Sobre o meu nome

Nos primeiros 15 dias de vida, não tive nome. O meu pai e a minha mãe não chegavam num consenso. Bianca, ela queria, já que eu era a coisinha mais branca que ela já havia visto. Ele queria Ana Laís.

Aritta foi uma decisão de última hora. O nome era pra ser dado à uma tia. Porém, a minha avó teve complicações no parto e prometeu que se ela e a bebê sobrevivessem, a chamaria de Maria D’Ajuda. As duas foram salvas.

O nome continuou na gaveta por mais de vinte anos, até que o meu pai decidiu que eu não seria Bianca, nem Ana Laís:

– É A-R-I-T-A! Não, põe um T a mais que fica melhor.

– Ok. A-R-I-T-T-A – respondeu o rapaz do cartório enquanto franzia a testa.

Vovó Áurea finalmente teve o seu desejo realizado. Coincidência ou não, cinco anos mais tarde ela se tornaria a minha mãe.

Passei a infância inteira sem gostar do meu nome. Achava péssimo ser a única Aritta na escola, no meio de tantas Anas e Marias. Menti diversas vezes ao me apresentar para adultos. “Meu nome é Carolina mas, todo mundo me chama de Carol”, dizia. Na maioria das vezes, eu era traída pela minha tia Mary, aquela de quem eu roubei o nome. “Ariiiiitta, saia um pouco do mar. Deixa o pessoal em paz”, ela gritava da areia. ”É Aritta Carolina”, eu explicava aos meus novos-quase-amigos.

Não mentia para as crianças. Eu não me importava muito com a opinião delas. Os adultos é que não podiam me achar estranha, já que o meu sonho era ser como eles.

A minha fixação pelo nome Carolina era tão grande que a minha prima Carlinha e eu batizamos as nossas duas bonecas de Ana Carolina e Amanda Carolina.

Acho que também sugeri o nome para todas as grávidas que encontrei naquela época.

Anos mais tarde, já adolescente, me acostumei com o fato de ter um nome original. Me olhava no espelho e não via uma Ana, uma Maria, uma Bianca e nem uma Carolina. Eu via uma A-R-I-T-T-A. Pois era assim que tinha de ser. Um nome forte, incomum e com um importante significado: foi o nome que a minha vó escolheu.

About my name

For the first 15 days of my life, I had no name. My parents could not agree. My mother chose Bianca, because I was so white you could see my veins. My father preferred Ana Lais.

Aritta was a last minute decision. The name was supposed to be given to my aunt. However, my grandmother had complications with the childbirth and promised that if they survived, she would call her daughter Maria D’Ajuda.

Mom and baby survived.

Aritta remained in the drawer for over twenty years. My father finally decided that I would not be Bianca, nor Ana Lais.

– Register there: A-R-I-T-A. Actually, put an extra T so it looks better.

-OK. A-R-I-T-T-A it will be – replied the guy at the office with a bit of hesitation.

Grandma Aurea finally had her wish fulfilled. Coincidence or not, five years later she would become my mother.

I spent my entire childhood disliking my name. I didn’t like being the only Aritta in school, in the midst of so many Anas and Marias.

I lied several times when I introduced myself to adults. “My name is Carolina, but everyone calls me Carol,” I would say. Most of the time, I was betrayed by my aunt Mary, the one who almost died and from whom I stole the name. “Ariiiiitta, get out of the water. Leave these people alone, “she screamed from the sand. “It’s Aritta Carolina”, I explained to my new-almost-friends.

I didn’t lie to children. I didn’t care much about their opinion. However, I wanted adults to like me and not find me strange, since my dream was to be like them.

I was so obsessed with the name Carolina that my cousin Carla and I baptized our two dolls Ana Carolina and Amanda Carolina. I think I also suggested the name for all the pregnant women I met at the time.

As a teenager, I got used to having an original name. I looked at myself in the mirror and I did not see an Ana, a Maria, a Bianca or a Carolina. I saw an A-R-I-T-T-A. For that was how it had to be. A strong, unusual name with an important meaning: it was the name my grandmother chose.

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