Os envelopes pardos

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Todo mês a cena se repetia. Eu esperava ansiosamente pelo “homem do correio”. Os carteiros já sabiam o meu nome e, quando eu achava que estava demorando muito para o meu envelope chegar, desconfiava que ele estivesse perdido em meio a tantos outros, ia até a sede do correio, que ficava a um bloco da minha casa, e insistia para que os funcionários checassem se havia algo para mim.
Não lembro quando foi a última vez que recebi um daqueles envelopes grandes, pardos. Mas lembro muito bem o quanto eles eram importantes para mim.
Por uns dez anos, durante a minha infância e adolescência, a minha irmã mais velha, Alessandra – a Alê -, me enviou ao menos um livro por mês. Algumas vezes dois ou três, os quais eu devorava com a pressa de quem quer acabar o que está lendo antes do próximo chegar. Os meus livros eram – e continuam sendo -, o meu xodó. Richard Bach, Ganymédes José, Pedro Bandeira, Ruth Rocha, Walcyr Carrasco, Marcelo Rubens Paiva, e muitos outros eram os meus ídolos! Com eles eu subi “A Ladeira da Saudade”, lidei com “A Droga de Obediência”, conheci “A Marca de uma Lágrima”. Fernão Capelo Gaivota me apresentou o significado da liberdade; Pollyanna mudou para sempre a forma como eu encaro os meus problemas; O Mundo de Sofia me ensinou tudo que sei sobre filosofia e Valéria Piassa Polizzi me mostrou a importância de saber lidar com as tragédias da vida. Ao ler Feliz Ano Velho eu sofri com Rubens Paiva e chorei como quem vê o seu melhor amigo ficar tetraplégico.
A cada vez que terminava de ler uma das obras, atualizava a minha lista e enviava para Alê não se confundir e enviar livros repetidos. Eu era tão boba e tinha tanto orgulho daquela lista que guardava ela dobradinha, dentro de uma das minhas agendas, dividindo espaço com os meus dramas juvenis.
Os livros sempre foram a minha válvula de escape. Um lugar para onde eu poderia me transportar caso a vida estivesse muito morna. E como para todo mundo que é apaixonado pela leitura, a última página sempre vinha acompanhada por um sentimento de vazio…o autor me deixava órfã.
Um dia precisei mudar de cidade, carreguei comigo algumas caixas cheias de livro. Não sei quantos acumulei nas estantes patinadas do meu quarto, mas sei que eu tinha ciúmes da minha coleção, como se cada um guardasse um pedaço de mim em suas páginas.
Alê só parou de enviar os livros um pouco antes de eu começar a faculdade. Quando eu já dividia a minha atenção entre as publicações e os namoradinhos.
A minha irmã sempre foi o meu maior exemplo. Somos completamente diferentes, mas temos em comum uma força tamanha, daquelas que só quem passa por alguns maus bocados adquire. Com ela eu aprendi a ter paciência, a acreditar em superação e, principalmente, a correr atrás do que é meu. Com Alê, eu aprendi que nem sempre a vida vai me trazer o envelope pardo, muitas vezes eu vou ter que ir encontrá-lo. Eu aprendi que toda história, ainda que trágica, te ensina algo. E que por mais que o final de um capítulo venha acompanhado por um breve período de morbidez; há sempre um novo livro à minha espera, com novos personagens, novos enredos e a esperança de um final ainda melhor. Te amo, Alê!

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