Oito meses de Canadá e a reflexão natalina

E então é isso. Oito meses completos hoje longe do ninho, sem ouvir o sotaque cantado; sem falar “rei”, “vei” e “oxente”. Sem ver o povo vestindo branco às sextas-feiras e sem o cheiro do acarajé fritando no óleo de dendê.
Sem dirigir pela orla de Ondina e admirar o Porto da Barra quando o sol se põe. Sem subir a ladeira da Aloísio de Carvalho e descer a mesma admirando a Baía de Todos-os-Santos bem alí, no Corredor (lindo) da Vitória.
Troquei o suor do sol de cada dia da Bahia pela pele ressacada com o frio do Canadá. Eu hoje visto roupa térmica, casaco de puff e bota cano alto. A marca do biquine eu só vejo em fotos do verão que passou e as ladeiras que subo me trazem paisagens frias, mas ainda assim belas.
Já é quase Natal e pela primeira vez não ouço o clássico natalino cantado por Simone em cada canto por onde eu passo.
Talvez eu entre no Youtube e escute “Então é Natal” ao menos uma vez. Por que há uma voz interna em mim, louca para gritar: -Sim, eu fiz muita coisa, Simone! O ano já pode terminar!

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Um martini, um amor e a conta, por favor!

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Eu escuto todos os dias das amigas e amigos solteiros que está difícil achar alguém com o qual realmente valha a pena engatar um relacionamento. Daí eu me pergunto: o problema é de quem procura ou de quem ainda não foi encontrado?

Para quem ainda não achou a famosa alma-gêmea, a metade da laranja, o docinho de coco, o mô da sua vida e outras breguices fofas que só quem anda com borboletas no estômago consegue entender, a procura pelo parceiro ideal parece uma maratona sem fim…

Roberto vai a uma festa e acha a mulher que ele acredita ser a dos sonhos. Ela é linda, simpática, bem-humorada, independente, sabe conversar sobre os mais diversos assuntos e morde o lábio inferior enquanto sorri. 

Após alguns drinks, sexo no apartamento dela, bate-papo de trinta minutos só para não fazer jus ao ditado “cachorro magro: come e vai embora”, ele descobre que alguma coisa nao batia. O cheiro, talvez a temperatura da pele, o beijo. Sim, o beijo não encaixava! Era muita língua para pouco espaço.

Frustrado pela décima vez em dois meses, Roberto cai na real de que ela não era nem tão interessante assim. Talvez os cinco martinis o tenham enganado. Os cílios deviam ser postiços, o papo sobre a média salarial de um trabalhador chinês foi mesmo chato e aquela mordida no lábio é algo típico de quem já leu “50 tons de Cinza”. Nenhuma autenticidade. Quem sabe na festa de amanhã?

Após acompanhar até a porta do seu apartamento o partido que parecia ser perfeito, Marina cai na real de que os dois não tinham muito em comum. O sexo foi ótimo, mas o beijo não combinava. Não havia sintonia. Roberto era muito acomedido na hora do “vamos ver”. Solteira há 6 meses e louca para encontrar o príncipe dos seus sonhos, Marina é a típica mulher que compra revistas femininas para ler matérias do tipo “Como enlouquecer um homem na cama” ou “O que eles procuram em uma mulher”. Ela é daquelas que decidem colocar em prática tudo-ao-mesmo-tempo-agora. E acaba indo com muita sede ao pote.

Gastou boa parte do salário com uma famosa taróloga só para ouvir que a sua vida mudaria em pouco tempo. Já fazem seis meses e tudo parece igual. Festas, paqueras de uma noite, uma semana ou até duas. Nada mais que isso. A mordida no lábio até tem ajudado, mas o que ela procura é um amor que a tire do chão como o romance do livro que acabou de ler.

Marina e Roberto procuram a mesma coisa que todos nós queremos ou já procuramos um dia, caso tenhamos encontrado. Alguém que tenha atitude suficiente para surpreender; que seja parceiro nas horas de diversão e que discorde das suas opiniões quando forem insensatas, mas que respeite o seu ponto de vista. 

Alguém que tenha aquele olhar apaixonado, que não se canse de elogiar o seu sorriso, mesmo quando você acaba de acordar vestindo a velha camiseta da empresa em que ele trabalhava. Alguém para o qual você tenha coragem de contar sobre os melhores momentos da sua vida e sobre aqueles em que você se sentia um zé ninguém. 

Procuram alguém que escute as suas histórias bobas como se nem mesmo o sono após um dia intenso de trabalho fosse capaz de distraí-lo. Um homem ou uma mulher que confie o suficiente em você para contar os seus fracassos e os planos para o futuro, mesmo que sejam os mais loucos possíveis como se aposentar aos 29 e se mudar para a Austrália.

Marina e Roberto procuram demais porque ainda não cairam na real de que ninguém acha um amor nas páginas de uma revista ou nas cartas de um tarô. Não se acha um amor indo para a balada loucamente acreditando que uma hora o príncipe da sua vida vai encostar no balcão do bar e te oferecer um martini.

O amor, apesar de toda a evolução humana, ainda é clichê. É claro que você pode achar a sua cara-metade numa festa bacanérrima, quando, por um acaso, você está usando aquela roupa que te deixa super seguro (a) sobre a sua capacidade de sedução. Mas é quando a festa acaba e você se desarma que o processo realmente começa.

Porque o amor surge da simplicidade, quando vestimos o moletom para comprar pasta de dentes na farmácia mais próxima. Ou quando corremos na esteira da academia com o suor escorrendo na pele e o cabelo grudado no rosto. Surge durante uma refeição a dois, quando você se lambuza com o molho de tomate e limpa os dedos com a boca. E quando vocês se dão conta de que as diferenças que pareciam ser tão grandes há pouco, hoje já nem são tão perceptíveis.  

