Quando a gente quer distribuir abraços 

 

Eu não lembro se já contei por aqui. Acho que em um dos meus últimos textos eu mencionei a minha insônia. Pois é, eu não gosto muito de dormir. 

Hojé é mais uma dessas noites em que fico rolando na cama de um lado pro outro, inquieta, cheia de energia. E então a cabeça vai longe. Começo a querer escrever… Nem sempre eu tô com a criatividade a todo vapor. Mas ainda assim eu quero aparecer por aqui, como se ao escrever eu estivesse batendo um papo com outras pessoas. E no final das contas eu tô mesmo. 

Resolvi olhar as estatísticas dos últimos dias do blog e o meu coração pulou de alegria. Eu mal consigo acreditar que tanta gente passa por aqui semanalmente. Sinto um frio na barriga sabe? O peso da responsabilidade.

  
O meu muito obrigada a todos os que estão no Brasil, Canadá, Estados Unidos e tantos outros países que passaram a seguir o blog, que comentam, mandam mensagens carinhosas. Vocês me enchem de alegria!!!! 

E enquanto checo as estatísticas, fico me perguntando quem são vocês e de que forma vocês descobrem o blog. Eu vejo lugares na lista que eu nem sabia que existiam! 

  

Bahrain ou Bahrein (Reino do Berém) é um pequeno estado do Golfo Pérsico e eu nunca havia ouvido falar dele antes. Gente, a internet é mesmo uma coisa incrível!

Eu posso gastar horas aqui tentando explicar o quanto eu sou feliz em poder ajudar, a compartilhar as minhas histórias, me aproximar de pessoas novas e me reaproximar de pessoas que eu já não tinha mais contato. Me sinto privilegiada em poder fazer algo que eu amo e receber tanto carinho em retorno. 

O meu obrigada será sempre insuficiente diante da alegria que eu sinto. 

Que vocês tenham um domingo maravilhoso e uma semana ainda melhor! 

Beijo 😊 

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A menina, o garoto e o abraço de despedida

  
Passava um pouco das 4 da tarde. Sentei no canto mais calmo da cafeteria. Mexia o meu chá numa tentativa de esfriar a água. Quase três anos vendendo cafés e eu ainda queimo a língua. Não sei lidar com nada muito quente e não gosto do meu chá gelado. Aprendi que ao menos com relação às minhas bebidas eu deveria ser menos extremista. Nem oito, nem oitenta. Passei a gostar do morno. A ser paciente e a esperar um pouco antes de dar primeiro gole. Nem sempre funciona. Mas tenho me queimado cada vez menos. 

Um casal sentado mais adiante discutia o relacionamento. A garota falava firme enquanto o rapaz ouvia calado. Uma mão apoiava o queixo, a outra acariciava os pêlos do braço dela. Ele pedia desculpas. Ela dizia estar cansada. 

Em um dos momentos achei que haviam percebido que os observava. Foi quando ela olhou ao redor e logo depois sussurou “eu não quero mais”. Para em seguida completar “não estou feliz”. 

Ouvi um suspiro forte. E apesar de não conhecê-los, senti uma pontada no peito. Ele continuou calado. Ela puxou o braço que estava sendo acariciado por ele como se aquele fosse o primeiro sinal de distanciamento. Ele deixou que ela se afastasse. Como se concordasse que era mesmo chegado o fim. 

Foi quando ela disse: – Tenho que ir. Vou fazer a aula das 5. E ele respondeu: – A gente pode tentar mais uma vez. 

“Já te dei todas as chances que eu poderia ter dado. Não quero mais. Somos adultos, precisamos seguir em frente”, ela respondeu enquanto se preparava para deixar o local. 

Ele continuou quieto. Calado. Cabisbaixo. Deu um gole no café gelado, balançou o copo como se tentasse misturar o gelo ou ganhar tempo para encontrar as palavras certas. Optou pelo silêncio.

A garota colocou a mochila nas costas, pendurou o tapete de Yoga em dos ombros, uma mão segurava o café e a outra oferecia ao garoto o que parecia ser o último abraço. 

Eu já não me importava em ser vista observando a cena. Confesso que a minha vontade era levantar da cadeira, tirar-lhe todo aquele peso que ela carregava nas costas, colocar o café que ela segurava de volta na mesa e dizer que aquele abraço, mesmo que cheio de mágoas, merecia mãos e braços livres. 

