Aqueles que não pedem pra sair

Dizem que os amigos de infância são os únicos que realmente nos conhecem, pois nos viram crescer. Os amigos de intercâmbio deveriam fazer parte do mesmo grupo. Porque morar fora é – como eu já disse certa vez – dar luz a um novo "eu", é ser mãe e pai de si próprio.

Os amigos que também são imigrantes, acompanham o nosso renascimento. Eles nos observam enquanto a gente se recria, sem pai e mãe ao lado pra educar e dizer se tá certo ou errado. Ou pra fazer curativos quando a gente quebra a cara. E a gente quebra demais, né?

O amigo imigrante é aquele que segura as nossas maiores barras, porque os problemas agora são reais e o tempo passa voando. Ainda ontem era 2012!

Ninguém chora porque quer sair e a mãe não deixa. A gente chora porque não pode estar ao lado da mãe doente, do pai com problemas financeiros, dos amigos antigos. Choramos porque a gente perde a chance de nos despedir de quem nos deixa e de dar boas vindas a quem acabou de vir ao mundo. Quantos natais ao lado da família, casamentos, batizados, aniversários você perdeu?

Choramos porque falta dinheiro, falta trabalho, falta paciência, falta o colo dos avós. Choramos porque a gente achou que seria mais fácil; porque a língua é complicada, porque a cultura é estranha. Porque confiamos em alguém que nos passou a perna e tudo parece dar errado.

Choramos porque queremos ficar e, muitas vezes, parece impossível. Quem nunca? A gente chora porque mesmo chegando tão longe, acha que não chegou a lugar algum.

E, nessas horas, o seu novo amigo de infância te acolhe. Te relembra passo a passo o quanto você cresceu, tudo o que conquistou e o que ainda está ao seu alcance. O amigo imigrante sabe de verdade o que você sente. Ele não está só te confortando. Ele tem as mesmas saudades, as mesmas dúvidas e angústias. Ele está – ou em algum momento esteve – tão perdido quanto você. E é por isso que a vida se encarregou de te apresentá-lo.

A gente também chora de alegria. Com o visto que foi aprovado, com o primeiro emprego naquela cafeteria quando a gente mal falava a língua; choramos com a conquista de um diploma no exterior, com o pedido de casamento inesperado. Choramos com a ligação pra contar que a vaga naquela empresa dos sonhos é sua ou quando a amiga compra o seu primeiro apartamento. Choramos quando o teste dá positivo e uma nova vida está a caminho. E a nossa família aqui fora vai aumentando.

Nessa montanha-russa que a gente vive quando decide morar fora, muitos vão pensar em desistir dezenas de vezes, até que os altos e baixos deixem de assustá-los. Não é que tudo se torna mais fácil, mas a gente sabe que tem uma mão ali ao lado pra nos amparar. E isso conforta.

São os amigos que ficam e, que sentam bem pertinho de você nessa jornada – aqueles que não pedem pra sair e não te abandonam quando a montanha-russa dá umas voltas de ré, ou quando você não está lá no topo, mas sim, parado lá embaixo -, que tornam a vida de imigrante menos solitária, muito menos assustadora e muito mais gostosa.

Obrigada, meus amores. Eu já teria descido há muito tempo se não fossem vocês.

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O que te transforma também te fortalece

Hoje eu acordei super cedo e passei um bom tempo pensando sobre pessoas, livros, lugares e acontecimentos que, de alguma forma, me transformaram. Era apenas um exercício bobo para tentar achar um tema para uma nova crônica. Quando me dei conta, eu já tinha reunido um bocado de lembranças deliciosas. 
Disse aqui há algum tempo que convivi pouco com a minha mãe – eu tinha cinco anos quando a perdi. Mas ela foi a primeira pessoa que me veio à cabeça quando procurava alguém que havia me transformado. À ela devo a minha alma livre, viajante e a minha curiosidade. Thanks mommy! 

Pollyanna, livro que eu li há uns 20 anos, me ensinou muito mais do que o Jogo do Contente. Devo à personagem o meu bom humor e o sorriso no rosto mesmo em situações complicadas. Eu choro – e muito! Mas se tem algo que eu sou ao extremo – além de tagarela – é positiva.

Foi na Ásia que eu aprendi que não queria ser turista e sim viajante. Aprendi que, mais do dicas e listas do que fazer em um local, eu queria compartilhar experiências e reflexões. Aprendi também que ao fugir do roteiro pronto, eu descobria os meus próprios paraísos. 

A parte mais difícil foi escolher apenas um acontecimento que tenha me transformado. Óbvio, posso contar vários. Mas eu não queria usar nenhuma tragédia e nenhum momento de extrema felicidade. Foi aí que lembrei de uma conversa que tive lá em 2011 com a minha então chefe-amiga-mega-talentosa Dani. 

