América Central: trilhas, vulcões e pirâmides na Guatemala

Já faz um bom tempo que ensaio publicar aqui um post sobre a viagem que o Marc e eu fizemos à Guatemala. Fui deixando pra depois e hoje me dei conta de que ja havia passado da hora!

Quem leu os meus posts (aqui e aqui) sobre o México, percebeu que a gente começou a viajar sem muito planejamento. A decisão de visitar a América Central foi tomada também meio que de última hora.

Pegamos um voo da Cidade do México para a Cidade da Guatemala, capital do país e famosa por ser bastante violenta. Alugamos um airbnb em Antigua Guatemala (também chamada La Antigua ou apenas Antigua), a apenas uma hora da capital. Do aeroporto, seguimos direto pra lá, portanto, vimos a capital apenas pela janela do carro.

Antigua é uma cidade colonial, patrimônio da UNESCO, construída em meio a três vulcões – Acatenango, Água e Fuego – sendo o último deles o único ainda ativo e um dos mais famosos do país. Foi planejada com o formato de um quadrado com dezenas de ruas de pedra que a cortam de uma ponta a outra. A arquitetura com influência barroca e o colorido das casas dão um charme especial ao local. A cidade é uma graça!!

Dois grupos de turistas se destacavam nas ruas da cidade: os aventureiros (como eu e Marc) e os bird watchers (pessoas que viajam à destinos nos quais seja possível observar pássaros raros).

A impressão que tivemos durante a nossa visita ao país é a de que, para quem não curte fazer trilhas e explorar a natureza, a Guatemala não é o melhor dos destinos.

No nosso segundo dia no local, marcamos um tour com uma das agências em Antigua para conhecermos o vulcão Pacaya, que fica em outro município, a uma hora de distância. O vulcão ainda está ativo, mas a sua última grande erupção ocorreu em 2010.

Pagamos por volta de 10 dólares pelo tour (transporte e guia). A taxa de acesso ao vulcão é cobrada no local – Q50 = USD7. A moeda local se chama quetzal.

A subida não é difícil e os tours geralmente ocorrem duas vezes ao dia, com saída às 6 da manhã e 14h. Fomos à tarde e às 20h já estávamos de volta.

Não tivemos muita sorte e havia bastante neblina no dia em que resolvemos conferir o vulcão. Não deu pra avistar nada de lá de cima. Por conta da recente erupção, não é possível chegar próximo da cratera, porém, após subir ao topo da montanha, descemos até uma área coberta por lava solidificada e a temperatura aumenta bastante!

Os guias geralmente distribuem marshmallows e palitos para que possamos assá-los no calor da lava. Pra ser bem sincera, ficamos um pouco frustrados com a nossa primeira experiência explorando um vulcão. Porém, sem a neblina, o passeio é muito mais divertido!

Pra quem acha que os passeios são perigosos, em locais com grande movimentação turística e vulcões nas proximidades, as atividades vulcânicas são observadas 24h por dia. Especialistas conseguem perceber o menor dos sinais de que um vulcão entrará em erupção e a explosão não acontece de uma hora pra outra. Há uma antecedência razoável no processo para que as agências cancelem os tours.

Meios de Transporte

O ônibus conhecido como chicken bus é principal meio de transporte na Guatemala. Há também táxis e tuk-tuks, mas sugiro pesquisar muito e pedir informações em agências de turismo antes de escolher o melhor meio para se locomover em distâncias maiores. O chicken bus pode ser a opção mais em conta, mas nem sempre é a melhor pois estão sempre lotaaaaaados!

A nossa experiência em um chicken bus não foi muito agradável. Afinal, ele não para em rodoviárias para que a gente use o banheiro. Mas, só descobrimos isso no meio de uma viagem de 5 horas. Pensem no desespero? Hahaha

Vulcão Acatenango: 6 horas de subida

No dia seguinte à nossa trilha no Pacaya, seguimos com a mesma agência, a Ox Expeditions , rumo ao nosso primeiro desafio: conquistar o topo do vulcão Acatenango, com 4 mil metros de altura e inativo desde 1972. A subida até a base do acampamento (a 3500 metros) onde a gente dormiu uma noite, antes de retornarmos na manhã seguinte, durou 6 horas. Os outros 500 metros até o topo são feitos em mais duas horas. É muito puxado!