Mas foi o que ele recebeu: o abraço  frouxo e desajeitado da menina que há pouco ele acariciava. A menina que, sabe-se lá porque, guardava tanta mágoa que era incapaz de faltar à aula das cinco. 

Nossos olhos se cruzaram quando ele meio constrangido voltava a se sentar. Eu o encarei por alguns segundos antes de baixar os olhos e abraçá-lo mentalmente. Um abraço que ele não deve ter sentido, mas que foi dado com mãos e braços livres. Sem o peso das costas e das mágoas. O abraço de uma desconhecida que conhece bem o fardo de um abraço de despedida.

Aquela mão que me ajudava a enfrentar os meus fantasmas

  

Eu já era bem grandinha quando comecei a ter medo de dormir sozinha. Foi logo após o meu pai falecer que eu passei a ter umas crises de pânico e falta de ar. Hoje posso admitir que, na maioria das vezes, era só a minha carência pedindo – de forma desajeitada e imprópria – um pouco de atenção.

Lembro das inúmeras idas à emergência hospitalar e dos médicos repetindo que aquilo era psicológico. Eu precisava controlar a minha mente. 

Nessa época eu acreditava não possuir talento algum e meu coração acelerava sempre que alguma tarefa me era atribuída. Mas eu fingia ser forte, segura, confidente. Fazia o que me era solicitado e dava o melhor de mim.
Foi também nessa época que eu ganhei o meu primeiro carro em um sorteio de uma loja de materiais para construção. A felicidade que me consumia era proporcional ao meu pavor em dirigir. Eu não acreditava ser capaz. Até achar um professor que me ajudou a vencer o trauma e me fez descobrir que eu na verdade amava dirigir. 
Levei uns bons dois anos tendo a minha prima como motorista – a mesma que segurava a minha mão sempre que eu tinha crises de falta de ar e a mesma que dormia ao meu lado em uma cama de casal, em um apartamento de três quartos – e apenas duas pessoas. Eu tinha mesmo medo de dormir sozinha. 
Anne e eu nunca brigamos. Éramos o exemplo perfeito do que classificam como opostos. Não tínhamos interesses em comum. Mas éramos essenciais uma pra outra. 
Eu tinha ciúmes da forma como todos a elogiavam. Anne nunca decepcionava. Eu saía todos os finais de semana, gastava mais do que deveria, não era exemplar como ela era.
Anne fazia de tudo para me ver feliz. Era mais que uma prima, amiga, irmã. Anne era parte de mim. A parte calma, centrada e racional. Era eu com muito mais sensatez. 
Eu não lembro de ter dito o quanto a amo em todos esses anos. A verdade é que a distância amolece mesmo o coração. Dá a gente a coragem pra falar o que já não pode ser demonstrado em gestos do cotidiano. 
Hoje eu senti falta de ar. E acabei descobrindo que na verdade eu sentia era a falta dela. E daquela mão fina que apertava a minha tão forte quando eu tinha medo de enfrentar sozinha os meus próprios fantasmas. 

When going back is not part of the plan anymore 

It’s not easy to find the courage to let everything around you go. It’s easy to pack your luggage, buy a ticket and head to another country. What’s hard is to face your new reality when you start to realize that you don’t really belong to the place where you lived most of your life.

Because when you leave you must be prepared to reinvent yourself, to accept that the “now or never” has come, and that you will have to find yourself, to know yourself, and to define who you want to be – even if you think you have already shaped who you are.

It’s time to get rid of certain habits, and to build stronger wings that will help you take off in one of the most important flights of your life. It’s time to look past prejudices and learn once and for all the meaning of respect.

Moving to another country is often a reason to scape from problems and then you find yourself surrounded by thousand of others.

It’s like being on a roller coaster when you are afraid of heights. The first months bring that same feeling of going up: excitement, happiness, pride in making it there. And then you wake up one day and realize that rebuilding your life is not as easy as you thought; it’s hard, tiring, and exhausting. But you are already at the top; the investment was too high. Your friends, your family and everyone who stayed behind is there, watching you from afar. You can’t turn off the engine, you are too scared to ask to get off. You smile and hide the despair. You close your eyes and go. Scared and unsure if it’s going to work out.

Some people give up after the first drop. Others get used to the adrenaline and keep going. Because there is nothing better than finding out that you can do it.

Living abroad is not about recognizing your limits, it’s about stretching them a little more, day after day. It’s realizing that you can go much further. It’s about working hard to be noticed in a place where you feel like you are just “one more person”, and to recognize that being that person can mean a lot to those who once were no one.

