O dia em que uma caixa de nuggets me fez chorar 

 
Chove muito em Bangkok na noite de hoje. Cheguei no hostel faminta, após passar um dia inteiro visitando templos em uma cidade vizinha. Sem muitas opções de comida na vizinhança, peguei um guarda-chuva na recepção e encarei a tempestade na busca por algo sem curry e sem a aparência estranha. Se você nunca me viu com fome não sabe que nem mesmo a maior tempestade do mundo me impediria de achar comida… 

Após caminhar por um quilômetro

Avistei uma pizzaria com o slogan bem grande em letras vermelhas “Seu pedido em 30 minutos!!! Garantimos!”. Não dava nem para ver o nome do local direito, já que a chamada para a promoção cobria toda a placa. O menu oferecia uma variedade de pizzas e outros pratos carregados de carboidratos. Optei por um espaguete com camarão, e, no recibo, com o valor de 130 Bahts (um pouco mais de 5 dólares) também havia bem grande “Seu pedido estará pronto em até 30 minutos! Garantimos!”. 

Sem paciência e com fome

Sentei em frente a uma garota que também parecia conferir o horário na tela do celular a cada 2 minutos. Se eu não conhecesse bem direitinho a cara de quem tá faminto, diria que ela aguardava ansiosamente a mensagem de algum paquera. Mas não, ali era fome. E eu estava no mesmo barco. Éramos duas. Não havia outros clientes. 

Faltavam dois minutos para o prazo dos 30 minutos se encerrar e o mesmo rapaz veio correndo na minha mesa explicar que traria o meu pedido em 3 minutos. Eu, impaciente e acostumada com clientes que reclamam de propaganda enganosa, fiz uma cara feia e disse que gostaria de cancelar o pedido. “No, no, no”, implorou o rapaz enquanto voltava caminhando de costas para a cozinha. Seis minutos mais tarde, ele volta com a sacola e o meu pedido: -Me desculpa, senhora, me desculpa. 

Eu balancei a cabeça sem dar muita atenção ao seu pedido de desculpas, peguei o guarda-chuva e deixei o local. 

Atravessar as ruas em Bangkok é um verdadeiro desafio. À noite e com chuva, é quase missão impossível. Lá estava eu aguardando pelo momento exato em que os carros e motos me dariam uma brecha, a uns 200 metros da pizzaria, quando vejo uma figura franzina, correndo em minha direção e acenando sem parar. Era o vendedor que me atendeu, que também preparou o meu pedido e deixou o meu estômago furioso com os quatro minutos extras que ele precisou esperar. Ele me estendeu uma sacola com uma caixinha dentro e enquanto eu agradecia sem entender o que estava acontecendo, ele tentava a qualquer custo parar o transito para que eu atravessasse. Quando, enfim, ele conseguiu, eu atravessei, agradeci pela ajuda e percebi que ele continuava balbuciando “Desculpa, desculpa” sem parar…

De volta ao hostel abro a caixinha e vejo seis singelos nuggets. E me vi chorando. Não pelo gesto do rapaz. E sim, porque a sua preocupação em ter o meu pedido de desculpas aceito me fez refletir sobre a minha intolerância desnecessária. Foram apenas quatro minutos para alguém que está de férias, sem motivo algum para se estressar. 

Foram quatro minutos extras, em que aquele rapaz, percebendo o meu descontentamento, encarou a tempestade sem nenhuma proteção para me levar uma caixa de nuggets e me ajudar a atravessar a rua. 

Em Bangkok. Na Tailândia. Onde pagamos $5 por uma refeição que serve dois e que, de brinde, vem acompanhada por uma lição sobre altruísmo dentro de uma caixa de nuggets. 

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3 comentários sobre “O dia em que uma caixa de nuggets me fez chorar 

  1. Marcia Moreira

    Muito bom poder viajar com você Aritta. Através da narração, das fotos e principalmente a forma que você escreve os textos é que me desperta interesse em acompanhar sua trajetória. O que me chama à atenção é que eu sei que além das dicas sobre lugares, restaurantes entre outros você sempre vai ter um olhar diferente, e principalmente você sabe descrever isso em seus textos. Lembro das leituras de adolescente em que ficava horas à fio na biblioteca da passarela do álcool lendo “Jardim Secreto” e visualizando pela leitura tudo que acontecia na história. Parabéns pelo dom. Sigo lendo tudo e torcendo para quem sabe um dia te ver como correspondente de um telejornal. ..quem sabe? Bjs

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