O amor surge quando você se sente super protegido (a) somente por estar com a cabeça no colo do outro, e quando, apesar do relógio branco na cabeceira da cama marcar uma hora qualquer, o mundo parece ter parado dentro daquele abraço.

Tenha calma, não se afobe, ele vai chegar. 

Cheiro de pai

A gente pode esquecer da fisionomia, pode esquecer da voz, pode esquecer de como nos comportávamos ao lado daquela pessoa. Mas o cheiro é algo que fica para sempre. Pode ser que não haja reencontros, mas se a pessoa foi de alguma forma muito especial, o cheiro fica.
O meu pai era o homem mais cheiroso do mundo. E sim, que me dêem licença para o uso do clichê, era o meu herói. E eu sabia muito bem que o amor incondicional que ele sentia pelas suas duas meninas – eu e a minha irmã Anna Clara -, era capaz de desarmar aquele super-homem. Meu pai era teimoso, defendia com unhas e dentes as suas ideias e ai de quem discordasse do seu ponto de vista. Muita gente dizia que ele só pensava em sí próprio. Visão errada de quem não sabe interpretar o amor. Porque o meu pai amava muito e talvez esse fosse o seu maior defeito. Ele amava tanto que por muitas vezes não soube como lidar com tanto amor.
Não sei ao certo quando perdi o poder de desarmar o meu herói. Também não consigo lembrar quando deixei que as adversidades da vida me afastassem daquele que sempre quis o melhor para mim. Quando foi que deixamos de ser amigos e nos tornamos apenas pai e filha.
Talvez tenha sido durante uma de muitas das nossas discussões bobas sobre o namoro proibido ou a conta altíssima do telefone. Rebeldia da adolescência. Talvez tenha sido por eu me achar madura demais, quando na verdade o que eu mais queria era o seu abraço antes de dormir.
Hoje a saudade é grande. É o dia de lembrar nos abraços que não foram dados e nas vezes em que tentei dizer que o amava mas acabava deixando pra depois. É clichê, mais uma vez eu sei. Como todos os outros textos para alguém que já partiu. Mas não há lógica para mim em tentar ser diferente quando se escreve para contar que eu só queria algo simples: o cheiro do meu pai.
E dizem por aí que os pais por diversas vezes superprotegem os filhos. Ah, Deus! Que bom seria caso o contrário também pudesse acontecer. Queria eu ter colocado o meu herói debaixo das minhas pequenas asas e protegê-lo das coisas feias desse mundo.
Mas não tive força suficiente para carregar no colo um homem com um coração tão grande.
Com todo amor do mundo no seu aniversário.

Vina e o feijão mágico

O feijão que ela cozinhava. Eu sei que isso nao é algo muito educado da minha parte. Falar de alguém que já  morreu e começar o parágrafo com algo tão banal. Mas se me perguntarem o que ela tinha de melhor, eu diria que era o feijão que só ela sabia preparar. Não que ela não fosse uma mulher de muitas qualidades, muito pelo contrário, mas das lembranças que tenho, é o feijão que mais se destaca.

Franzina, manca de uma perna e de aparência frágil, ela jamais gostou que a chamássemos de vó. Era sempre difícil me referir a ela de outra forma, já que desde que me entendia por gente a minha vó, a verdadeira, me dizia “seja educada e a chame de vó”. Mas não adiantava, ela sempre vinha com a resposta: -Nunca tive netos. E acho que isso era muito mais vaidade do que falta de amor por nós.

De mim, eu sempre achei que ela não gostasse muito. Hoje entendo que era apenas o seu jeito meio rude de me amar. Dizia que eu era rebelde. E quanto mais educada eu tentava ser pra mudar essa imagem que ela tinha sobre a minha pessoa, mais rebelde ela dizia que eu era. E eu acredito que ainda sem nenhuma demonstração de afeto de ambas as partes, nutríamos um amor ao nosso jeito, meio estranho.

Vovó Vina, ou melhor, Vina, já que ela pode, e certamente o faz, estar me observando e eu nunca gostei de contrariá-la, era irmã de criação do meu avô e uma pessoa difícil de lidar. Eu me lembro que quando criança eu acreditava que ela era imortal. Não que ela tivesse super-poderes, além do tempero mágico daquele feijão que ninguém mais conseguia copiar, mas é que quando eu nasci ela já era idosa e assim permaneceu por muitos e muitos anos. O tempo passava, a década mudava, muita gente partia e ela tava ali, dedicando o seu tempo aos jogos de baralho, à religiosidade e à pintura dos seus cabelos a fim de driblar as marcas do tempo.

Minha maior frustração foi quando, ao retornar de férias para a casa dos meus avós, me deparei com aquela cabecinha pequena, antes coberta com fios finos e de um negro quase azulado, agora completamente branca. Naquele dia percebi que o tempo, aquele que ela sempre tentou contornar, estava ganhando o combate. E fiquei triste, muito triste.

Há dois anos Vina cozinhou a última panela de feijão, comeu a pequenina porção que o seu estômago comportava e seguiu para o banho. E ali no chuveiro, enquanto a água caía sobre o seu corpo franzino, ela desistiu de lutar contra o seu inimigo, após esquivar-se por 91 anos. Eu não chorei e não tive tempo de me despedir. Não tive tempo, ou foi falta de coragem, não sei, de dizê-la que apesar da sua insistência em negar, ela era sim a minha avó. Mas eu jamais deixei de dizer que o feijão dela era o melhor do mundo. Isso ela com certeza sabia.