Living abroad is to give birth to a new “you”, it’s like being your own parent. It’s to struggle to get by on your own and to be proud of the person you have become. It’s to accept that you will never be the same and to have enough courage to decide that going back is not part of your plans anymore.

P.s: The original version of this article was published on March 27, 2015 and It has got over 120k views so far. 

Acampar em Muskoka: simplicidade, contato com a natureza e muita diversão

Eu nunca havia acampado. Na verdade, eu não lembro de ter acampado quando criança e tem aquele velho ditado “se eu não lembro, eu não fiz”. 

Logo que cheguei em Toronto ouvia de muita gente que acampar durante a primavera/verão é uma das atividades preferidas de quem mora no Canadá. Eu, que sou apaixonada por atividades ao ar livre, amei quando a Gabi e a Jess me convidaram para acampar em Muskoka, a mais ou menos duas horas e meia de Toronto. 

O acampamento em que ficamos se chama Arrowhead Provincial Park e oferece várias atividades bacanas como canoagem, stand up paddle e trilhas para caminhadas e passeios de bicicleta. 

 

Arrowhead Provincial Park

Como eu era marinheira de primeira viagem, não ajudei na organização do nosso acampamento, e a Jess, que já acampou diversas vezes, foi quem organizou tudo! A minha primeira vez acampando não poderia ter sido melhor. Ela é tão organizada que não deixou faltar nada! 

 

O parque tem algumas vistas lindas
 
Johnny me ensinando a acender a nossa fogueira
 
Barracas

Fomos em um grupo de cinco pessoas e levamos comidas de fácil preparo como ovos, salmão, salada e frutas.

Café da manhã

À noite, fazíamos fogueira e tomávamos vinho. A temperatura estava bem baixa nas duas primeiras noites, mas fomos preparados com toucas, luvas e moletons. 

E, para que a minha experiência acampando fosse completa, fui “batizada” com uma noite regada a marshmallow feito na fogueira e s’mores, o tradicional doce feito com bolacha, chocolate e marshmallow… Pensem em uma coisa deliciosa? É o tal do s’mores! 

 

Marshmallow
 
S’mores: derrete o marshmallow e o chocolate e faz um sanduba com biscoito

O parque oferecia chuveiros com água quente e banheiros bem próximos ao nosso acampamento, o que facilitou bastante a nossa vida. 

Tem urso andando por ai

No nosso segundo dia no parque ouvimos de um grupo de pessoas que um urso havia “visitado” um acampamento próximo ao nosso. Eu já comecei a tremer de medo. Hahaha

Aviso sobre a existência de ursos no parque

Segundo os funcionários do local, o grupo de pessoas que recebeu a visita do urso às 4 da manhã havia deixado comida do lado de fora das tendas, o que é proibido em acampamentos por aqui por atrair os animais. Felizmente, nada de grave aconteceu, apesar de terem perdido parte da comida. 

Caminhada, canoagem e caiaque

Lindo demais

Como a temperatura ainda estava um pouco baixa na nossa primeira manhã, resolvemos fazer uma caminhada por uma das trilhas que tem mais ou menos 3km. O destino é uma corredeira e um pouco mais à frente, as praias. 

 

Corredeira em uma das trilhas que fizemos
  
Johnny, eu, Jess, Jelena e Gabi
Jess e Gabi

No domingo a temperatura aumentou, o sol resolveu aparecer e passamos o dia na praia. 

 

O parque oferece aluguel de canoas , caiaques e stand-up paddle

   

Tentamos alugar um stand up paddle mas eles ainda não tinham nenhum disponível naquele final de semana. Alugamos uma canoa e um caiaque por $32 os dois e ficamos umas duas horas no lago. Uma delícia de passeio. 

 

Selfie da turma
 
 
Dia lindo de sol e canoagem

Para quem acha que no Canadá faz frio o ano todo, tá aqui a prova de que nós também nos divertimos em atividades ao ar livre, acampamos e vamos à praia. Óbvio que não chega perto das areias branquinhas do Brasil e do banho de mar gostoso que lava até a alma. Mas a gente se diverte sim por aqui. E aprendemos a apreciar cada dia de sol como se fosse o único. Amei passar uns dias longe do burburinho da cidade, curtir a companhia dos amigos e a simplicidade que acampar nos proporciona. Mal posso esperar para ir novamente. Quem me acompanha? 

