Chegou o grande dia! 

  
Era sempre a mesma história: uma dor de estômago insuportável que batia quando eu me via em uma situação que me deixava muito ansiosa. Uma prova, competição de qualquer tipo, uma viagem… 

Buscopan foi meu melhor amigo durante anos. Quando as pílulas não colaboravam, lá ia o meu paizinho me carregar para a emergência mais próxima e eu acabava com uma boa dose do remédio direto na veia. 

Aos poucos as dores frequentes foram substituídas pelas borboletas no estômago e eu já tinha um pouco mais de controle sobre as minhas emoções (ou não). 

No trajeto para o aeroporto a minha ansiedade insistia em cutucar o meu estômago e eu, que não sei meditar, controlar a respiração ou fazer uso de qualquer outra técnica de relaxamento, dessas que a gente aprende até em vídeos do Youtube, escrevo porque não tenho buscopan e, muito menos, o meu pai, para me ajudar a controlar a minha ansiedade.

O voo seria semana que vem, mas como eu sou do tipo que faz-o-que-der-na-telha só para mimar a mimha ansiedade, troquei para hoje! 

E lá vamos nós (eu, dois livros, algumas peças de roupa, muitos brinquedos e livros para as crianças e quilos de frio na barriga) desbravar a Ásia. 

  
Que essa cutucada no estômago, ainda que desconfortável, jamais me abandone. Pois é o desafio do “novo” o meu maior combustível. 

Voltarei em breve com muitas fotos e posts sobre a minha jornada! 

🙂 

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Sobre o que talvez não caiba mais em nós

 
Às oito eu acordei antes do despertador tocar. E passei trinta minutos revirando as minhas gavetas, numa tentativa frustrada de achar uma camiseta que não existia ou que eu devo ter doado há uns anos e não me recordo.

Por fim, vesti aquela que estava no topo da minha pilha de roupas bem dobradas, minuciosamente divididas por cores. Eu poderia ter salvo trinta minutos do meu dia se não insistisse em algo que já não existia. Ou poderia ter salvo dias, talvez anos, se eu levar em conta tudo aquilo que eu procurei ao longo da vida, mesmo sabendo que não iria encontrar. 

Desci as escadas em direção à cozinha. Coloquei a frigideira em cima do fogão, lavei os pratos que estavam sujos na pia e voltei para o meu quarto. Lembrei que a frigideira estava à minha espera e percebi que eu não queria mais os ovos mexidos. Comi uma banana. Joguei a casca na lixeira errada e não consertei o meu erro. Eu precisava daquele ato de rebeldia. 

Peguei o livro que estava na mesinha ao lado da cama, li duas frases e antes mesmo de terminar a segunda, eu já não lembrava o que a primeira dizia. Deixei o livro de lado e decidi que iria separar algumas peças de roupas para doar. E eu, que não sou de me apegar às coisas que não uso tanto, não consegui achar nada que pudesse ser descartado. Talvez eu seja, sim, do tipo que se apega demais. 

Foi então que encontrei o que me incomodava desde às oito da manhã, quando coloquei o pé esquerdo no chão. É essa mania estranha de não me desfazer de certos sentimentos que já não cabem em mim. De acumular um pouco de tudo que eu sinto ao longo da vida. Um medo bobo de deixar ir o que já não me serve. De não me desfazer do que aperta, por achar que um dia estarei mais leve. De não deixar que resquícios de amores passados me abandonem, já que cada um construiu a mulher que eu hoje sou.

É aquele medo que volta e meia assombra a gente. Medo de se desconectar do que já não te pertence, como se ao se desfazer daquele sentimento você pudesse se arrepender um dia por não poder mais usá-lo. Você sabe que já não te serve, mas insiste em deixá-lo guardado, como uma camiseta velha esquecida no fundo da gaveta. 

A mesma camiseta que um dia você decide usar e descobre que já não fica tão boa quanto antes. Porque vestir o que estava guardado por muito tempo pode ser desconfortável. A gente muda tanto que a roupa perde o caimento perfeito, deixa de ser sua, passa a pertencer à gaveta em que mora. 

Assim são os amores que a gente tem medo de deixar partir, numa obsessão em ter controle sobre o que já não cabe, mas que não pode ser doado. A gente não sabe se esconde no fundo da gaveta ou se arriscamos usá-lo para ver se ainda nos serve. 

Voltei a ler algumas páginas do livro e então decidi revirar novamente as minhas gavetas. Foi então que eu lembrei que eu ainda não havia doado aquela camiseta, mas a deixei guardada em uma mala no porão. Cogitei ir buscá-la, mas desistí antes mesmo de deixar o meu quarto. Ler o livro me pareceu mais sensato do que trazer uma blusa mofada de volta à gaveta, quando eu nem ao menos sei se ainda vai me servir….