A dor e a delícia de escolher onde e com quem morar durante o intercâmbio

Dividir moradia com pessoas com as quais você se identifica e confia é tão importante quanto escolher uma boa escola durante o intercâmbio. Afinal, com os seus “roommates” você irá compartilhar os melhores e piores momentos dessa experiência.
A depender do período do seu programa de estudo, a melhor opção é dividir apartamento/casa com outros intercambistas. E, na maioria das vezes, achar um local legal, onde você se sinta à vontade é uma das partes mais chatas do intercâmbio.
Como o meu programa é de um ano, optei por passar o primeiro mês em uma homestay (casa de família) – o que acho super válido para todos os estudantes, afinal, é o período de adaptação e o primeiro contato com a cultura local.

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Fase 1: Março/2012 na homestay

Após o primeiro mês em Toronto, um colega me avisou sobre um quarto vago na casa em que ele morava. A dona, uma filipina, alugava 4 quartos da casa onde ela vivia com o filho e o marido. Tive muita sorte, pois ela me dava bastante liberdade para cozinhar e convidar os meus amigos, mas ao mesmo tempo, me sentia bastante sozinha, pois o fluxo de estudantes que chegava e partia era constante.
Passava a maior parte do tempo durante os 9 meses em que fiquei lá assistindo a filmes ou lendo no meu quarto. A dona sempre me tratou super bem e o filho dela era super atencioso, me tratava como uma irmã.

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Fase 2: Com Carlos, roommate mexicano que se tornou um grande amigo

Em dezembro do ano passado, dois colegas que estudaram comigo na faculdade no Brasil chegaram para fazer intercâmbio em Toronto durante um ano e resolvemos alugar uma casa juntos. Mais uma vez tive muita sorte, pois achamos uma casa bem localizada, mobiliada e com um preço excelente.
Apesar de termos estudado juntos na faculdade, nunca fui tão próxima a Mayanna e Mateus. Mas o fato de ter pessoas que eu já conhecia do Brasil aqui por perto me deixou bastante empolgada no início.

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Fase 3: Vista da nova casa

E a experiência está sendo ainda melhor do que eu esperava. Hoje, apesar de estarmos dividindo o mesmo espaço por apenas 3 meses, construímos um vínculo de amizade muito forte. Posso dizer que os dois são como meus irmãos.
Temos rotinas diferentes, eles ainda na escola de idiomas e eu trabalhando em horários que muitas vezes me impedem de estar em casa quando eles estão, mas sempre tentamos cozinhar juntos, assistir a filmes, fazer a compra mensal ou simplesmente “jogar conversa fora” quando possível. Só cozinhamos em uma quantidade que sirva os três, ainda que um de nós não esteja em casa. E quando se trata da limpeza, cada um faz uma tarefa.

