Sobre abraços apertados, sorrisos largos e a alegria do povo no Camboja

A minha jornada na Ásia ainda não chegou ao fim. Mas esta é a última semana que passo aqui em Phnom Penh, trabalhando com as crianças. Daqui, sigo para o Vietnã, último país a ser visitado por mim em uma viagem que mudou completamente a minha forma de enxergar o mundo e as pessoas que dividem o seu espaço nele comigo. 

 

Pôr do sol em Kampot, Camboja
 
 
Monges em Kampot, Camboja
 
Na Tailândia eu me encantei com a hospitalidade do seu povo. Com a generosidade de gente disposta a te dar a mão, mesmo sem entender o que você precisa. Me encantei com a beleza irretocável dos lugares pelos quais passei.

No Camboja, me encanto todos os dias com o sorriso de um povo que sofreu (e ainda sofre) tanto, mas que não se deixa abater pelos acontecimentos do passado e pela pobreza que ainda toma conta do país. Gente que carrega um sorriso largo enquanto trabalha horas a fio para ganhar em um mês o que muitos de nós gastamos em uma refeição. 

Trabalhador em um arrozal , Kampot, Cambodia
 
Pescadores em Kampot, Camboja
 

Salinas (produção de sal marinho) em Kampot, Camboja

 Aqui, todas as crianças te cumprimentam com um “Hello!” bem alto e cheio de vida, seguido pelo sorriso gostoso de quem ainda não perdeu a inocência. Nas áreas rurais, perdi as contas de quantos pequeninos acenaram para mim cada vez que passava por elas em um tuk tuk ou montada em uma motocicleta, enquanto elas me seguiam em suas bicicletas ou caminhavam descalças pelas estradas de terra num sol de 40 graus.  

Kampot, Camboja
 
 
Kampot, Camboja
 
Caminhar pelas ruas de Phnom Penh pela primeira vez foi como receber um soco no estômago. Eu já visitei lugares pobres no Brasil, sou nordestina e sei bem da triste realidade do nosso sertão. Sou bem informada quanto aos problemas que o nosso mundo enfrenta. Ainda assim, me surpreendo com a realidade aqui em Phnom Pehn e em cidades vizinhas, as quais visitei no último final de semana. 

 

Phnom Penh, Camboja
 
Não há coleta de lixo na maior parte dos lugares, as casas e ruas são repletas de entulhos por todos os cantos. Crianças brincam em valas abertas, descalças, peladas. Não há bairros de luxo. Há algumas casas de luxo rodeadas por barracos. Há carros de luxo dividindo o tráfego com milhares de motocicletas caindo aos pedaços, carregando 3, 4 pessoas. E as crianças sorriem, os adultos sorriem. 

Kampot, Camboja
  
Kep, Camboja
 

Não encontrei ao menos uma pessoa que se lamentou pela vida que leva. O povo Khmer tem orgulho do seu país, mesmo com todos os problemas que eles enfrentam. São pessoas incapazes de reclamar da pobreza que os assola, e, ao invés de lamentos, compartilham alegria. 

Na instituição de acolhimento onde realizo o trabalho voluntário falta tudo. Mas sobra amor. Sobram sorrisos com dentes falhos, abraços apertados apesar dos finos braços e apertos de mão capazes de reenergizar a nossa alma. 

Sobram crianças cheias de energia e vida, como Sopheap, esse menino lindo que na foto abaixo toca a minha orelha. Ele é cego dos dois olhos e essa é a sua forma de reconhecer quem o abraça. O irmão gêmeo de Sopheap,  Sambo, é cego de um dos olhos. Os dois foram abandonados ainda bebês. 

Sopheap toca a minha orelha e em seguida me abraça bem forte
 
 
Com Rayot, o mascote da turma que tenho cuidado
 

Eu tenho mais do que preciso. E muitas vezes reclamo. Mas muito em mim tem mudado a cada dia que vejo aquelas crianças. Já não me importo em fazer xixi de cócoras, em limpar baba e cocô incontáveis vezes e nem com o cheiro de xixi impregnado nos colchonetes em que deito para brincar com as crianças. Talvez seja mesmo verdade que a gente se acostume a tudo… 

Ainda me choco ao descobrir a história de cada uma das crianças. E reconheço que ocupo um lugar de sorte no mundo. Eu tive tantas oportunidades na vida, tanto amor me foi dado e eu mais do que nunca sou grata pela vida que me foi proporcionada. 

