Aquela mão que me ajudava a enfrentar os meus fantasmas

  

Eu já era bem grandinha quando comecei a ter medo de dormir sozinha. Foi logo após o meu pai falecer que eu passei a ter umas crises de pânico e falta de ar. Hoje posso admitir que, na maioria das vezes, era só a minha carência pedindo – de forma desajeitada e imprópria – um pouco de atenção.

Lembro das inúmeras idas à emergência hospitalar e dos médicos repetindo que aquilo era psicológico. Eu precisava controlar a minha mente. 

Nessa época eu acreditava não possuir talento algum e meu coração acelerava sempre que alguma tarefa me era atribuída. Mas eu fingia ser forte, segura, confidente. Fazia o que me era solicitado e dava o melhor de mim.
Foi também nessa época que eu ganhei o meu primeiro carro em um sorteio de uma loja de materiais para construção. A felicidade que me consumia era proporcional ao meu pavor em dirigir. Eu não acreditava ser capaz. Até achar um professor que me ajudou a vencer o trauma e me fez descobrir que eu na verdade amava dirigir. 
Levei uns bons dois anos tendo a minha prima como motorista – a mesma que segurava a minha mão sempre que eu tinha crises de falta de ar e a mesma que dormia ao meu lado em uma cama de casal, em um apartamento de três quartos – e apenas duas pessoas. Eu tinha mesmo medo de dormir sozinha. 
Anne e eu nunca brigamos. Éramos o exemplo perfeito do que classificam como opostos. Não tínhamos interesses em comum. Mas éramos essenciais uma pra outra. 
Eu tinha ciúmes da forma como todos a elogiavam. Anne nunca decepcionava. Eu saía todos os finais de semana, gastava mais do que deveria, não era exemplar como ela era.
Anne fazia de tudo para me ver feliz. Era mais que uma prima, amiga, irmã. Anne era parte de mim. A parte calma, centrada e racional. Era eu com muito mais sensatez. 
Eu não lembro de ter dito o quanto a amo em todos esses anos. A verdade é que a distância amolece mesmo o coração. Dá a gente a coragem pra falar o que já não pode ser demonstrado em gestos do cotidiano. 
Hoje eu senti falta de ar. E acabei descobrindo que na verdade eu sentia era a falta dela. E daquela mão fina que apertava a minha tão forte quando eu tinha medo de enfrentar sozinha os meus próprios fantasmas. 
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