Sobre o que talvez não caiba mais em nós

 
Às oito eu acordei antes do despertador tocar. E passei trinta minutos revirando as minhas gavetas, numa tentativa frustrada de achar uma camiseta que não existia ou que eu devo ter doado há uns anos e não me recordo.

Por fim, vesti aquela que estava no topo da minha pilha de roupas bem dobradas, minuciosamente divididas por cores. Eu poderia ter salvo trinta minutos do meu dia se não insistisse em algo que já não existia. Ou poderia ter salvo dias, talvez anos, se eu levar em conta tudo aquilo que eu procurei ao longo da vida, mesmo sabendo que não iria encontrar. 

Desci as escadas em direção à cozinha. Coloquei a frigideira em cima do fogão, lavei os pratos que estavam sujos na pia e voltei para o meu quarto. Lembrei que a frigideira estava à minha espera e percebi que eu não queria mais os ovos mexidos. Comi uma banana. Joguei a casca na lixeira errada e não consertei o meu erro. Eu precisava daquele ato de rebeldia. 

Peguei o livro que estava na mesinha ao lado da cama, li duas frases e antes mesmo de terminar a segunda, eu já não lembrava o que a primeira dizia. Deixei o livro de lado e decidi que iria separar algumas peças de roupas para doar. E eu, que não sou de me apegar às coisas que não uso tanto, não consegui achar nada que pudesse ser descartado. Talvez eu seja, sim, do tipo que se apega demais. 

Foi então que encontrei o que me incomodava desde às oito da manhã, quando coloquei o pé esquerdo no chão. É essa mania estranha de não me desfazer de certos sentimentos que já não cabem em mim. De acumular um pouco de tudo que eu sinto ao longo da vida. Um medo bobo de deixar ir o que já não me serve. De não me desfazer do que aperta, por achar que um dia estarei mais leve. De não deixar que resquícios de amores passados me abandonem, já que cada um construiu a mulher que eu hoje sou.

É aquele medo que volta e meia assombra a gente. Medo de se desconectar do que já não te pertence, como se ao se desfazer daquele sentimento você pudesse se arrepender um dia por não poder mais usá-lo. Você sabe que já não te serve, mas insiste em deixá-lo guardado, como uma camiseta velha esquecida no fundo da gaveta. 

A mesma camiseta que um dia você decide usar e descobre que já não fica tão boa quanto antes. Porque vestir o que estava guardado por muito tempo pode ser desconfortável. A gente muda tanto que a roupa perde o caimento perfeito, deixa de ser sua, passa a pertencer à gaveta em que mora. 

Assim são os amores que a gente tem medo de deixar partir, numa obsessão em ter controle sobre o que já não cabe, mas que não pode ser doado. A gente não sabe se esconde no fundo da gaveta ou se arriscamos usá-lo para ver se ainda nos serve. 

Voltei a ler algumas páginas do livro e então decidi revirar novamente as minhas gavetas. Foi então que eu lembrei que eu ainda não havia doado aquela camiseta, mas a deixei guardada em uma mala no porão. Cogitei ir buscá-la, mas desistí antes mesmo de deixar o meu quarto. Ler o livro me pareceu mais sensato do que trazer uma blusa mofada de volta à gaveta, quando eu nem ao menos sei se ainda vai me servir…. 
 

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8 comentários sobre “Sobre o que talvez não caiba mais em nós

  1. Ual! Você expressou exatamente aquilo que tenho sentindo a muito tempo. Belíssimo texto linda, parabéns e obrigada por compartilhar comigo e com todos os seus leitores estas palavras tão bem escritas.

  2. Olá! Tudo bem?
    São tantos blogs que visito pelo leitor do WordPress que não sei se já passei por aqui… Por esse motivo já estou seguindo pois curti bastante seu espaço.
    Muito bacana… Visual clean e conteúdo interessante.
    Tenho um blog também, quando puder fazer uma visitinha ficarei mega contente e honrado, vou deixar o link abaixo!
    Bom, continue assim. Sucesso e boas postagens! 😉
    Ótima semana!

    My house: http://www.andrehotter.com

    hUg!
    #SpreadTheLove

  3. Lorena

    Oi Aritta!
    Acompanho o Moqueca ja faz algum tempo. No inicio, confesso que o foco era apenas a sua experiência no Canada. Hoje, fico aguardado seus textos sempre muito bem redigidos e que traduzem não so o seu momento mas, com certeza, o de muitos de nós que a acompanham.

      1. Lorena

        Sim, acompanho e espero que dê tudo certo para vc em terras canadenses ou onde quer que escolha estar.
        Beijo

  4. Lorena

    Oi Aritta!
    Poderia me ajudar com uma dúvida?
    No seu post sobre College, você citou três datas para possíveis inícios (janeiro, maio e setembro). Caso opte por maio, você sabe informar qual seria a época de férias? Fora o recesso do final de ano….

    Desde já agradeço a sua atenção e peço desculpas por perguntar nesse post, mas imaginei que questinando no outro haveria a possibilidade de você nao ver.

    Beijos

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