Em menos de uma semana me despeço do Camboja e dessas crianças lindas. Levarei comigo a imagem de um povo alegre e as lembranças de um período de intenso aprendizado, onde reafirmei a minha teoria de que uma mão solidária pode não mudar o mundo, mas se ela mudar o mundo de alguém, já é um lindo começo. 

Apesar de não ser tão religiosa quanto a minha família, tenho as minhas crenças. A minha fé na humanidade e no poder do amor é grande. E como um dia disse Madre Teresa de Calcutá, “a falta de amor é a maior de todas as pobrezas”.

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Trabalho voluntário no Camboja 

Tentei segurar o choro, mas desabei atrás da porta do banheiro. Me escondi pois não queria que as crianças me vissem naquele estado. Eu estava ali para dar carinho, não para ser consolada… Era o meu primeiro contato com elas. E a primeira das três vezes em que naquele dia eu iria soluçar de tanto chorar. 

O local onde trabalharei por duas semanas como voluntária aqui em Phnom Penh, capital do Camboja, se chama National Borey for Infants and Children. Uma Instituição de Acolhimento, nome dado ao que costumávamos chamar de orfanatos. Fomos recebidas com o sorriso largo de um adolescente que se divertia em um balanço no jardim – eu e outras três voluntárias que também começaram o programa hoje. 
A instituição recebe voluntários do mundo todo que trabalham dando suporte às “mães”, como chamamos as funcionárias que cuidam das cerca de 120 crianças que vivem no local. A maioria tem deficiências físicas e mentais; algumas são portadores do vírus da Aids. Nenhuma delas fala, mas cada uma demonstra de forma diferente a felicidade em nos receber. 

Muitas são deixadas na porta do local durante a noite. Os pais nunca são achados. Algumas são entregues por pais que, sem condições de arcar com os custos, desistem das crianças. Há ainda as que são rejeitadas por necessitarem de cuidados especiais. 

Fomos apresentadas à diretora do local que nos explicou as regras da casa e nos encaminhou para as salas onde trabalharíamos. Fiquei em um andar onde estão as crianças mais novas. Apesar de limpo, o local carrega um cheiro de xixi bem forte, já que as crianças não conseguem fazer as suas necessidades sozinhas e usam fraldas de pano. Fralda descartável é artigo de luxo. 

  

Nós trabalhamos das 8 às 11 e das 14 às 16. O intervalo de três horas existe para que as crianças tirem o cochilo da tarde. Antes de sairmos para o almoço, cantamos músicas infantis em Khmer, a língua oficial do Camboja, em inglês e, também somos encorajados a cantar na nossa própria língua. Repetimos o ritual às 16h, quando nos despedimos. 

Durante o tempo em que ficamos no local nós brincamos, cantamos, levamos as crianças para passearem no jardim, trocamos as fraldas e damos comida. Tentamos dividir a nossa atenção entre várias crianças, já que é muito fácil se apegar a uma só. É difícil não se encantar por aqueles seres tão pequeninos, com a aparência frágil e sorrisos largos.

  

É também difícil conter a emoção quando uma delas te abraça bem forte e te pede carinho. 

  
Levei Rayot, um bebê de um ano e seis meses, portador da Síndrome de Down para um passeio no jardim. Carreguei comigo um livro infantil e enquanto lia para ele, a sua mãozinha apertava os meus dedos com a força de quem parecia pedir proteção. E assim ele adormeceu…

Perdi a noção de quanto tempo o observei. Mal sabia ele que, apesar de  tão leve em meus braços, deixava um peso enorme em meu coração. 

A entrega dos presentes

Vê-las recebendo os presentes que levei foi um dos momentos mais especiais. Caí no choro quando um dos meninos, Arun, portador de autismo, me abraçou bem forte ao ganhar uma cartela de adesivos. Ver aquelas carinhas felizes com tão pouco me encheu de alegria. E chorei novamente. Dessa vez o choro foi de felicidade.

Muito obrigada aos amigos que doaram e me ajudaram a estampar tantos sorrisos nos rostos desses pequenos anjos. 

