O meu herói não era perfeito 

  
Fazia tempo que eu não chorava ao lembrar do meu pai. Hoje eu cai aos prantos. Chorei no banheiro do trabalho logo após contar a uma colega que hoje faz 7 anos que ele faleceu. “Poxa, logo após o seu aniversário…”, ela disse. Foi o suficiente para eu me lembrar daquela data, o meu aniversário em 2008, quando eu esperei a ligação que nunca veio. 

O meu pai nunca foi o meu melhor amigo. Ele era o meu pai e eu era a filha mais velha que ele tinha. Meus pais se separaram quando eu tinha apenas um ano. Fui morar com a minha mãe no Ceará e meu pai continuou na Bahia. Aos cinco, perdi a minha mãe e cheguei em Porto Seguro como um presente de Natal pro meu pai e meus avós. 

Nunca fui rebelde, sempre lidei bem com a morte da minha mãe, mas não é de mim e nem dela que eu quero falar. A minha mãe é história pra outro capítulo…

O meu pai era a pessoa mais teimosa que eu já conheci. E também fazia o melhor estrogonofe do mundo. Eu o achava lindo. E cheiroso. Foi o homem que mais amei e ao mesmo tempo o que mais me desafiou a aceitar as adversidades da vida. 

De um jeito meio torto ele tentava exercer o seu papel de pai e de um jeito ainda mais torto eu tentava exercer o papel de filha. Discordava de muitas das suas ideias, mas éramos grudados até o início da minha adolescência, quando eu passei a achar que já podia mandar no meu próprio nariz. Eu estava errada. 

O meu pai esteve sempre presente e nos amava (eu e a minha irmã Clara) incondicionalmente. Mas as regras da minha educação eram mesmo ditadas pela minha avó, com a qual nós morávamos e que acabou virando a minha mãe. 

Ele sempre me mimou e eu tinha tudo que queria. Mas, como qualquer adolescente, tive meus momentos de “pisar na bola”. Certa vez a conta de telefone veio mil reais. Ele ficou furioso. Eu, que tinha apenas 16 anos e uma precocidade de assustar a qualquer um, escrevi uma carta de 2 folhas para pedir perdão pelo meu erro. 

Quando ele se separou da mãe da minha irmã, sofreu demais. Eu nunca o abracei para dizer que estava ao seu lado, mas subia para o quarto dele, no segundo andar da casa, e fingia estar dormindo quando ele chegava. Era a minha forma de mostrar que ele jamais estaria sozinho. 

Meu pai morreu logo após uma cirurgia para a retirada de um coágulo na cabeça. Não resistiu ao pós-operatório. É essa a história que eu conto para a maioria das pessoas. E é mesmo a verdade, ou ao menos parte dela…

Meu pai nunca foi um santo. Diversas vezes fui pegar dinheiro para o lanche da escola e encontrei maconha no bolso da sua bermuda. Até ai tudo bem. 

Só que nem todo mundo tem cabeça para enfrentar uma separação e o meu pai acabou se afundando nas drogas. 

Poucas coisas na vida me dão medo. Uma delas é perder a minha sanidade por não saber lidar com a saudade. Mas, temos convivido juntas por tanto tempo e, até agora, parece que sei lidar bem com a maldita. O meu pai não foi forte o suficiente. Começou na maconha, passou para a cocaína e terminou no crack. 

Eu vi aquele homem lindo se desconfigurar. Perder a sua identidade. Eu não o reconhecia e tinha medo do que via. 

O telefone tocou às 11 da noite e era alguém para avisar que o meu pai estava sentado em uma calçada qualquer. O meu herói tinha perdido a sua armadura, a sua força, a sua beleza. 

Nós tentamos, internamos, pedimos socorro e achávamos que conseguiríamos salvá-lo. Eu, no auge dos meus vinte anos, dividia o meu tempo entre a faculdade de Jornalismo, o estágio e as crises de choro ao ver a tristeza que abatia a minha família. Meus avós são as pessoas mais fortes que já conheci. Meu pai fugiu da clínica de reabilitação. Vendia tudo que tinha para comprar drogas.

Um pouco antes do meu aniversário recebi a ligação da minha tia, me contando que ele havia sido encontrado todo machucado, ensanguentado, sem conseguir se manter em pé. Contou que havia apanhado dos ladrões enquanto roubavam a sua moto. Nós sabíamos que ele estava mentindo. 

Minha avó o colocou no meu antigo quarto, pois ele não tinha forças (estava pesando uns 60kg) para subir as escadas. Cuidaram dele por alguns dias até que ele reclamou de dores fortes na cabeça. Descobriram um coágulo e não sabemos se foi de tanto apanhar ou se foi resultado de uma queda, enquanto ele tentava sair da cama. Acredito que a primeira teoria faz mais sentido. 

