Entre o banheiro gigante e o pássaro que libertei

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Eu geralmente fico nostálgica antes de dormir. Nao tenho muita certeza do porquê, mas eu nunca esqueço da cama em que dormia durante a minha infância. Na época em que os mosquiteiros faziam parte da nossa vida (alguém ainda usa?). E o meu era mesmo de princesa: rosa, bordado com estrelinhas, luas e outros mimos. Deve ser esse o motivo da minha nostalgia. Há sempre a saudade daquela cama, daquele quarto e daquele ambiente.

E eu lembro das camisolas da infância, do cheiro da minha casa às 5 da tarde quando o café era coado e dos quadros que enfeitavam as paredes. A imagem da minha vó de costas na cozinha, lavando os pratos, me faz voltar aos meus 7, 8 anos de idade. Quando comecei a questionar por que algumas pessoas tinham salas de jantar em casa se usavam apenas a mesa da cozinha para as refeições. Ou por que eu não podia usar as taças de cristal no dia a dia.

Eu amava, ou melhor, ainda amo, mas hoje numa perspectiva completamente diferente, a casa dos meus avós, onde morei dos 5 aos 18 anos. Achava o máximo levar os coleguinhas da escola para um tour pelo meu quintal. Apresentava a arara que morava no pé de goiaba, o pé de carambola, de acerola e a mangueira. Mas eu gostava mesmo era de mostrar o banheiro da casa. Porque eu me orgulhava de ter um banheiro gigante, com um espelho enorme e uma grande porta de madeira. E é engraçado como tudo parece ser muito maior do que realmente é quando somos crianças. Mas eu muito me orgulhava do meu banheiro.

Eu sempre fui muito precoce e curiosa. Prestava atenção às pessoas, ao que elas estavam conversando e tinha mania de me meter em conversas que não me diziam respeito. A única coisa que me fazia esquecer do resto do mundo eram os livros que recebia mensalmente da minha irmã mais velha. Aos 15 anos a minha lista já contabilizava mais de 100 livros lidos. Eu tinha uma neurose pelos números. Nunca gostei muito de matemática, mas tinha mania de fazer listas contabilizando quantas vezes tinha beijado na boca, quantos livros tinha lido, quantas viagens já havia feito, quantos amigos eu tinha. Loucura minha. Parei de contar tudo quando me dei conta que mais importante do que a quantidade era a qualidade. E isso não faz muito tempo não, viu?

Certo dia, por volta dos meus 6, 7 anos de idade, convidei todos os meus colegas para o aniversário da minha boneca. Detalhe: o convite foi para uma festa que seria no mesmo dia e eu não tinha avisado a ninguém lá em casa. Simplesmente cheguei da escola e disse para a minha tia: -Vai ter aniversário da minha boneca hoje, convidei todos da sala de aula!

Minhas tias, que tinham uma doceria na época e sempre fizeram de tudo para me mimar, enlouqueceram. Em menos duas horas prepararam um monte de coisinhas gostosas pros meus amiguinhos. Tinha cachorro-quente, brigadeiro, pipoca, decoração da Moranguinho, guaraná e até bolo! Mas só uma coleguinha apareceu. Imaginem a minha frustração. E desde então eu tenho um certo medo de comemorar o meu aniversário. Eu sei que parece bobagem, mas bate aquele frio na barriga e começo a imaginar que ninguém vai aparecer. Então passei a fazer festinha de aniversário em conjunto com alguma amiga, dessa forma se os meus convidados não aparecerem, pelo menos os dela aparecem.

Outra grande frustração que vem da infância é o meu medo em lidar com bolas. Podem ser pequenas ou grandes, eu não levo jeito e começo a suar frio quando alguém sugere alguma brincadeira que envolva a tal. E o fato de eu nunca ter comparecido às aulas de educação física também se deve à isso. Tudo bem, confesso que depois dos 11 anos – quando tive meu primeiro namoradinho -, eu faltava para namorar escondido, mas antes disso a culpa era da bola.

Certa manhã, durante o intervalo para o lanche na escola, em um dos poucos dias em que pude comprar comida na cantina (porque eu morava em frente à escola e a minha vó levava TODOS OS DIAS um copo de vitamina de banana ), eu comia a minha coxinha tranquilamente no patio quando de repente uma bola bateu na minha cabeça e a minha coxinha voou a mais de três metros de distância. A dor de ter perdido o meu lanche era maior do que o galo que a bola tinha causado na minha testa. Tio Luis, o dono da lanchonete, era tão legal que me deu uma nova coxinha. Mas como todos sabem, a segunda nunca é tão gostosa quanto a primeira. Portanto, apesar da felicidade de ter sido recompensada pela minha perda, eu estava frustrada por ter sido interrompida enquanto degustava o quitute. Começava ali a minha fobia por bola.

Numa outra ocasião eu aprontei alguma traquinagem e o meu tio, que criava muitos passarinhos, reclamou comigo. E eu era tão abusada e metida a gente grande que confrontava e defendia as minhas ideias como se eu fosse adulta. Fiquei tão furiosa com a falta de compreensão do meu tio diante de alguma bobagem que eu havia cometido que resolvi soltar todos os passarinhos das gaiolas enquanto ele dormia. Mas dois dos passarinhos não queriam sair de jeito nenhum, mesmo com a minha insistência. E então eu me dei conta que se eles não queriam ir embora, era porque o meu tio os tratava bem. Apenas um, que deveria ser o mais danadinho, seguiu o seu caminho. Enquanto ele batia as asas e voava meio sem jeito de um lado pro outro eu tentava imaginar quantos dias mais ele viveria.
E na manhã seguinte eu fingi que não sabia o que havia acontecido. No maior cinismo disse: -Você não deve ter fechado a gaiola direito depois de limpá-la. E ele nunca descobriu que o passarinho foi-se embora por causa da minha teimosia.

E esses momentos são responsáveis por quem eu sou hoje. Cada uma das minhas saudades construiu a mulher a qual me tornei, com minhas manias, orgulhos e frustrações. O quarto da infância, a mesa de jantar sempre intacta, as taças de cristal, o banheiro gigante, o pacote do correio em cima da cama com um livro novinho, a vitamina de banana da minha vó, as intermináveis listas de quantas vezes eu ja havia feito algo, hoje substituídas por listas de contas a pagar, o meu quintal cheio de frutas e aquele passarinho que um
dia libertei.

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