  

  
   
    

Triste realidade

A pobreza no Camboja é de partir o coração. Vejo crianças de 4,5 anos trabalhando na ruas, vendendo frutas e doces. Crianças que aprendem a dar o troco correto desde cedo, em dólar e em riel (moeda local). Aprendem não por terem a sorte de uma boa educação, mas porque precisam trabalhar para sobreviver. E saber dar o troco é apenas uma das tarefas que o ofício exige. 
De acordo com as estatísticas do governo, quase 40% da população espalhada nas 25 províncias do país sobrevive com menos de 1 dólar por dia. Muitos vivem nas áreas rurais, trabalhando na agricultura ou em fábricas de roupas e sapatos. Quem nunca ouviu histórias envolvendo grandes marcas e trabalhos escravos em países como o Camboja? Pois é. 91% dos trabalhadores das fábricas no Camboja são mulheres. A rotina de trabalho? 12, 14 e até 20 horas por dia. Apenas 7% das fábricas pertencem a companhias daqui. Os outros 93% pertencem a essas marcas que todos nós usamos. 

Eu sei que o que estou fazendo por estas crianças é muito pouco para suprir todas as necessidades que elas possuem. Sei que a maioria jamais terá acesso a escolas, muitas nunca terão um pai ou uma mãe para colocá-los para dormir… Há os que sem acesso aos remédios e tratamentos necessários não chegarão a adolescência. Me parte o coração. 

Eu choro enquanto escrevo. É um misto de angústia, impotência, tristeza e até vergonha. Em alguns dias voltarei para a minha minha vida confortável enquanto os Rayots, Aruns, aqui no Camboja, e as Marias, Josés, Pedros e tantos outros aí no Brasil e em todo o mundo continuam à espera de alguém a quem eles possam dar a mão enquanto adormecem. 

Tailândia: o paraíso é aqui 

Viajei pela Tailândia por quase três semanas. Passei por Bangkok, Ayutthaya, Chiang Mai, Pai e Koh Samui. Na capital, Bangkok, onde a disparidade entre os ricos e pobres é maior, descobri que os mais pobres (e com menos dentes) sorriam mais. E que um pedido de desculpas pode ser feito com uma caixa de nuggets, por um garçom que não quer desapontar um novo cliente. 

  

Bangkok
 
Wat Pho Temple em Bangkok
 
 
Temple of The Emerald Buddha , Bangkok
 
  
Chatuchak Market, um dos maiores em Bangkok. Funciona nos finais de semana

 
Chatuchack Market , Bangkok
 
 
Tuk tuk, um dos meios de transporte mais usados no sudeste asiático
 
 
Drinks e comida boa no bar Tuba, Bangkok
 
Aprendi que atravessar a rua me dava mais frio na barriga do que me perder em um local aonde poucos me entendiam. E aprendi, também, que se quem tem boca não for a Roma, vai ao menos se virar na Ásia. 

Aprendi que dizer não para alguém que te dá até 70% de desconto só para não perder a compra é uma missão quase impossível. Aqui, não vi pedintes nas ruas. Mas todo mundo tem algo a vender, mesmo que você seja o responsável por definir o valor do produto.  

O comércio se divide entre lojas de artesanatos, casas de massagens, conveniências da rede 7/11, bares e só. Multiplique as casas de massagens por 100 a cada quarteirão. 
 

Massagens a $8 /hora
 

Em Ayutthaya, a uma hora e meia de trem de Bangkok, encontrei um motorista de Tuk Tuk (carrinhos bem pequenos usados como taxi em muitos países da Ásia) que quase não falava inglês, mas perguntou a minha nacionalidade e me entregou um caderninho onde clientes de diversas nacionalidades haviam pontuado o seu serviço. Os asiáticos também são bons em marketing. 

 

Trem Bangkok – Ayutthaya
 
 
Wat Yai Chaimongkon, templo em Ayutthaya
 
 
Templo em Ayutthaya

 
Wat Phra Mahathat , Ayutthaya
 

Fiquei apenas algumas horas em Ayutthaya. Um dia/tarde foi suficiente para conhecer todos os templos. No outro dia, peguei um trem em Bangkok e enfrentei doze horas de estrada até Chiang Mai, uma cidade onde o turismo é visto de forma mais concentrada do que na capital, por ser menor e com o comércio liderado por imigrantes europeus, australianos e americanos. 