Me disseram que ele iria operar, mas que eu não devia abandonar a faculdade e ir para Porto Seguro, já que no pós operatório ele não poderia receber visitas e que o melhor seria eu esperar ele ser liberado do hospital, para que eu pudesse vê-lo em casa. Eu concordei. Tia Rita, que sempre foi a escolhida para tratar de assuntos mais delicados, por ser mais firme e saber como lidar com situações complicadas, me ligou logo após ele ser operado. O meu coração disparou e eu achei que algo havia dado errado. Não, a cirurgia havia sido um sucesso. 

Naquela noite eu quase não dormi. Fiz planos, decidi que iria ficar ao lado dele por quanto tempo fosse preciso e que faria o possível para ter o meu herói de volta. 

Na manhã seguinte, a notícia: o meu pai tinha piorado e não resistiu ao pós-operatório. Morreu o meu herói. 

O meu mundo desabou. Todos aqueles planos da noite anterior estavam anotados numa folha do meu caderno. Em poucas horas, resumi numa folha tudo o que queria fazer para recuperar todos aqueles anos em que eu deixei de ser a filha para ser também a mãe, que se preocupava com o filho que não voltava pra casa. 

Estava tudo escrito naquele papel que eu rasguei furiosa enquanto me culpava por não tê-lo ajudado a sair do fundo do poço. Por não ter me internado junto com ele naquela clínica só para impedir que ele fugisse. Por não o ter abraçado forte e dito que o amava quando ele se sentiu sozinho. Por não ter dito que ele não tinha o direito de ser egoísta ao ponto de deixar eu e a minha irmã sem a nossa figura paterna, sem o nosso herói. 

Levou algum tempo até que eu entendesse que eu não podia me culpar pela morte dele. Eu não podia vencer aquela batalha por ele. No fim, o meu herói não era bonito, já não me protegia, não me trazia a paz. O meu herói desistiu de ser herói no momento em que perdeu a batalha para as drogas. Mas eu continuo guardando as lembranças daquele cara cheiroso, cheio de estilo, que fazia o meu jantar e passava no meu quarto só pra me dar um beijo de boa noite quando eu já estava adormecida. Continuo guardando as lembranças de meu pai com a minha irmã no colo, aquele olhar bobo, apaixonado pela sua indiazinha. 

O meu herói estava longe de ser perfeito. O meu herói, na verdade, era cheio de defeitos, pois ele era humano. Foi o homem que mais amei na vida e eu não o teria trocado por ninguém. 

P.s: Eu decidi compartilhar esse texto tão íntimo, escrito ontem, para que muitos de vocês saibam que todos nós enfrentamos problemas. Alguns maiores, outros menores. Ninguém é perfeito. Eu não sou, você não é, o meu herói não era, e talvez o seu também não seja. Ame-o, ainda assim, com todas as fragilidades que ele tem. Porque heróis, infelizmente, não são imortais. E quando partem, fazem uma falta danada. 


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16 comentários sobre “O meu herói não era perfeito 

  1. Eu não poderia simplesmente ignorar este texto e não comentar, afinal, mexeu muito comigo, passei por situações parecidas, perdi também dois heróis, não pela exata mesma razão, mas uma das pessoas foi por conta de outra que era usuário de droga e matou os sonhos dela…
    Eu sempre visito o seu blog, porque gosto da forma que você escreve, gosto ainda mais do rico material fotográfico que você tem e eu estou para iniciar o meu processo de imigração para o Canadá, então é de meu interesse sempre ver as coisas sobre o Canadá. Mas após ler este texto, só tenho algo a lhe dizer: Perfeito ou não, o seu herói te fez ser essa pessoa linda, iluminada, forte, especial e pronta para a vida. Você é uma vencedora pelo simples fato de não perder a sua essência e ainda assim, sentir e ser sincera consigo mesma.
    Muito obrigado por ter compartilhado este texto tão íntimo, tão profundo e tão cheio de verdade.

    Que toda a sua dor tenha sido transformada em gratidão, admiração e forças para seguir, sendo a heroína de muitos que estão em sua vida.

    Tenha uma semana maravilhosa.

    1. Oiii! Acabei de visitar o seu blog! Tentei achar o seu nome e não consegui. 😦
      Que máximo receber esse feedback! Eu não esperava que o meu post fosse despertar algo tão positivo nas pessoas. Obrigada por visitar o blog, por dedicar um pouco do seu tempo para deixar algo tão legal aqui nos comments.
      Li um dos posts em que fala que retornou ao Brasil após ter vivido nos EUA e também Portugal. Espero que tudo dê certo e que vc não desista do seu sonho.
      Muito obrigada! Que a sua semana seja igualmente maravilhosa.
      🙂

      1. Muito obrigado por retornar, eu agradeço por suas palavras, que o tempo fortaleça cada vez mais os sonhos e os objetivos. Parabéns por sua força e coragem, eu torço muito por vocês e espero que a vida te dê muito mais do que você deseja, que a felicidade seja uma constante em todo o percurso. Jamais desistirei do sonho, certas coisas estão impressas em nossas almas, impossível desistir…
        Obrigado e seguirei por acompanhar o seu blog.