A trilha é considerada a mais difícil dentre as oferecidas pelas agências em Antigua, pois além da subida íngreme, a altitude dificulta a respiração e muita gente acaba passando mal.

Ahhh, e eu nem contei que você faz tudo isso enquanto carrega a mochila com comida, 6 litros de água (parece muito para um dia e meio, mas é uma das exigências do guia e a gente bebe muita água mesmo!), partes das barracas, saco de dormir e casacos (já que o frio lá em cima é surreal).

Calma, você tem a opção de pagar 25 dólares pra alguém carregar o seu mochilão. E euzinha escolhi pagar, pois sabia que a subida seria muito difícil.

Há muitos moradores da região que trabalham todos os dias com isso e sobem o vulcão com uma habilidade de fazer inveja a qualquer atleta olímpico!

Saímos da agência às 7h e dirigimos por mais ou menos duas horas antes de chegar à base do vulcão.

A primeira hora de subida foi a mais dolorosa. Pensei seriamente em desistir. O caminho é suuuper íngreme e não tínhamos levado os nossos tênis de trilhas, apenas tênis de corrida. A cada passo que eu dava pra cima, escorregava um passo pra baixo.

O Marc, que deu uma de durão e levou a própria mochila, sofria com o peso e a dificuldade da subida.

Depois da primeira hora, ficou um pouco mais fácil, já que o caminho era em zigue-zagues. Há até uma barraquinha com café, água e refrigerante, no meio do vulcão.

Daí você deve estar pensando “Pra quê que alguém vai se submeter a uma tortura dessas?”

….pra acordar no meio da noite pra fazer xixi e ver o céu mais lindo e estrelado que você já viu. E a lua iluminando dois vulcões maravilhosos bem em frente à sua barraca.

O intuito de subir o Acatenango e acampar a 3500 metros de altura é ver de pertinho os vulcões Água e Fuego – o segundo ainda super ativo!

O nosso guia nos acordou às 4 da manhã para que nos preparássemos para assistir o nascer do sol. Imaginem uma cena que faz você chorar de alegria. Foi essa…

Um pouco mais tarde, por volta das 7h, começamos a preparar o nosso café da manhã. O tão esperado momento da explosão do vulcão Fuego aconteceu quando estávamos desarmando o acampamento. E foi incrível!!!

A descida durou 4 horas e foi mais difícil do que eu imaginava. Como o meu tênis não era apropriado, perdi as contas de quantas vezes caí. Também estava carregando a minha mochila, já que o peso das garrafas d’água e comida já havia ido embora. Terminamos a trilha mortos, suados e sujos de cinzas e terra. Mas, valeu muito a pena! Foi desafiador e emocionante!

De Antigua para as margens do lago Atitlan

Seguimos de Antigua para San Juan, um dos vilarejos às margens do famoso Lago Atitlan. A maioria dos guias de viagens sobre a Guatemala sugere que o visitante conheça o lago, mas não menciona as diversas opções de cidadezinhas nas quais você pode se hospedar.

O lago é o mais lindo que já vi. Não é a toa que é considerado um dos mais bonitos do mundo. É imenso! A luz do sol reflete na água e produz um brilho lindo. A cereja do bolo fica por conta dos vulcões e montanhas que o cercam, além das árvores verdinhas e do colorido das flores.

Escolhemos San Juan porque achamos a ideia de ficar no Eco Hotel Mayachik interessante. Os bangalôs são bem simples, os banheiros são ecológicos (compostagem), há uma horta orgânica, um espaço para que os hóspedes compartilhem o que sabem (aulas de yoga, de pintura, dança) e um restaurante vegetariano.

