Trabalho voluntário no Camboja 

Tentei segurar o choro, mas desabei atrás da porta do banheiro. Me escondi pois não queria que as crianças me vissem naquele estado. Eu estava ali para dar carinho, não para ser consolada… Era o meu primeiro contato com elas. E a primeira das três vezes em que naquele dia eu iria soluçar de tanto chorar. 

O local onde trabalharei por duas semanas como voluntária aqui em Phnom Penh, capital do Camboja, se chama National Borey for Infants and Children. Uma Instituição de Acolhimento, nome dado ao que costumávamos chamar de orfanatos. Fomos recebidas com o sorriso largo de um adolescente que se divertia em um balanço no jardim – eu e outras três voluntárias que também começaram o programa hoje. 
A instituição recebe voluntários do mundo todo que trabalham dando suporte às “mães”, como chamamos as funcionárias que cuidam das cerca de 120 crianças que vivem no local. A maioria tem deficiências físicas e mentais; algumas são portadores do vírus da Aids. Nenhuma delas fala, mas cada uma demonstra de forma diferente a felicidade em nos receber. 

Muitas são deixadas na porta do local durante a noite. Os pais nunca são achados. Algumas são entregues por pais que, sem condições de arcar com os custos, desistem das crianças. Há ainda as que são rejeitadas por necessitarem de cuidados especiais. 

Fomos apresentadas à diretora do local que nos explicou as regras da casa e nos encaminhou para as salas onde trabalharíamos. Fiquei em um andar onde estão as crianças mais novas. Apesar de limpo, o local carrega um cheiro de xixi bem forte, já que as crianças não conseguem fazer as suas necessidades sozinhas e usam fraldas de pano. Fralda descartável é artigo de luxo. 

  

Nós trabalhamos das 8 às 11 e das 14 às 16. O intervalo de três horas existe para que as crianças tirem o cochilo da tarde. Antes de sairmos para o almoço, cantamos músicas infantis em Khmer, a língua oficial do Camboja, em inglês e, também somos encorajados a cantar na nossa própria língua. Repetimos o ritual às 16h, quando nos despedimos. 

Durante o tempo em que ficamos no local nós brincamos, cantamos, levamos as crianças para passearem no jardim, trocamos as fraldas e damos comida. Tentamos dividir a nossa atenção entre várias crianças, já que é muito fácil se apegar a uma só. É difícil não se encantar por aqueles seres tão pequeninos, com a aparência frágil e sorrisos largos.

  

É também difícil conter a emoção quando uma delas te abraça bem forte e te pede carinho. 

  
Levei Rayot, um bebê de um ano e seis meses, portador da Síndrome de Down para um passeio no jardim. Carreguei comigo um livro infantil e enquanto lia para ele, a sua mãozinha apertava os meus dedos com a força de quem parecia pedir proteção. E assim ele adormeceu…

Perdi a noção de quanto tempo o observei. Mal sabia ele que, apesar de  tão leve em meus braços, deixava um peso enorme em meu coração. 

A entrega dos presentes

Vê-las recebendo os presentes que levei foi um dos momentos mais especiais. Caí no choro quando um dos meninos, Arun, portador de autismo, me abraçou bem forte ao ganhar uma cartela de adesivos. Ver aquelas carinhas felizes com tão pouco me encheu de alegria. E chorei novamente. Dessa vez o choro foi de felicidade.

Muito obrigada aos amigos que doaram e me ajudaram a estampar tantos sorrisos nos rostos desses pequenos anjos. 

  

  
   
    

Triste realidade

A pobreza no Camboja é de partir o coração. Vejo crianças de 4,5 anos trabalhando na ruas, vendendo frutas e doces. Crianças que aprendem a dar o troco correto desde cedo, em dólar e em riel (moeda local). Aprendem não por terem a sorte de uma boa educação, mas porque precisam trabalhar para sobreviver. E saber dar o troco é apenas uma das tarefas que o ofício exige. 
De acordo com as estatísticas do governo, quase 40% da população espalhada nas 25 províncias do país sobrevive com menos de 1 dólar por dia. Muitos vivem nas áreas rurais, trabalhando na agricultura ou em fábricas de roupas e sapatos. Quem nunca ouviu histórias envolvendo grandes marcas e trabalhos escravos em países como o Camboja? Pois é. 91% dos trabalhadores das fábricas no Camboja são mulheres. A rotina de trabalho? 12, 14 e até 20 horas por dia. Apenas 7% das fábricas pertencem a companhias daqui. Os outros 93% pertencem a essas marcas que todos nós usamos. 

