Sobre perdoar e a leveza que isso te dá

Foto: Aritta Valiense
 
Eu tenho muitos defeitos. Mas eu me orgulho muito da minha capacidade de não guardar rancor. E acho que saber perdoar é uma das minhas maiores qualidades. E não sou nada modesta com relação a isso. Afinal, quem ditou essa maldita regra de que não devemos exaltar as nossas qualidades? Já tem gente demais apontando os nossos defeitos,  melhor que você mesmo assuma e grite aos quatro cantos que conhece bem as suas qualidades ao ponto de não precisar que ninguém as reconheça…

Naquela tarde, daquele ano que eu não lembro, eu apanhei pela primeira vez na minha vida. Apanhei de verdade, com direito a olho roxo, arranhões e tudo que a gente vê em noites de UFC. Em casa eu nunca havia apanhado. Nem mesmo um tapa, que eu me recorde. Nesse dia eu apanhei até ser socorrida por pedrestes, quando as duas garotas que me batiam já estavam cansadas de me socar. A coisa foi feia. 

A história foi a seguinte: eu sempre fui “pra frente” como dizem os meus familiares. Adorava participar de apresentações, metia o meu nariz em tudo que me dizia respeito e o que não dizia também. Eu era “vanguarda”, como diz Kênya, amiga minha de infância. Achava que vivia no futuro. E acabava me metendo em briguinhas entre grupos de escolas diferentes, disputa pelo garoto mais popular do colégio e tudo que a fase nos proporciona. Ah! Eu era precoce ao extremo. 

Certa vez a coordenadora da escola me chamou para dizer que alguns garotos estavam me chamando de Pipoca. “Faz um barulho danado, ganha a atenção de todos eles e não mata a fome de ninguém”. Foi a única vez que me chamaram de pipoca. Que bom, porque nem de pipoca eu gosto. 

Uma tarde, voltando da escola, avistei duas conhecidas e uma delas acenou para que eu me aproximasse. O short azul marinho do uniforme eu só usava com a barra dobrada porque achava muito comprido. Caderno em mãos, cheio de recortes de revista na capa, mochila da Benetton. Nariz empinado.  Eu devia ser mesmo meio metidinha. 

Assim que cheguei mais perto, uma delas me perguntou: “Foi você que falou para fulaninho, que contou para fulaninho, que eu era isso bla bla bla”. Eu não tinha falado. E se tivesse, eu assumiria e terminaria esse meu texto com uma lição de moral sobre não falar mal dos outros. Mas eu não havia falado…

E nem tive tempo de me explicar. Enquanto uma delas – que era menor do que eu e tinha a força de Anderson Silva – me segurava, a outra me dava socos no estômago. O meu caderno já estava jogado no meio da rua, assim como a mochila. As duas se revezavam entre murros no meu rosto, barriga e chutes na canela. Não lembro como cheguei em casa, mas lembro bem o olhar assustado da minha vó, o meu pai desesperado, com raiva, com pena, todos os sentimentos ao mesmo tempo. Fomos para a delegacia.

As garotas também foram. E as mães das garotas, amigas das garotas, amigas das mães das garotas, todo mundo foi parar lá. Coisa de cidade pequena…

Nada ficou resolvido e nem lembro a punição dada à elas. Não tenho certeza, mas acho que uma delas foi suspensa da escola em que estudava, já que tudo ocorreu bem em frente ao local. Posso estar errada. 

Tive a chance de conversar com uma das meninas muito tempo depois. Ela me pediu desculpas. A outra nunca me procurou. Mas eu as perdoei de verdade tão logo quanto os roxos desapareceram. 

Também quando eu era adolescente um namorado me traiu com uma garota e acabaram tendo um rolo que durou um bom tempo. Quase dez anos se passaram e há alguns meses ela me enviou uma mensagem com um pedido de desculpas. Eu nem lembrava mais de toda a confusão. Mas a humildade dela em me enviar uma mensagem mesmo tanto tempo depois do ocorrido foi um gesto lindo. 

A minha melhor amiga me diz que tenho coração mole. Eu prefiro acreditar que perdoando eu faço as pazes não só com quem me magoa, mas também comigo mesma. Sou intensa demais, falo demais, choro demais, desabafo com qualquer um e não tenho como carregar tanta coisa num coração que já é ocupado demais pela saudade. 

Já levei muitos socos no coração. E esses foram dados por quem eu amava. E doeram mais do que qualquer surra muito bem dada. Perdoei erros graves, levei mais socos, perdoei novamente. Já fui chamada de palhaça, de boba, inocente. Nunca me chamaram de egoísta, ainda bem. E quer saber? Eu durmo tranquila… Não vivo prisioneira dos meus erros e dos erros dos outros porque sei pedir desculpas e sei também perdoar. 

Muita gente sai da nossa vida sem que tenhamos a oportunidade de pedir desculpas. Há quem parta sem ter a coragem de te encarar de frente e reconhecer os próprios erros. E a desculpa que nunca chega incomoda, revira o estômago e belisca o peito. Mas a gente aprende a perdoar também quem não nos pede perdão. Porque há sempre um lado que precisa dar o coração a torcer. E esses geralmente são os mais felizes. 

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5 comentários sobre “Sobre perdoar e a leveza que isso te dá

  1. Cleide Alves Lourencon

    Texto lindo…me emocionei até…rs
    Também sou assim, parecida com vc neste aspecto…não guardo rancor e aprendi a perdoar àqueles que não sabem se desculpar.Liberar o perdão nos deixa livres,leves e é assim que DEUS nos quer….
    Um abraço!

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