma crise financeira. Não podíamos prever. O tratamento também não era tão simples. Nem sempre ele concordava em tomar os medicamentos. Sem ter como lidar com as crises mais graves, não tínhamos outra solução a não ser interná-lo.

A última crise do meu tio foi também a pior de todas. Eu tinha 19 anos e morava com uma prima no apartamento da nossa família, em Salvador. O meu pai havia sido levado pelos meus tios para a capital, numa tentativa frustrada de interná-lo numa clínica de reabilitação para usuários de drogas. Ele conseguiu fugir de volta para Porto Seguro e acabou não fazendo o tratamento. Enquanto isso, o meu tio Aroldo, que também estava conosco em Salvador, começou a apresentar alguns sinais de que não estava muito bem. Acredito que ver o meu pai naquela situação havia mexido muito com o seu emocional. Eles eram muito próximos.

Assim que percebemos que ele estava agitado, tentamos convencê-lo a tomar os remédios. Após alguns dias, a situação piorou. Certo dia, chegamos da faculdade e o porteiro do nosso prédio informou que o nosso tio estava gritando na varanda. Não bastassem os gritos, abri a porta e dei de cara com ele pelado, usando apenas o seu inseparável Ray Ban.

Ele se recusava a aceitar ajuda. Quando mencionei que o levaríamos ao médico, ele ficou ainda mais agressivo. Eu me dividia entre a tristeza em ver o meu tio naquele estado, o medo de uma tragédia ainda maior, a preocupação em resolver tudo sem precisar da ajuda da família (que já estava lidando com o meu pai em Porto Seguro), a vergonha em saber que todos no prédio comentavam sobre a situação no nosso apartamento e o medo de não ser forte o suficiente e falhar em ajudá-lo.

Liguei para um amigo e expliquei que precisávamos de uma ambulância e de pessoas preparadas para levar o meu tio à força para a clínica psiquiátrica. Nunca vou esquecer daquela cena. Eu chorava e não conseguia o encarar. Evitava o seu olhar pois não queria deixar que aquele homem que me xingava e me acusava de o estar imprisionando, apagasse a memória que eu tinha do tio doce, carinhoso e inteligente que eu tanto amava. Ele era apaixonado pelos seus sobrinhos. Para alguns de nós, ele era um pai. E para ele, éramos os filhos que ele nunca teve.

A primeira visita à clinica foi terrível. O ambiente era triste e ele não quis nos receber. Lembro de termos levado frutas e biscoitos, mas ele se recusava a falar comigo, pois acreditava que eu o havia traído ao interná-lo. Naquela noite tive problemas para dormir. A minha prima dividia a cama comigo, pois por um bom tempo desenvolvi uns ataques de pânico e não dormia sozinha.

Na segunda visita eu fiquei ainda mais assustada. O meu tio estava completamente dopado. Mal conseguia falar e eu não consegui ficar lá por muito tempo. Ele ainda estava bastante magoado comigo. Eu era uma adolescente que estava prestes a terminar a faculdade, sofrendo com os problemas do meu pai e com um tio internado em uma clínica psiquiátrica. Chorava enquanto tomava banho e ficava embaixo do chuveiro o tempo necessário para que ninguém percebesse o quanto eu estava triste.

O dia em que tio Aroldo saiu da clínica foi um dos mais felizes da minha vida. Ele já não estava mais triste comigo e fez de tudo para demonstrar a sua gratidão pelo que eu e a minha prima fizemos por ele. Comprou os móveis que eu tanto queria para o meu quarto e tentava nos agradar ao máximo. Tio Aroldo sempre tinha um comentário na ponta da língua. Certa vez, enquanto eu estudava para um dos testes ele disse: – Arittinha, nenhuma prova é mais importante do que as que você ja superou. Nenhuma nota vai ser capaz de traduzir todo o conhecimento que você tem e nenhuma escola vai te ensinar o que você realmente precisa saber. Vence na vida quem tem coragem e curiosidade.