Outros locais para acampar:

  • Tobermory
  • Parry Sound
  • Algonquin Provincial Park
  • The Kawartha Lakes

 

  

Adivinha quem vai acampar pela primeira vez? 

  

Tô passando para desejar um ótimo final de semana a todos e para contar que estou indo acampar pela primeira (!!!!) vez! 

É feriado nacional na segunda-feira (18) em comemoração ao Victoria Day, celebrado todos os anos na última segunda antes do dia 25 de maio, em homenagem ao aniversário da Rainha Victoria do Reino Unido. 

Acho que já contei aqui antes que a maioria dos feriados (diria que 90 por cento) cai nas segundas-feiras, o que facilita as viagens curtas. 

Voltando ao assunto acampar, estou muuuuito ansiosa, já que venho planejando um acampamento com amigos desde que cheguei aqui, mas por diversos motivos acabava não dando certo. 

Estou indo com um grupo de 4 amigos e escolhemos a região de Muskoka, a umas 2 horas e meia de Toronto. A previsão é de sol e dias mais quentes, mas a noite sempre esfria (principalmente no meio da floresta haha). Estamos planejando explorar bastante a área em que iremos acampar e eu sei que vou voltar de lá mais cansada do que estou indo. Porém, nada melhor do que conhecer novos lugares, poder se afastar um pouco do burburinho da cidade grande e passar um tempo na companhia de um grupo super especial de amigos! 

Me desejem boa sorte e que nenhum urso apareça na minha barraca. Hahahaaha 
Aproveitem o final de semana!!!

🙂 

Compartilhando experiências

Hoje a tarde participei de um bate-papo com estudantes internacionais da ILSC, escola a qual frequentei nos meus primeiros seis meses aqui em Toronto. 

Eu nunca havia “apresentado” a minha vida dessa forma, conversando com um grupo de pessoas. Confesso que estava um pouco nervosa no início, mas o bate-papo foi tão gostoso que eu me senti super a vontade em compartilhar a minha história com outros estudantes internacionais. 

Bate-papo com estudantes da ILSC

Os estudantes fazem parte de um programa preparatório para quem quer entrar em Colleges e Universidades aqui em Toronto. Então, o propósito da minha visita foi contar como eu me preparei para o College, como tem sido a minha rotina e outros assuntos como o blog, o trabalho e a minha rotina em geral aqui no Canadá. 

One year from now I want to…

Eu cheguei na sala de aula carregando um vaso de vidro, que ficou em cima da mesa durante os 45 minutos em que contei a minha história para os alunos. 

  
Nos quinze minutos finais, expliquei que um pouco antes de decidir fazer um College em Toronto eu estava perdida. A minha irmã veio me visitar e deixou uma cartinha que carrego até hoje na minha carteira. 

Eu nunca fui de fazer listas, mas a carta da minha irmã me fez pensar no que eu gostaria de alcançar nos próximos anos. 

Entreguei a cada um dos alunos um pedaço de papel e pedi que escrevessem o título “Daqui a um ano eu quero ter…” e em seguida os seus planos, metas e sonhos. Expliquei que poderiam escrever qualquer sonho… Mudar de país novamente, encontrar um novo amor, achar um bom trabalho, perder peso, abraçar alguém que não vê há muito tempo, esquecer alguém que o machucou, etc. Pedi para que colocassem o e-mail no final e me comprometi a escrever a cada um deles daqui a um ano para perguntar se aquele sonho conseguiu ser realizado. 

Voltei no metrô lendo cada um dos bilhetes… E me surpreendi com a sinceridade de alguns. Entre os planos mais previsíveis como “achar um bom trabalho”, “conhecer outros países” e “virar fluente em inglês” também se encontravam “abraçar a minha irmã que está com câncer”, “perder o meu medo de fazer amigos” e “terminar um namoro que me faz sofrer”. 

Alguns escreveram frente e verso, perderam a vergonha de desabafar e confiaram a mim os seus medos e sonhos.

Me desculpei pela improvisação e falta de experiência em apresentações do tipo. Ouvi de um dos alunos um “Muito obrigada por vir aqui. É muito bom ouvir a história de alguém que começou da mesma forma que nós”. 

O bate-papo terminou depois de uma hora. E eu sai de lá com uma jarra cheia de sonhos e o coração cheio de felicidade. 
Muito obrigada, ILSC!