 

Trem de Bangkok para Chiang Mai, 12 horas $35
 
 
Templo em Chiang Mai
 
  
Art in Paradise, Museu 3D em Chiang Mai

  
Em Chiang Mai eu vivi uma das melhores experiências da minha vida, quando ao invés de escolher o tour preferido pela maioria dos turistas, convenci os guias a me apresentarem a verdadeira cultura local por um tempo maior do que o de um dia sugerido no programa deles. E me joguei em uma aventura de três dias de trilhas no meio da floresta, dormindo em barracos de madeira usadas pelos trabalhadores dos arrozais, visitando fazendas que produzem grande parte dos produtos consumidos pelos moradores e fui até acolhida por um casal de lavradores que não tinha muito, mas que me preparou um dos melhores jantares que eu já tive: sopa de bambu, frango ao curry e arroz. 

 

Jantar com o s moradores que me receberam por uma noite no pequeno vilarejo
 
Tenho muitas fotos dos três dias na floresta e resolvi que contarei tudo em um post separado. Dessa forma esse aqui não fica tão longo e pesado com fotos. 

Amphoe Chom Tong, uma das muitas cachoeiras que tive a chance de ver durante as trilhas

Por sinal, eu que não era fã de curry aprendi que na hora da fome, a gente deve exigir do nosso estômago um pouco menos de frescura. 

Sopa com legumes durante o almoço à beira da cachoeira

As trilhas não foram fáceis. No primeiro dia, ao atingirmos o topo de uma das montanhas, um dos guias desmaiou. Talvez por não ter se alimentado direito. No segundo – e mais intenso dia – foram 20km de subidas e descidas em mata fechada. Se você acha que subir uma montanha é difícil é porque nunca teve que descê-la quando a terra estava molhada. 

Pensei em desistir assim que levei o primeiro tombo e resolvi me proteger apoiando as mãos em um tronco cheio de formigas vermelhas. As coceiras – de picadas de mosquito, formiga, calor – incomodam mais do que o cansaço. Mas as paisagens e o cheiro da natureza fazem tudo isso e muitos outros empecilhos desaparecerem. É incrível a capacidade que o nosso corpo tem de se adaptar a ambientes diferentes…
No terceiro dia de trilha eu já nem fixava o meu olhar no chão, como fazia nas primeiras horas, morrendo de medo de encontrar uma cobra. 

  
Mesmo com todo o desconforto de ter que fazer xixi e cocô no meio do mato, comer comidas estranhas, acordar no meio da noite com uma aranha tentando subir na minha perna, cair, me arranhar, ter dores na ponta dos dedos do pé de tanto descer ladeiras íngremes, ter dores no quadril após caminhar por 8 horas (com paradas para banheiro e comida), nunca irei esquecer a sensação de ver o pôr do sol sentada em um barraco no meio de um arrozal, ouvindo apenas o canto dos pássaros e o barulho dos girinos. 

Apreciando a natureza em uma barraca usada pelos trabalhadores dos arrozais

Três horas após começarmos a trilha eu disse a Tom, o guia tailandês de 23 anos, que estava com fome, e ele me entregou um pacote de noodles, ou miojo como chamamos no Brasil. Sem entender como eu comeria aquele pacote de miojo sem ter uma panela e muito menos um fogão, Tom logo me mostrou que eles comem o mesmo cru, como tira-gosto. E eu comi com a mesma felicidade com a qual comeria uma coxinha. 

Em Chiang Mai também realizei um dos meus sonhos: ter contato direto com elefantes. Gastei horas pesquisando sobre locais confiáveis, onde os elefantes são bem tratados e não apenas usados como forma de arrecadação de dinheiro. Não queria vê-los sendo mal tratados. E a experiência foi literalmente emocionante.

 

Dando banho nos elefantes

Também contarei tudo em um post separado. Porque os elefantes merecem um espaço só pra eles! E porque a minha wifi está péssima! 

Apesar de terem as suas peculiaridades, as cidades turísticas na Tailândia seguem o mesmo padrão. Algumas, como Pai, recebem um maior número de australianos e europeus. 

O meu último destino no país foi a ilha de Koh Samui. Peguei um voo em Chiang Mai e segui para o paraíso em busca de sol e banhos de mar. Foram quatro dias em um lugar que, se não for o paraíso, fica bem pertinho dele. 

 

Crystal Beach, Koh Samui
 
  
Paraíso!!
 

Anthong National Marine Park

  
 

A Tailândia é o tipo de destino que te surpreende a cada dia. E se você tiver tempo e disposição, consegue, em uma só viagem, desfrutar de diversos tipos de turismo. Sol e praia, Aventura, Metrópole… 

Os Tailandeses me conquistaram. Eles são especiais. É um povo que está sempre de alto astral e bem receptivo. Te cumprimentam mesmo sem te conhecer e são, na maioria das vezes, solicitos e muito humildes. Claro que é preciso estar atento com aqueles que tentam se aproveitar da distração do turista. É preciso manter os olhos bem abertos e não vacilar com os pertences. E para que o turista esteja sempre atento, há avisos do tipo em vários pontos turísticos. 