  2. Tatiana Vasconcelos

    Oi, estou lendo seu blog, para saber um pouco sobre a vida em Toronto… (apesar de não conhecer ja estou apaixonada… )E fiquei emocionada com este post, sei o que é perder o Pai e pensar no tempo q perdemos ( meus pais se separaram qdo eu era um bebe e não tinha muito contato mas o amava mesmo assim) e perde-lo ainda é bem dificil (ele morreu qdo eu tinha uns 14 anos, hj tenho 37)… mas a vida segue… parabens pelo blog…..

  3. MAriana d

    nem Sei Te dizer o quanto sinto por tudo isso. Tenho uma tia próxima que também passa por isso e minha Mãe não desiste dela mesmo com a família toda indo contra. Eu entendo. Se fosse minha Irma, como no Caso da minha Mãe, Ou se fosse Meu Pai, como no Seu Caso, eu também Nao desistiria. A gente sabe que eles são são somente Aquilo que a droga os tornou ne? Enfim, sinto muito mesmo e Segurei o choro por aqui. Também estou longe de casa e as vezes também tenho esse medo de perder a sanidade… Isso Parece ser tão comum aqui em Toronto que assusta. Força pra gente!

  4. Lorena Cabral

    Desde que fui para Toronto em abril de 2013 uma colega de sala, Mayanna, me apresentou seu blog. Lembro que gostei logo de cara! E então passei a ler seus textos, que leitura prazeirosa:) Confesso que o de hoje superou…Meu pai não foi usuário de drogas, mas pisou na bola feio comigo e meus irmãos. Muitas coisas aconteceram e hoje percebo que ele tenta recuperar o tempo perdido, nós o amamos! Vc conseguiu mexer com isso…Não é fácil mesmo abraçar e dizer o quanto se ama, mas agora sei que preciso fazer isso pra ontem. Parabéns! Deus te abençoe e continue te usando através de seus textos a impactar vidas<3 Bjos

  5. Aline

    Hoje, pesquisando sobre o Canadá, li seu blog inteirinho. Me identifiquei com vc, sou baiana, de Salvador. Formada em Comunicação, adoro escrever e tenho amor às palavras. No entanto, quando li esse texto, não pude deixar de pensar: “puxa, parece que sou eu”. Não perdi meu pai, que Graças a Deus está vivo e ao meu lado. Mas foi por pouco. A separação dele e da minha mãe fez com que ele recorresse ao álcool, quando ainda morávamos todos juntos. Alcoólatra, vivia nos ameaçando e descobri a sensação de ter medo de quem tanto amava. Num dia, o telefone tocou e me contaram que ele iria nos matar. Ele já não falava nada com nada. Não pagamos pra ver: saímos de casa, eu com 19 anos carregando o mundo nas costas, sem dizer a ele onde fomos morar. Meu pai chegou a ficar 1 semana morando na rodoviária. Até que um dia ele teve um acidente – eu estava saindo para comemorar um novo emprego e o telefone tocou. Era a assistente social do Hge e pediu que eu fosse pra lá imediatamente. Ele teve traumatismo craniano mas sobreviveu. E acho que aquele acidente Trouxe ele de volta à vida. Hoje, comemoramos natais todos juntos – ele e minha mãe são amigos. Ele é meu herói e meu bandido, como na música de Fábio Jr. É o homem da minha vida e graças a ele sou quem sou hj. Parabéns pelo seu texto. Quem sabe daqui a alguns meses estarei por aí e possamos descobrir mais coisas em comum! Beijos!

  6. Gabriela

    Texto perfeito. Tb perdi minha mãe há 5 anos. Pensava a mesma coisa q vc – medo de perder a sanidade de tanta saudade. Me emocionei com seu texto, Pq Tb pensei na minha heroína, na minha mãe.
    Às vezes acho q estamos sendo constantemente testadas – após a morte de minha mãe, eu procurava pensar nela o mínimo possível, saia bastante, mas droga nunca entrou em minha vida não, saia p espairecer com amigos, fazia pequenos encontros com familiares, tudo p não pensar. O tempo passou, coloquei as ideias no lugar, antes eu estava persistimos , N sabia o q fazer da minha vida. Foi aí q decidi q iria me mudar p o Canadá. Resolvi fazer uma visita ao meu novo país e ao voltar resolvi saltar de paraquedas. Foi qdo sofri um acidente de aviao, neste mesmo período , minha irmã começou a luta contra o câncer, ela tem apenas 38 anos. Meu mundo virou d cabeca p baixo novamente. Foi qdo recomecei a fazer as pazes com Deus. Estamos vivas, felizes e estou louca p ir morar no Canadá. 😊

    Fica com Deus!!

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