Vina e o feijão mágico

O feijão que ela cozinhava. Eu sei que isso nao é algo muito educado da minha parte. Falar de alguém que já  morreu e começar o parágrafo com algo tão banal. Mas se me perguntarem o que ela tinha de melhor, eu diria que era o feijão que só ela sabia preparar. Não que ela não fosse uma mulher de muitas qualidades, muito pelo contrário, mas das lembranças que tenho, é o feijão que mais se destaca.

Franzina, manca de uma perna e de aparência frágil, ela jamais gostou que a chamássemos de vó. Era sempre difícil me referir a ela de outra forma, já que desde que me entendia por gente a minha vó, a verdadeira, me dizia “seja educada e a chame de vó”. Mas não adiantava, ela sempre vinha com a resposta: -Nunca tive netos. E acho que isso era muito mais vaidade do que falta de amor por nós.

De mim, eu sempre achei que ela não gostasse muito. Hoje entendo que era apenas o seu jeito meio rude de me amar. Dizia que eu era rebelde. E quanto mais educada eu tentava ser pra mudar essa imagem que ela tinha sobre a minha pessoa, mais rebelde ela dizia que eu era. E eu acredito que ainda sem nenhuma demonstração de afeto de ambas as partes, nutríamos um amor ao nosso jeito, meio estranho.

Vovó Vina, ou melhor, Vina, já que ela pode, e certamente o faz, estar me observando e eu nunca gostei de contrariá-la, era irmã de criação do meu avô e uma pessoa difícil de lidar. Eu me lembro que quando criança eu acreditava que ela era imortal. Não que ela tivesse super-poderes, além do tempero mágico daquele feijão que ninguém mais conseguia copiar, mas é que quando eu nasci ela já era idosa e assim permaneceu por muitos e muitos anos. O tempo passava, a década mudava, muita gente partia e ela tava ali, dedicando o seu tempo aos jogos de baralho, à religiosidade e à pintura dos seus cabelos a fim de driblar as marcas do tempo.

Minha maior frustração foi quando, ao retornar de férias para a casa dos meus avós, me deparei com aquela cabecinha pequena, antes coberta com fios finos e de um negro quase azulado, agora completamente branca. Naquele dia percebi que o tempo, aquele que ela sempre tentou contornar, estava ganhando o combate. E fiquei triste, muito triste.

Há dois anos Vina cozinhou a última panela de feijão, comeu a pequenina porção que o seu estômago comportava e seguiu para o banho. E ali no chuveiro, enquanto a água caía sobre o seu corpo franzino, ela desistiu de lutar contra o seu inimigo, após esquivar-se por 91 anos. Eu não chorei e não tive tempo de me despedir. Não tive tempo, ou foi falta de coragem, não sei, de dizê-la que apesar da sua insistência em negar, ela era sim a minha avó. Mas eu jamais deixei de dizer que o feijão dela era o melhor do mundo. Isso ela com certeza sabia. 

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2 comentários sobre “Vina e o feijão mágico

  1. Margaret Teles Valiense.

    Realmente, nunca comi um feijão igual.Não só o feijão , tudo que ela fazia era com mto capricho e carinho.Gostava mto que todos elogiassem suas comidas.
    Sinto falta de tudo.

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