A menina, o garoto e o abraço de despedida

  
Passava um pouco das 4 da tarde. Sentei no canto mais calmo da cafeteria. Mexia o meu chá numa tentativa de esfriar a água. Quase três anos vendendo cafés e eu ainda queimo a língua. Não sei lidar com nada muito quente e não gosto do meu chá gelado. Aprendi que ao menos com relação às minhas bebidas eu deveria ser menos extremista. Nem oito, nem oitenta. Passei a gostar do morno. A ser paciente e a esperar um pouco antes de dar primeiro gole. Nem sempre funciona. Mas tenho me queimado cada vez menos. 

Um casal sentado mais adiante discutia o relacionamento. A garota falava firme enquanto o rapaz ouvia calado. Uma mão apoiava o queixo, a outra acariciava os pêlos do braço dela. Ele pedia desculpas. Ela dizia estar cansada. 

Em um dos momentos achei que haviam percebido que os observava. Foi quando ela olhou ao redor e logo depois sussurou “eu não quero mais”. Para em seguida completar “não estou feliz”. 

Ouvi um suspiro forte. E apesar de não conhecê-los, senti uma pontada no peito. Ele continuou calado. Ela puxou o braço que estava sendo acariciado por ele como se aquele fosse o primeiro sinal de distanciamento. Ele deixou que ela se afastasse. Como se concordasse que era mesmo chegado o fim. 

Foi quando ela disse: – Tenho que ir. Vou fazer a aula das 5. E ele respondeu: – A gente pode tentar mais uma vez. 

“Já te dei todas as chances que eu poderia ter dado. Não quero mais. Somos adultos, precisamos seguir em frente”, ela respondeu enquanto se preparava para deixar o local. 

Ele continuou quieto. Calado. Cabisbaixo. Deu um gole no café gelado, balançou o copo como se tentasse misturar o gelo ou ganhar tempo para encontrar as palavras certas. Optou pelo silêncio.

A garota colocou a mochila nas costas, pendurou o tapete de Yoga em dos ombros, uma mão segurava o café e a outra oferecia ao garoto o que parecia ser o último abraço. 

Eu já não me importava em ser vista observando a cena. Confesso que a minha vontade era levantar da cadeira, tirar-lhe todo aquele peso que ela carregava nas costas, colocar o café que ela segurava de volta na mesa e dizer que aquele abraço, mesmo que cheio de mágoas, merecia mãos e braços livres. 

Mas foi o que ele recebeu: o abraço  frouxo e desajeitado da menina que há pouco ele acariciava. A menina que, sabe-se lá porque, guardava tanta mágoa que era incapaz de faltar à aula das cinco. 

Nossos olhos se cruzaram quando ele meio constrangido voltava a se sentar. Eu o encarei por alguns segundos antes de baixar os olhos e abraçá-lo mentalmente. Um abraço que ele não deve ter sentido, mas que foi dado com mãos e braços livres. Sem o peso das costas e das mágoas. O abraço de uma desconhecida que conhece bem o fardo de um abraço de despedida.

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3 comentários sobre “A menina, o garoto e o abraço de despedida

  1. Psitere

    Maravilhoso esse texto da menina e o abraço de despedida.
    Penso em como, às vezes,não somos capazes de valorizar os bons momentos que tivemos.
    Deixar o outro é livre arbítrio,deixar magoado é responsabilidade para com o próximo.

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