Vizinha à San Juan fica San Marcos, o vilarejo preferido dos hippies. Em toda a região do lago Atitlan encontramos aldeias maias. Os costumes e símbolos da civilização, que já foi uma das sociedades mais densamente povoadas e culturalmente dinâmicas, podem ser vistos por todos os cantos.

A nossa visita à região foi curta, mas valeu por muitas aulas de história (as quais eu provavelmente faltei haha), afinal, vimos de perto como o povo maia ainda mantém, com orgulho, muitas das suas tradições.

Não havia muito o que fazer em San Juan. Aproveitamos para pegar um tuktuk e visitar as cidades vizinhas. Cada uma delas tem o seu charme. San Pedro, ao lado de San Juan, é mais agitada e cheia de turistas.

Uma visita às feiras é obrigatória! É o melhor lugar pra tirar fotos e observar o comércio local.

Próxima parada: Quetzaltenango

De San Juan, pegamos uma van para Quetzaltenango, também conhecida como Xela. É a segunda maior cidade da Guatemala e bem mais agitada do que Antigua ou os vilarejo às margens do Atitlan.

Chegamos lá com o propósito de fazer a nossa última trilha na Guatemala. Pesquisamos bastante e achamos a ONG Quetzaltrekkers, mantida por turistas que se tornam guias e organizam trilhas na região. Os fundos arrecadados são doados à escolas da região.

Pagamos por volta de USD200 por uma trilha de 6 dias que saía de Nebaj, cidade montanhosa a 5 horas de Xela (esse primeiro percurso é feito em um chicken bus) e terminava em Todos Santos, cidade famosa por conta das roupas usadas por seus moradores. Todos os homens se vestem exatamente da mesma forma.

Foi a trilha mais longa que já fizemos. O grupo era formado por 11 pessoas, incluindo os dois guias.

Passamos uma noite em Nebaj, onde provei um prato local e me apaixonei! O Boxbol é uma iguaria tradicional da região e o seu sabor é muito melhor do que a sua aparência. Eu juro!!!

É feito com massa de milho cozida, coberta por folhas de abóbora. O segredo está no molho cremoso preparado com as sementes da abóbora e outros temperos e no molho de tomate que também acompanha o prato. É uma delícia!

Durante o passeio pela cidadezinha, vimos muitas crianças trabalhando nas feiras e em praças, engraxando sapatos. Desde cedo os pequenos são obrigados a trabalhar para ajudar os pais. Quase 60% da população da Guatemala está abaixo dos níveis de pobreza.

Na manhã seguinte…

Demos início aos 65km de trilha – dessa vez, sem alguém pra carregar a minha mochila. Após o primeiro dia de caminhada, já não dava pra voltar atrás. Deixamos a área com rodovias e transporte público e passamos a caminhar por vilarejos remotos. As refeições (café da manhã e almoço) eram feitas pelo caminho. Cada um de nós carregava parte da comida que o grupo iria consumir pelos próximos dias.

À noite, dormíamos em espaços cedidos por moradores dos vilarejos os quais cruzávamos. Os jantares eram feitos na casa de famílias que já trabalham há um bom tempo em parceria com a ONG.

Eles recebem uma ajuda financeira por cada grupo que recebem. Dessa forma, a ONG movimenta a economia local.

A trilha não era nada fácil. Mas, todo o esforço era recompensado pelo aprendizado que estávamos adquirindo.

Caminhávamos por uma média de 6-8 horas por dia, em terrenos planos e montanhosos. O cansaço era absurdo! A maioria de nós dormia logo após o jantar, por volta das 19h. Após o terceiro dia, já nem sentia dores nas pernas. Parecia que o meu corpo ja havia se habituado à rotina.

O ponto alto (literalmente) ficou por conta da subida à mais alta montanha não- vulcânica da Guatemala, La Torre, com 3870 metros.

Foi incrível passar pelos vilarejos mais remotos, comer com as famílias locais e tomar banho em temascal, a tradicional sauna dos maias.

Enquanto passávamos pelas vilas, percebíamos os olhares curiosos dos moradores. Muitas vezes eles nos fotografavam e os papéis eram invertidos. Deixávamos de ser meros turistas e nos tornávamos a atração principal.

