Aproveite bastante a festa aí em cima, meu bebezão


No domingo eu quis ficar em casa. Pedi ao meu tio para ir ficar no hospital com o meu avô, pois eu pressenti que eram as suas últimas horas. Eu não queria estar lá quando ele partisse, pois parte de mim temia carregar o remorso de não ter impedido que ele se fosse, mesmo sabendo que ninguém poderia impedir. Comentei com o Marc que também não queria que a morte do meu avô se tornasse uma tragédia na minha vida. O barulho daquela máquina me dava dor de cabeça, mas vê-la parar seria ainda mais insuportável.

O meu avô teve a chance de viver 88 anos. A sua morte, apesar de nos entristecer, não foi e nunca será vista como uma tragédia. Nos últimos meses, tive a chance de cuidar dele como jamais havia cuidado de alguém. Ainda não sou mãe, mas já sei o que é acordar de madrugada para trocar fraldas; já sei o que é fazer aviãozinho e chantagem para convencer alguém a comer; dar banho, passar talco e perfume de bebê. E o meu bebê era super vaidoso. Queria hidratante nas pernas, cabelo penteado e gostava de escolher as próprias camisas. Eu e minhas tias fazíamos todas as suas vontades. Ele era o nosso bebezão.
Gostava de ter os netos por perto e nos últimos meses, reclamava quando eu saía, mesmo que fosse por uma horinha. Quando eu era pequena, me chamava de “Expresso Brasileiro”, nome da companhia de ônibus, pois dizia que eu só vivia na rua. E eu vivia mesmo.


Foram poucas as vezes em que vi o meu avô chateado. Triste, só quando enfrentava algum problema familiar. Tá certo que juntos matamos alguns dragões, mas ele, forte que só, sabia como ninguém recuperar o bom humor. Gostava de silêncio enquanto fazia as suas refeições

Me criou desde novinha, antes mesmo do meu pai falecer. E me apoiava em tudo que eu fazia. Amava viajar, fazia amigos por onde passava e trabalhou duro para dar o melhor para toda a família. E o fez perfeitamente bem. Ah, vô! Como eu sou grata…

Quando decidimos ficar para que eu pudesse cuidar do meu avô, o meu namorado me pediu em casamento. O câncer era agressivo e sabíamos que ele não teria muito tempo. O Marc queria me dar a chance de ter o meu avô/pai ao meu lado e dar a ele a felicidade de me ver casar. Pediu a minha mão ao meu velhinho, que nos fez prometer que faríamos a cerimônia religiosa.

Corremos contra o tempo para conseguir reunir toda a documentação dele, que precisou ser enviada do Canadá. Como o meu avô estava bem doentinho, o padre abriu uma exceção e viria em nossa casa no próximo dia 8 para celebrar a nossa união do jeitinho que ele desejava. Infelizmente, ele se foi antes que eu tivesse a chance de cumprir a minha promessa. Isso me dói.

Na segunda-feira, dia 26, seria o aniversário do meu tio Aroldo, aquele que eu tanto amava e que morreu logo após o meu pai falecer.

Nos dias em que estávamos no hospital, o meu avô dizia ter recebido a visita do filho… Como ele também me disse que queria ir pra “boate” comigo, não levei muito a sério os seus delírios.

E foi no dia do aniversário do filho que já havia partido, poucos minutos após a meia-noite, que ele faleceu. Se eu já acreditava que o céu virava uma festa quando os bons pra lá seguiam, ontem eu tive certeza. O meu avô comemora lá em cima com os meus pais, meu tio e tantos outros bons que já partiram. A festa deve estar boa, não tenho a menor dúvida.

Nós, cheios de saudade, comemoramos aqui embaixo a chegada de Valentina, que ontem esperou quietinha a partida do bisavô e, só quando teve certeza que ele havia nos deixado, veio ao mundo, como quem respeita um protagonista terminar a sua atuação para só então entrar em cena e dar continuidade aos novos capítulos dessa trama linda a qual chamamos de vida.

Aproveite bastante a festa aí em cima, meu bebezão. Aqui embaixo a gente já morre de saudades.
 

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