O vendedor de livros em Hanoi

Passava por ele todas as vezes que saía do hotel, em Hanoi, no Vietnã, e ouvia sempre a mesma pergunta: “Quer comprar livros? Tenho muitos livros!”. 

Eu, que trouxe dois e comprei outros três em livrarias na Tailândia e no Camboja, olhava os livros de relance e atravessava a rua. 

Hoje, nas minhas últimas horas em Hanoi, resolvi parar para conversar com ele. Puxei um banquinho e sentei ao lado de um dos caixotes em que ele carregava os títulos, todos usados, mas bem conservados.

O seu ponto de venda fica na loja do amigo, um espaço bem pequeno. Disse a ele que era brasileira, ele todo entusiasmado mexeu na pilha de livros e de lá tirou “O Alquimista” de Paulo Coelho. 

  
Me contou que já havia lido quase todos os livros que carregava para revender. Faz amizade com os funcionários de muitos hotéis na cidade e toda semana passa recolhendo o que é deixado por nós, visitantes. 

Seu nome é Huynh. “Significa irmão mais velho, pois eu sou o primeiro dos cinco filhos”, explicou. 

Começou a ler bem pequeno, mas foi aos 15, quando conseguiu emprego em um dos hotéis em Hanoi, que descobriu o grande tesouro deixado pelos turistas: livros descartados após serem lidos. 

Perguntei sobre a sua família e ele contou que as filhas, de 7 e 11 anos, estão aprendendo inglês. Ele tem incentivado as garotas a gostarem de ler tanto quanto ele gosta. Tarefa difícil, segundo ele. “A mãe só gosta de televisão. Eu não vejo televisão, prefiro os livros. Na televisão só tem coisa ruim”, reclamou. 

Eu disse a Huynh que havia deixado dois livros no Camboja e que, infelizmente, não poderia contribuir com a sua biblioteca/loja, pois havia colocado outros dois na mala e um eu carregava comigo, já que ainda não havia terminado de ler. Ele perguntou o que eu lia no momento e eu tirei da bolsa “O último dançarino de Mao”, sugestão de alguém no Facebook e que consegui achar numa livraria bem pequena em Chiang Mai, na Tailândia. 

  

“Madame, esse livro é muito bom”, ele exclamou, antes de se empolgar e começar a me contar sobre outros livros que também havia gostado. 

Eu não tinha muito tempo, pois o motorista que me levaria para o aeroporto chegaria em 30 minutos. 

Contei que gostava muito de escrever e que “talvez, um dia, quem sabe” eu iria escrever um livro. 

Antes de me despedir, dei a ele o equivalente a $3 e disse que era para ele doar um dos livros para alguém, já que eu não poderia carregar mais nada comigo.

“Boa viagem, madame! Volte quando escrever o seu livro. Eu também quero lê-lo”, ele gritou, segurando uma vassoura, enquanto eu me afastava. 

  
Voltarei, Huynh. Prometo que voltarei. 

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