Tio Aroldo sofreu um infarto fulminante três anos mais tarde, seis meses após o meu pai falecer. Foi um ano muito difícil para a nossa família. Os meus avós perderam dois filhos em apenas seis meses. Os meus tios perderam dois irmãos. Os meus primos perderam dois tios. Eu perdi o meu pai e também perdi o único cara que jamais se esquivava às minhas perguntas. E, apesar de tentar compreender a morte de forma racional, sinto que ele foi cedo demais e me deixou sem algumas respostas. Também acho muito injusto que muitos jamais tenham tido a chance de conversar por ao menos cinco minutinhos com o meu tio. Ele era sensacional.

É triste saber que tanta gente pouco sabe sobre o transtorno bipolar. Muitos olham o bipolar com desprezo, se envergonham (eu também me envergonhava) quando as crises são intensas ou quando ocorrem em público. Muitos se afastam, não conseguem lidar com os transtornos de humor ou com a agressividade de quem tem a doença. Eu não os julgo, pois não é fácil. Porém,nada é mais difícil do que perder aqueles que a gente ama, sejam eles loucos ou não.

Sabe aquele cara que mora ali do outro lado da rua e de vez em quando age meio estranho? Aquele que todo mundo diz ser louco? Ele podia ser o meu ou até o seu tio. Mas, tio Aroldo não era louco. Ele era o cara que tinha respostas para todas as minhas perguntas.

Voltarei, eu prometo! 

  
Tá certo. Admito que tenho me ausentado demais por aqui. Eu sei que tô devendo umas visitas há tempos e que uma blogueira que se preza não pode se afastar assim do seu blog. 

Só que eu faço de propósito. Nem sempre, mas quase sempre. Estou na reta final do meu curso de Marketing e tive que pegar oito matérias para me formar em abril (eu tava na Ásia quando eles abriram as matrículas, me matriculei com atraso e uma das matérias não tinha vaga). Tá complicada a minha rotina. 

Pedi demissão da Starbucks só para focar no College e assim ficou “mais fácil”. Entre aspas pois eu ganhei mais tempo e perdi dinheiro… Porém, vamos focar a conversa nos estudos, pois falar de dinheiro neste momento me entristece hahaha 

Eu só queria avisar pra quem me segue por aqui que, apesar de não estar postando textos, continuo bem ativa no  Instagram e lá eu posto diariamente fotos da minha rotina, dos meus lugares preferidos, comidinhas e – lógico – selfies desnecessárias. Então passa lá se por acaso der saudade! :D 

Voltarei a desabafar aqui no blog em breve. Prometo!!! E enquanto eu me escondo embaixo dos livros e por detrás de um sorvete delicioso de framboesa com chocolate branco em formato fofo de coração, continuo pensando com carinho naqueles que me enviam mensagens, os que sempre checam se tem algo de novo por aqui e os que me pedem para retornar. Volto jajá! Não me abandonem, não…

Beijo grande,

Aritta 

Um Feliz Ano Novo

  
Que no próximo capítulo deste livro incrível chamado Vida, eu tenha mais coragem para fazer as pazes com aqueles que magoei ou que me magoaram. Com aqueles que discordaram das minhas ideias e aqueles aos quais eu chamei de irracionais. 

Que eu tenha mais chances para distribuir e arrancar sorrisos e que os únicos incômodos no peito sejam causados por abraços demasiadamente apertados. E que estes sejam muitos…

Que eu tenha mais determinação para fazer as pazes com a balança, com o meu corpo, com os meus defeitos e aprenda a amar ainda mais cada pedacinho de pele que me cobre. 

Que eu tenha mais maturidade para fazer as pazes com a saudade e aceitar que, ou aprendemos a conviver juntas, ou ela irá me sufocar – ainda mais. 

Que eu tenha mais tolerância para respeitar o que eu não compreendo e para entender que nem sempre o que faz bem para mim fará bem ao outro. 

Que eu tenha mais humildade para reconhecer os meus erros e sabedoria para consertá-los o quanto antes. Que eu não me crucifique durante os tropeços e que não demore tanto a fazer as pazes comigo mesma. 

Que eu seja mais paciente e não brigue tanto com o tempo, aquele que por vezes se adiantou ou se atrasou demais para trazer o que eu esperava. E o que ainda espero…

E que ele, o tempo, esse senhor velhinho que a gente não vê, mas que não nos larga nem mesmo por um segundo, não leve de mim a inocência e o otimismo de quem sempre acredita em um amanhã muito, mas muito melhor do que o ontem. 

2016, mal posso esperar para te conhecer! 
Feliz ano novo!