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Eu, Mateus e Mayanna

A nova regra criada por nós é “Falar somente em Inglês” já que uma das desvantagens de dividir casa com pessoas da mesma nacionalidade é não praticar o inglês como deveríamos. E para a nossa surpresa, estamos seguindo a regra direitinho! 🙂
O conselho que dou para aqueles que pretendem fazer um intercâmbio é avaliar bastante os prós e contras quando se trata de moradia e roommates. Ficar em uma homestay é bastante confortável. Temos comidinha pronta, roupa lavada e não nos preocupamos com a limpeza. Mas ao mesmo tempo, perdemos a liberdade de convidar os amigos para um almoço, jantar, uma cerveja no final de semana.
Alugar um quarto em uma casa com estudantes que você não conhece pode ser algo desafiador. Eu, por exemplo, morei com filipinos, coreanos, um mexicano e um italiano. Uma salada cultural. Difícil nos momentos em que você quer desabafar, está mais carente e até para adquirir mais confiança, pois as diferenças culturais são enormes. Mas faz com que aprendamos a respeitar as diferenças e a perdermos muito do nosso preconceito.
Dividir casa com pessoas da mesma nacionalidade ou fazer um intercâmbio acompanhado de um amigo de longa data também tem seus prós e contras. O maior contra, como já disse, é o fator idioma. Mas esse é um problema que pode ser resolvido com bastante esforço e cooperação de todas as partes. Outra coisa que pode acontecer é a perda de respeito quando estamos chateados com os companheiros de casa. Quando digo falta de respeito, me refiro a discussões mais calorosas que evitaríamos com alguém que não fala a nossa língua. A gente se controla mais quando se chateia com quem não temos tanta intimidade, não é?
Por outro lado, temos o calor brasileiro por perto, aquele abraço acolhedor e a liberdade de falar sobre tudo, sem aquele olhar de “não entendo o que você quer dizer”. Ou até mesmo não precisar falar nada, porque depois de algum tempo eles já sabem o que você sente sem que seja preciso dizer uma palavra.
Tem a questão da comida. Ah, a comida! E como isso é importante…
Se você divide casa com asiático precisa aprender que eles não comem o arroz temperado como o nosso. E que molho agridoce vai bem com qualquer tipo de carne.
Com o mexicano você vai aprender a gostar de comida apimentada, ou então vai ter que fazer a sua comidinha separada. Como eu sou apaixonada por comida mexicana, amava quando o Carlos ia para a cozinha!
E quando você divide casa com o brasileiro… Ah! Ai é só botar mais água no feijão porque tem mais gente chegando…

🙂

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Vergonha é não tentar ser feliz

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Não lembro ao certo se era uma noite de sábado ou de domingo. Mas quando penso em momentos que marcaram a minha infância e adolescência, esse é um dos que rapidamente me vem à memória.

Tenho uma irmã onze anos mais nova. Quando ela tinha por volta de uns 3, 4 anos, eu estava no auge da minha aborrecência. Sabe quando você tenta provar para todos e até pra sí mesmo que é muito mais maduro do que realmente é? Essa era eu. E na cidade onde eu nasci e passei boa parte da minha vida – Porto Seguro -, havia um trenzinho enfeitado que rodava com as crianças pelas ruas mais movimentadas, cheio de palhaços e personagens de histórias infantis. A música que vinha do tal trem podia ser ouvida a quarteirões. Pois ai os pais já sabiam que ele estava passando e aguardavam com os filhos na porta de casa.

Nessa noite eu fui encarregada de levar a minha irmã noTrenzinho da Alegria. A minha primeira reação foi deixar claro que eu não queria ir sentada na frente, ao contrário da minha irmãzinha, que insistia em ficar bem na primeira fileira de bancos, onde todos iriam nos ver. Eu queria de qualquer forma me esconder no meio dos outros passageiros, assim os garotos da minha idade não iriam me enxergar e rir da minha situação, rodeada de palhaços cantando músicas da Xuxa. Coisas de adolescente…

Nunca esqueci esta cena. Enquanto eu dizia que não iria na frente, meu pai me pegou pelo braço e me disse: -Aritta, o que dá vergonha é roubar e matar. E não fazer alguém feliz quando você pode fazer isto. Se ela quer ir na frente, vá na frente.

Eu fui.

Eu estou contando essa história porque há alguns dias, conversando com uma conhecida, ela me disse que eu estava desperdiçando o meu tempo, vivendo no Canadá e trabalhando numa cafeteria, enquanto eu poderia ter um bom trabalho no Brasil. Seguir a minha carreira de jornalista. Eu respondi que realmente ela tinha razão. Eu gostaria muito de estar trabalhando na minha área, conseguir um emprego fixo em jornalismo e viver do que mais amo: escrever, produzir. Mas completei: – Não estou perdendo tempo, pois eu precisei mudar de país para aprender algo que meu pai tentou me ensinar enquanto ainda estava vivo, há dez anos: Vergonha é roubar e matar. E não fazer alguém (ou você mesmo) feliz.

E pode ser que eu arrume as malas e volte daqui a uns dias, pode ser que não. Mas eu jamais vou me envergonhar do que fiz e do que estou fazendo. Porque eu estou tentando ser feliz.

Fica a dica.