O meu tio não era louco


Foi um cara que nunca conheceu o tédio. O tipo de pessoa que transformava uma conversa informal sobre sapatos numa explicação completa sobre a anatomia do pé. Eu tinha muitas razões para o admirar. A  minha favorita era o fato de saber que ele nunca me deixaria sem uma resposta. E ele não deixava.

Tio Aroldo sofria de transtorno bipolar. E era também o cara mais inteligente que já conheci. Para quem não sabe, o transtorno bipolar é uma doença psiquiátrica caracterizada por variações do humor, crises de depressão e o surgimento de algumas manias. É como viver em uma montanha russa. Em certos dias a pessoa está depressiva, noutros ela está eufórica. Pode ser bem difícil de lidar (como no caso do meu tio), mas muitos conseguem controlar o transtorno com o acompanhamento de um psiquiatra e o uso constante de medicamentos. Infelizmente, não tem cura.

Foi o meu tio Aroldo que, mesmo sendo pão duro de carteirinha, no início da minha adolescência me levou numa loja bacanérrima para me dar a minha primeira calça “de marca”. Eu era apaixonada pelos meus jeans da Yes Brazil. No meu corpinho enxuto de adolescente, a calça caía como uma luva. Tio Aroldo tinha bom gosto e se preocupava com os pequenos detalhes.

No inicio eu não entendia muito bem quando as crises aconteciam. De repente ele falava mais do que o normal, ficava bastante eufórico e se tornava mais sincero do que já era. Falava tudo que desse na telha e muitas vezes arrumava confusões com os conhecidos da nossa cidade, que não é tão grande e nem tão pequena. O chamavam de louco. E eu, sem muita maturidade, mas cheia de amor pelo meu tio, me doía por dentro cada vez que o via daquele jeito.

A risada de alguns amigos, o pouco caso feito por conhecidos e a tristeza dos meus avós ao tentar lidar com uma doença ainda pouco conhecida machucava muito todos que o amavam. Ninguém sabia direito o que era a bipolaridade. E, até que alguém explicasse o que levava aquele homem bem vestido a usar óculos escuros à noite, enquanto gritava com desconhecidos no meio da rua, era mais fácil dizer que ele tinha, sim, um parafuso a menos. O meu tio não era louco. O meu tio era um cara normal que de vez em quando ficava doente.

Ele cortava o bife em pedaços minúsculos. Misturava farinha e um pouco de pimenta no arroz com feijão e, assim como eu, não resistia à jarra de sucos. Comia em frente à TV, tinha uma coleção de camisas da Lacoste e usava sempre o mesmo perfume – CK One. O bigode era a sua marca registrada. Ele era charmoso.

As crises vinham sempre depois de algum abalo emocional. O fim de um relacionamento, a morte de alguém especial, uma crise financeira. Não podíamos prever. O tratamento também não era tão simples. Nem sempre ele concordava em tomar os medicamentos. Sem ter como lidar com as crises mais graves, não tínhamos outra solução a não ser interná-lo.

A última crise do meu tio foi também a pior de todas. Eu tinha 19 anos e morava com uma prima no apartamento da nossa família, em Salvador. O meu pai havia sido levado pelos meus tios para a capital, numa tentativa frustrada de interná-lo numa clínica de reabilitação para usuários de drogas. Ele conseguiu fugir de volta para Porto Seguro e acabou não fazendo o tratamento. Enquanto isso, o meu tio Aroldo, que também estava conosco em Salvador, começou a apresentar alguns sinais de que não estava muito bem. Acredito que ver o meu pai naquela situação havia mexido muito com o seu emocional. Eles eram muito próximos.

Assim que percebemos que ele estava agitado, tentamos convencê-lo a tomar os remédios. Após alguns dias, a situação piorou. Certo dia, chegamos da faculdade e o porteiro do nosso prédio informou que o nosso tio estava gritando na varanda. Não bastassem os gritos, abri a porta e dei de cara com ele pelado, usando apenas o seu inseparável Ray Ban.

Ele se recusava a aceitar ajuda. Quando mencionei que o levaríamos ao médico, ele ficou ainda mais agressivo. Eu me dividia entre a tristeza em ver o meu tio naquele estado, o medo de uma tragédia ainda maior, a preocupação em resolver tudo sem precisar da ajuda da família (que já estava lidando com o meu pai em Porto Seguro), a vergonha em saber que todos no prédio comentavam sobre a situação no nosso apartamento e o medo de não ser forte o suficiente e falhar em ajudá-lo.

Liguei para um amigo e expliquei que precisávamos de uma ambulância e de pessoas preparadas para levar o meu tio à força para a clínica psiquiátrica. Nunca vou esquecer daquela cena. Eu chorava e não conseguia o encarar. Evitava o seu olhar pois não queria deixar que aquele homem que me xingava e me acusava de o estar imprisionando, apagasse a memória que eu tinha do tio doce, carinhoso e inteligente que eu tanto amava. Ele era apaixonado pelos seus sobrinhos. Para alguns de nós, ele era um pai. E para ele, éramos os filhos que ele nunca teve.