Após seis dias, chegamos ao nosso destino final, a cidade de Todos Santos. Dormimos uma noite num hotel, antes de percorrermos o caminho de volta em um ônibus.

Não há muito o que se ver/fazer em Todos Santos. Na realidade, foi o local em que nos sentimos menos à vontade. As pessoas eram bem fechadas e a sensação que dava era a de que não éramos bem-vindos por ali. Talvez por conta dos esforços da população em manter as tradições sem que o turismo recorrente atrapalhe.

No fim da nossa jornada, fomos ver as famosas pirâmides em Tikal

Ao retornar da trilha, dormimos mais duas noites em Xela para que pudéssemos descansar um pouco, antes de seguirmos rumo à Tikal, o nosso destino final.

Pegamos um ônibus de Xela com destino à Cidade da Guatemala e de lá, outro ônibus com destino à Flores, cidade vizinha ao parque arqueológico de Tikal. O ônibus deixou a capital do país por volta das 20h e antes das 6h chegamos numa cidade vizinha à Flores (apesar do bilhete dizer Flores, os ônibus param a uma hora de lá). De lá, teríamos que pegar uma van para Flores (essa não era cobrada, pois a passagem do ônibus incluía o trajeto) e outra para Tikal (cobrada à parte).

Ainda sonolentos, descemos do ônibus e ouvimos quando um rapaz chamava todos os passageiros que seguiam para Flores. Seguimos o grupo e entramos na van. O motorista nos deixou em uma agência de viagem e lá fomos convencidos a pagar por um pacote de ida e volta à Tikal.

Ninguém apareceu para nos buscar e, tivemos que pagar a uma outra agência para nos levar de volta à rodoviária ao fim da nossa jornada em Tikal.

O Parque Nacional do Tikal fica na região de Petén e foi um dos maiores centros populacionais e culturais da civilização Maia. Patrimônio da Humanidade pela Unesco, as ruínas do local são um dos maiores legados arquitetônicos e culturais dos povos pré-colombianos da América Central.

A maioria dos turistas opta por se hospedar em Flores e passar o dia em Tikal. Como estávamos cansados, decidimos ficar duas noites em um dos três hotéis localizados dentro do complexo, o Tikal Inn. O serviço do hotel deixou muito a desejar. Fora o fato de estar ao lado do parque, não há vantagem alguma em se hospedar por lá.

O parque arqueológico fica aberto das 6 às 18h e os tours mais recomendados são para ver o nascer do dia ou o pôr do sol. A entrada custa USD22 e você pode ficar lá por quantas horas quiser. O passeio é feito com um guia e eles te dão uma aula completa sobre cada pirâmide e ruína do local.

Encerrar a viagem em Tikal valeu muito a pena. Terminamos a nossa jornada com a sensação de termos explorado um pouco de tudo que a Guatemala tem a nos oferecer. A bagagem voltou muito mais pesada do que quando desembarcamos por lá, só que ao invés de lembrancinhas e artesanatos típicos, trouxemos muito aprendizado. E isso, não tem quem tire de nós, não é?

P.s: Escrevi e publiquei o post usando apenas o app da WordPress para iphone, que não me permite inserir legendas nas fotos… 😦 consertarei assim que tiver acesso a um computador.

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2 comentários sobre “América Central: trilhas, vulcões e pirâmides na Guatemala

  1. maybotelho

    Ola! Eu acabei achando seu blog por acaso! pois procurei no Google sobre Réveillon em chicago, e achei um post seu de tres anos atras, isso eu achei ano passado, pois ja planejo passar o réveillon la desde o ano passado! Eu moro em Milwaukee e faz dois anos que tento passar o Réveillon em chicago e nunca consigo me organizar direito.. enfim, eu queria saber qual foi a festa do Nave pier que voce foi, me pareceu muito legal pelo que vc descreveu! Podes me ajudar com essa dica? Pois achei duas festas que parece ser no mesmo lugar, nao entendi muito bem!! Espero sua resposta, obrigada!

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