Dois anos no Canadá

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Dois anos. Não sei se posso dizer que esse tempo passou num piscar de olhos ou se quando olho para trás e lembro de tudo que já vivi e aprendi por aqui me parece uma eternidade. Dois anos em uma vida que eu de certa forma imaginava – e desejava.
Lembro de folhear revistas em uma dessas brincadeiras de criança com a minha prima Carlinha. A diversão era olhar as fotos e propagandas e escolher o que “pertencia” a mim e o que pertencia a ela. Um ator bonito em uma página seria o meu futuro marido e o da outra página seria o dela. Eu dizia que iria morar no exterior, em uma casa sem muro, com um gramado bonito. Carlinha seria a minha vizinha e os nossos filhos seriam melhores amigos, como nós fomos um dia.
Ela casou, hoje espera um bebê e vive feliz com a família no Brasil. E eu, acho que de certa forma acabei vindo viver aquele sonho da infância.
Dizer que a vida de quem escolhe morar fora e recomeçar do zero é fácil me soa como conversa de argumento fraco, sem fundamento algum.
Cheguei há dois anos como uma estudante de intercâmbio que a princípio passaria um ano em Toronto. De certa forma já sabia que a minha estadia seria prolongada. Eu me conheço muito bem. O que eu não sabia é que enfrentaria tantas dúvidas e que a persistência se tornaria a minha companheira diária.
A gente vive um conto de fadas nos primeiros meses. Tudo lindo, organizado, um país multicultural, novas amizades. Até que a adrenalina que te acomete durante o início dá lugar a uma sensação de insegurança. Vale a pena abrir mão de tudo que deixei no Brasil e recomeçar literalmente do zero? Eu ainda não sei a resposta. Mas resolvi seguir a minha intuição e o meu coração.
Apesar da enorme saudade que sempre senti da minha família e dos amigos, tinha muito medo de retornar ao Brasil, ainda que de férias. Eu achava que retornar me traria ainda mais dúvidas e que eu ficaria dividida entre a vida que eu tinha (e que nunca foi ruim) e a nova vida que eu estava levando.
E voltar foi melhor do que eu esperava. Matar a saudade da família, rever os amigos, comer tudo o que me faz falta e curtir a praia literalmente como se os dias estivessem contados. Porque voltar ao Brasil também me fez sentir saudade de Toronto e perceber que ainda que eu não saiba por quanto tempo ficarei, o meu lugar agora é aqui.
Eu poderia listar diversos motivos que me fazem amar o Canadá. Mas dentre tantas razões, considero o aprendizado que adquiri aqui como a maior delas. Não falo da fluência no inglês, mas da mudança na pessoa que eu costumava ser há dois anos e quem eu sou agora. Nunca pensei que pudesse me desfazer de tantos preconceitos, porque na realidade eu não tinha consciência de que eles existiam em mim.
Conviver com pessoas que obedecem a outros costumes e possuem diferentes crenças me fez enxergar que a minha razão será sempre relativa. Me fez baixar o tom em discussões, ouvir mais e aceitar que não sou e jamais serei a dona da verdade. Tenho amigos canadenses, mexicanos, asiáticos, indianos, etíopes e de outras nacionalidades. Nunca presenciei nenhuma discussão sobre religião, cultura ou política. As pessoas se respeitam. É bonito de se ver.
Logo que terminei o curso de inglês comecei a trabalhar na Starbucks, já que o meu programa consistia em 6 meses de estudo e 6 de trabalho.
Os primeiros dias não foram fáceis. Nunca imaginei que seria capaz de acordar às 4 da manhã para pegar o ônibus em pleno inverno canadense e começar o turno às 5am. Mas eu jamais faltei ao trabalho por preguiça ou por não ter acordado no horário. E jamais pensei em desistir ou tive vergonha do que estava fazendo. Meu inglês não era fluente e eu me esforçava todos os dias para fingir que entendia algo, quando no fundo não fazia ideia do que se tratava.
Sempre tive o respeito dos meus colegas e das pessoas a quem eu sirvo. Após alguns meses de trabalho recebi a proposta de ser transferida para uma nova filial, também no Distrito Financeiro de Toronto, onde 90% dos clientes são investidores bancários e CEOs de grandes empresas. Aceitei o desafio porque a ideia de treinar novos funcionários me pareceu desafiadora. Ah, e porque eu não precisaria trabalhar nos finais de semana – meu sonho!
Virei supervisora e os desafios se tornaram ainda maiores. Ter o inglês como segunda língua, supervisionar uma loja que atende milhares de pessoas por dia, lidar com questões financeiras, liderar uma equipe, cuidar de algo que não é seu, mas que você se orgulha de fazer parte.
Sim, é difícil aceitar o fato de que abri mão da minha profissão e hoje trabalho numa cafeteria. Mas o meu emprego paga o meu sonho de viver em um país onde eu me sinto respeitada, ainda que eu vista um avental verde. Tenho férias pagas, plano de saúde e auxílios extras que eu nem sabia que existiam, como o meu óculos de grau de quase duzentos dólares pago por eles; tenho uma conta com ações de investimento disponibilizada pela empresa, recebo treinamentos constantemente para seguir uma rotina de qualidade de serviço extremamente rigorosa, passo por revisões com meus superiores a cada seis meses para aumento de salário, mas o mais importante de tudo: sou respeitada por todos que passam por ali, de funcionários a clientes.
É claro que ainda não atingi os meus objetivos. O caminho ainda é longo. E para chegar lá começo em setembro o curso de Marketing na George Brown. Serão dois anos até conseguir um diploma e enfim começar uma nova carreira.
A vida aqui não é um mar de rosas. Sinto falta de tanta coisa que poderia perder um dia inteiro escrevendo sobre isso. Mas quando olho para trás e vejo os passos já dados até aqui, tenho muito orgulho das minhas conquistas. O preço pago por mim é alto, se é que o valor daquilo que chamamos de saudade algum dia pode ser calculado.
Mas uma das maiores lições que eu aprendi foi esta: você nunca vai ter tudo o que quer da vida. Mas você deve doar à sua vida o melhor que há em você. E eu tenho tentado fazer a minha parte.