A primeira visita à clinica foi terrível. O ambiente era triste e ele não quis nos receber. Lembro de termos levado frutas e biscoitos, mas ele se recusava a falar comigo, pois acreditava que eu o havia traído ao interná-lo. Naquela noite tive problemas para dormir. A minha prima dividia a cama comigo, pois por um bom tempo desenvolvi uns ataques de pânico e não dormia sozinha.

Na segunda visita eu fiquei ainda mais assustada. O meu tio estava completamente dopado. Mal conseguia falar e eu não consegui ficar lá por muito tempo. Ele ainda estava bastante magoado comigo. Eu era uma adolescente que estava prestes a terminar a faculdade, sofrendo com os problemas do meu pai e com um tio internado em uma clínica psiquiátrica. Chorava enquanto tomava banho e ficava embaixo do chuveiro o tempo necessário para que ninguém percebesse o quanto eu estava triste.

O dia em que tio Aroldo saiu da clínica foi um dos mais felizes da minha vida. Ele já não estava mais triste comigo e fez de tudo para demonstrar a sua gratidão pelo que eu e a minha prima fizemos por ele. Comprou os móveis que eu tanto queria para o meu quarto e tentava nos agradar ao máximo. Tio Aroldo sempre tinha um comentário na ponta da língua. Certa vez, enquanto eu estudava para um dos testes ele disse: – Arittinha, nenhuma prova é mais importante do que as que você ja superou. Nenhuma nota vai ser capaz de traduzir todo o conhecimento que você tem e nenhuma escola vai te ensinar o que você realmente precisa saber. Vence na vida quem tem coragem e curiosidade.

Tio Aroldo sofreu um infarto fulminante três anos mais tarde, seis meses após o meu pai falecer. Foi um ano muito difícil para a nossa família. Os meus avós perderam dois filhos em apenas seis meses. Os meus tios perderam dois irmãos. Os meus primos perderam dois tios. Eu perdi o meu pai e também perdi o único cara que jamais se esquivava às minhas perguntas. E, apesar de tentar compreender a morte de forma racional, sinto que ele foi cedo demais e me deixou sem algumas respostas. Também acho muito injusto que muitos jamais tenham tido a chance de conversar por ao menos cinco minutinhos com o meu tio. Ele era sensacional.

É triste saber que tanta gente pouco sabe sobre o transtorno bipolar. Muitos olham o bipolar com desprezo, se envergonham (eu também me envergonhava) quando as crises são intensas ou quando ocorrem em público. Muitos se afastam, não conseguem lidar com os transtornos de humor ou com a agressividade de quem tem a doença. Eu não os julgo, pois não é fácil. Porém,nada é mais difícil do que perder aqueles que a gente ama, sejam eles loucos ou não.

Sabe aquele cara que mora ali do outro lado da rua e de vez em quando age meio estranho? Aquele que todo mundo diz ser louco? Ele podia ser o meu ou até o seu tio. Mas, tio Aroldo não era louco. Ele era o cara que tinha respostas para todas as minhas perguntas.

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Voltarei, eu prometo! 

  
Tá certo. Admito que tenho me ausentado demais por aqui. Eu sei que tô devendo umas visitas há tempos e que uma blogueira que se preza não pode se afastar assim do seu blog. 

Só que eu faço de propósito. Nem sempre, mas quase sempre. Estou na reta final do meu curso de Marketing e tive que pegar oito matérias para me formar em abril (eu tava na Ásia quando eles abriram as matrículas, me matriculei com atraso e uma das matérias não tinha vaga). Tá complicada a minha rotina. 

Pedi demissão da Starbucks só para focar no College e assim ficou “mais fácil”. Entre aspas pois eu ganhei mais tempo e perdi dinheiro… Porém, vamos focar a conversa nos estudos, pois falar de dinheiro neste momento me entristece hahaha 

Eu só queria avisar pra quem me segue por aqui que, apesar de não estar postando textos, continuo bem ativa no  Instagram e lá eu posto diariamente fotos da minha rotina, dos meus lugares preferidos, comidinhas e – lógico – selfies desnecessárias. Então passa lá se por acaso der saudade! 😀 

Voltarei a desabafar aqui no blog em breve. Prometo!!! E enquanto eu me escondo embaixo dos livros e por detrás de um sorvete delicioso de framboesa com chocolate branco em formato fofo de coração, continuo pensando com carinho naqueles que me enviam mensagens, os que sempre checam se tem algo de novo por aqui e os que me pedem para retornar. Volto jajá! Não me abandonem, não…

Beijo grande,

Aritta