Hoje sigo para o Camboja, onde iniciarei as duas semanas de trabalho voluntário. Eu tenho milhares de fotos para postar, histórias para contar… Mas a internet é bem lenta e fico à mercê do pouco tempo que passo nos hotéis para poder postar aqui no blog. 

Irei dividir o meu roteiro nesses quase vinte dias no país de forma mais organizada e postarei assim que tiver a chance.

🙂 

O dia em que uma caixa de nuggets me fez chorar 

 
Chove muito em Bangkok na noite de hoje. Cheguei no hostel faminta, após passar um dia inteiro visitando templos em uma cidade vizinha. Sem muitas opções de comida na vizinhança, peguei um guarda-chuva na recepção e encarei a tempestade na busca por algo sem curry e sem a aparência estranha. Se você nunca me viu com fome não sabe que nem mesmo a maior tempestade do mundo me impediria de achar comida… 

Após caminhar por um quilômetro

Avistei uma pizzaria com o slogan bem grande em letras vermelhas “Seu pedido em 30 minutos!!! Garantimos!”. Não dava nem para ver o nome do local direito, já que a chamada para a promoção cobria toda a placa. O menu oferecia uma variedade de pizzas e outros pratos carregados de carboidratos. Optei por um espaguete com camarão, e, no recibo, com o valor de 130 Bahts (um pouco mais de 5 dólares) também havia bem grande “Seu pedido estará pronto em até 30 minutos! Garantimos!”. 

Sem paciência e com fome

Sentei em frente a uma garota que também parecia conferir o horário na tela do celular a cada 2 minutos. Se eu não conhecesse bem direitinho a cara de quem tá faminto, diria que ela aguardava ansiosamente a mensagem de algum paquera. Mas não, ali era fome. E eu estava no mesmo barco. Éramos duas. Não havia outros clientes. 

Faltavam dois minutos para o prazo dos 30 minutos se encerrar e o mesmo rapaz veio correndo na minha mesa explicar que traria o meu pedido em 3 minutos. Eu, impaciente e acostumada com clientes que reclamam de propaganda enganosa, fiz uma cara feia e disse que gostaria de cancelar o pedido. “No, no, no”, implorou o rapaz enquanto voltava caminhando de costas para a cozinha. Seis minutos mais tarde, ele volta com a sacola e o meu pedido: -Me desculpa, senhora, me desculpa. 

Eu balancei a cabeça sem dar muita atenção ao seu pedido de desculpas, peguei o guarda-chuva e deixei o local. 

Atravessar as ruas em Bangkok é um verdadeiro desafio. À noite e com chuva, é quase missão impossível. Lá estava eu aguardando pelo momento exato em que os carros e motos me dariam uma brecha, a uns 200 metros da pizzaria, quando vejo uma figura franzina, correndo em minha direção e acenando sem parar. Era o vendedor que me atendeu, que também preparou o meu pedido e deixou o meu estômago furioso com os quatro minutos extras que ele precisou esperar. Ele me estendeu uma sacola com uma caixinha dentro e enquanto eu agradecia sem entender o que estava acontecendo, ele tentava a qualquer custo parar o transito para que eu atravessasse. Quando, enfim, ele conseguiu, eu atravessei, agradeci pela ajuda e percebi que ele continuava balbuciando “Desculpa, desculpa” sem parar…

De volta ao hostel abro a caixinha e vejo seis singelos nuggets. E me vi chorando. Não pelo gesto do rapaz. E sim, porque a sua preocupação em ter o meu pedido de desculpas aceito me fez refletir sobre a minha intolerância desnecessária. Foram apenas quatro minutos para alguém que está de férias, sem motivo algum para se estressar. 

Foram quatro minutos extras, em que aquele rapaz, percebendo o meu descontentamento, encarou a tempestade sem nenhuma proteção para me levar uma caixa de nuggets e me ajudar a atravessar a rua. 

Em Bangkok. Na Tailândia. Onde pagamos $5 por uma refeição que serve dois e que, de brinde, vem acompanhada por uma lição sobre altruísmo dentro de uma caixa de nuggets.