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Proteja as suas feridas e não siga os meus conselhos

Eu falo quando tenho que falar. Ainda que tenha conhecimento da regra de que o silêncio vale muito, eu falo demais. Falo besteira. Falo a verdade, falo palavrão, eu grito se for necessário. Mas não deixo nada entalado na garganta.
Sempre fui atrevida e sou muito boa para dar conselhos, ainda que eu odeie fazê-lo. Sim, me acho patética aconselhando alguém quando sei que geralmente quem pede conselho já decidiu o fazer. Eu, por exemplo, quando pergunto o que deveria fazer já fiz o que não devia ser feito e tô só a procura de alguém que me critique para que eu sinta um pouquinho de remorso. Pois até dos meus erros eu carrego orgulho. Coisa de aquariana que acredita que toda lógica pode ser relativa.
Tenho muito disso, eu vejo a direção em que o rio tá indo e decido cavar um pouco de terra, só pra ver se consigo mudar o curso d’água pra aquele lado que eu acho mais bonito. Nem sempre eu consigo, mas sou tão teimosa que mesmo quando falho, digo que tem sim, uma correntezinha ali, indo lá pra onde eu queria. Mas não tem. É só água da chuva que caiu ontem.
Eu acordo com vontade de mudar o mundo, mas vou dormir com a esperança de que o mundo me mude. Eu já tive a oportunidade de me ferrar muito. Levei tantos tombos que meus joelhos carregam as marcas – literalmente. Muitos dizem que a gente aprende a cair, eu continuo achando que uma queda é sempre pior que a anterior.
Mas uma coisa que eu aprendi é que mesmo o melhor dos curativos pode se soltar se você não tiver o cuidado necessário. E a ferida quando exposta machuca ainda mais. Lembre-se: ao se machucar, ponha dez band-aids se necessário, proteja-se de uma dor ainda maior.
Mas quer saber? Jamais siga o meu conselho. Não gaste dinheiro com curativos e deixe o seu joelho ficar calejado. Eu nunca soube mesmo cuidar das minhas feridas. No fundo, acho que guardo certa afeição por elas.