Eu sei que o que estou fazendo por estas crianças é muito pouco para suprir todas as necessidades que elas possuem. Sei que a maioria jamais terá acesso a escolas, muitas nunca terão um pai ou uma mãe para colocá-los para dormir… Há os que sem acesso aos remédios e tratamentos necessários não chegarão a adolescência. Me parte o coração. 

Eu choro enquanto escrevo. É um misto de angústia, impotência, tristeza e até vergonha. Em alguns dias voltarei para a minha minha vida confortável enquanto os Rayots, Aruns, aqui no Camboja, e as Marias, Josés, Pedros e tantos outros aí no Brasil e em todo o mundo continuam à espera de alguém a quem eles possam dar a mão enquanto adormecem. 

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11 comentários sobre “Trabalho voluntário no Camboja 

  1. Danielle

    Que texto lindo e cheio de sentimento. Realmente a sua carinha. Lição de vida e de anor!
    Siga firme fazendo o bem para essa criançada! Te amo!
    Beijo

  2. Solange

    É muito importante o seu post; assim como nos sensibiliza na alma também nos estimula a participar de um lindo trabalho humano é voluntário.
    Beijos e felicidades para vc e para todas essas lindas crianças do Camboja.

  3. Soraia

    Chorei só em ler o seu texto! Tenha certeza que os momentos de felicidades que está proporcionando a esses pequenos não tem preço! O que importa pra eles não são os valores monetários, mas sim o valor do amor, do carinho e da atenção que você está distribuindo. Essa convivência, por pouco tempo que seja, será recompensador por toda uma vida!
    Quem conhece você sabe que distribuir alegria, simpatia e amor não é nenhum sacrificio.

    Aproveite esses momentos.

    beijo grande!

    Te amo, filha!

  4. Magda

    Que trabalho humano e lindo que vc esta fazendo, com tantas histórias que parecem que sairam de um livro. De tanta coragem de cruzar o mundo a favor do bem. Parabéns e continue fazendo a diferença entre tantos. BJOSS

  5. Sonhando em Inglês

    O texto ficou lindo!! A experiência deve ter sido inigualável… Nesses momentos que vemos como a humanidade precisa evoluir, como o amor ao próximo deveria ser o sentimento maior. Parabéns pela sua iniciativa e coragem!!

  6. Grazielle Mendonça

    Lindo texto! Vou fazer intercâmbio na Austrália no ano que vem durante 7 meses, e tenho muita vontade de depois do intercâmbio, passar uns 4 meses pela Ásia, fazendo trabalho voluntário e conhecendo os costumes de perto. Como faço para participar desse programa? Você se candidatou antes, ou quando já estava no país? Um abtaço, Grazielle.

  7. Thaís

    Oi Aritta, que trabalho emocionante!!!! Engrandeceu minha alma, encheu minha mente de valores que acabamos deixando escapar pelo cotidiano limitado que vivemos. Tenho uma filha autista e fiquei muito, muito emocionada com a sua experiência. Meu coração está amolecido e estou chorando. O mundo precisa de mais pessoas como vc, não tenho como não te agradecer, obrigada!!!!

  8. Daniela Regina da Cunha

    Olá Arita, meu nome é Daniela e estou fazendo umas pesquisas sobre trabalho voluntário no Camboja e acabei descobrindo o teu blog. Queria tirar umas dúvidas e pedir umas dicas. Teria como passar o seu email para que eu possa te escrever, claro se vc puder me ajudar. Parabéns pela iniciativa. Um abraço

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