Eu andava meio perdida, desmotivada e com o coração bem apertadinho. “Arittinha, você tem que explorar o mundo! Vai morar fora! Você é nova, talentosa e cheia de energia! Se manda!”. Aquela conversa corriqueira, ocorrida entre uma pauta e outra, foi o (re) começo de tudo. Foi o momento de transformação da Aritta que esperava as coisas acontecerem para a Aritta que FAZ as coisas acontecerem. O resto da história vocês já conhecem.

Sabe aquele ditado “O que não te mata, te fortalece”? O que te transforma também vai te fortalecer. E muito! 

E você? Já parou pra pensar em tudo que te transformou? 

Um dia eu sonhei com tudo isso


Num dia frio no inverno de 2013, eu disse ao meu amigo Mateus que iria para a Ásia. Assim, do nada. Nem falávamos sobre sonhos ou viagens. Falei porque aquilo não me saía da cabeça. 
Eu não sabia como chegaria lá, pois naquela época o dinheiro era contado. Ainda não fazia ideia de como realizaria o meu sonho de conhecer o Camboja. Mas eu sabia que um dia o realizaria. Anos antes, eu havia sonhado em morar fora. E lá estava eu completamente apaixonada pelo Canadá. 

Um ano e meio depois, em Março de 2015, escrevi um texto sobre a experiência de morar fora. E ele foi se espalhando pelo mundo… Foi lido por brasileiros na Europa, na Austrália, na América Central, na Ásia… em lugares que eu jamais imaginei alcançar. De alguma forma, eu já havia chegado lá. Eu havia ido muito mais longe. 

Foi aquele texto que me trouxe os primeiros “trocados” através do blog. E foi com aqueles trocados que eu consegui comprar a passagem pra Tailândia, Vietnã e Camboja. Foi o texto que me trouxe novos amigos, novas oportunidades e o meu velho amor, hoje marido. Foi naquele março, sentada num ônibus, que eu escrevi algo capaz de atingir milhares de pessoas. 

Mais importante do que se tornar viral, aquele texto me fez perceber que eu era capaz de conquistar o mundo – one step at a time. Eu só precisava acreditar na minha capacidade de ir mais longe. De chegar em qualquer lugar do mundo. 

Eu sou do time que não tem medo de quebrar a cara. E com a minha cara de pau eu já consegui muitas coisas nessa vida. De nada vale sonhar, reclamar, chorar, rezar, pedir muito algo se você não acreditar que pode e, se você não arriscar. 

Não planeje tanto, não pense no que poderia dar errado. Ficar parado sonhando já não é um erro gigantesco? Um dia eu sonhei com tudo isso. E não descansei enquanto “isso” não deixou de ser sonho. Go ahead. Take the next step. Just do it. 

Gente é bom demais

Centro Histórico de Guadalajara, Fev. 2017

Eu sou muito de observar, sabe? De vez em quando uso a desculpa de que isso é hábito de jornalista que quer estar a par de tudo. Na verdade, eu uso essa desculpa sempre. Balela, eu sou é curiosa ao extremo. E isso não muda nem que exista um rehab à altura daquele no qual a Britney Spears se internou em 2007, atuando na causa. 

Já que estou sendo 90% sincera, bora logo admitir que também não quero mudar. Não vejo graça em não ser curiosa. Meu instinto me diz que jamais vou mudar e que continuarei pagando pra ver – sem esperar pelo troco. Eu fico pobre, mas fico sabendo das coisas. That’s ok. 

Eu ando na rua observando as pessoas, numa pegada meio Esquadros, de Adriana Calcanhoto, mas sem temperar com toda aquela melancolia, porque ninguém merece, né? 

Eu gosto de gente. De ver gente. De falar com gente. De ouvir gente. De entender – nem que seja um pouco – gente. Das cores da gente. Da cultura. Dos hábitos. Eu gosto de saber o que faz certo tipo de gente seguir em frente e o que faria essa gente pausar. 

Centro Histórico de Guadalajara, Fev. 2017
No Brasil, eu gostava de ficar em silêncio para ouvir o som do mar. No Canadá, ainda hoje eu paro para observar os flocos de neve cobrindo as ruas de branco, as árvores que se vestem diferente a cada estação ou paro para tomar um café, pensar na vida e observar as pessoas ao meu redor 

 Na Tailândia eu parei e fiquei em completo silêncio quando ouvi pela primeira vez o som dos bichos nos arrozais. Uma paz sem tamanho. O canto dos grilos, dos sapos e aquela imensidão de verde, mais nada. 

Chiang Mai, Tailândia, julho de 2015


No Camboja, gastei dias observando a pobreza daquele povo e como as crianças eram felizes com pouquíssimo. Não havia silêncio de dia e sim, muito barulho. Parei para observar o comportamento dos monges e a paz que eles transmitem. 

Phnom Penh, Camboja, agosto 2015

No Vietnã, apertei o botão pause quando vi a beleza das tribos que vivem em Sapa, nas montanhas. A coisa mais linda do universo. 

Sapa, Vietnã, setembro 2015

Nos Estados Unidos eu parei para observar de tudo! A loucura que é New York, a beleza do canal que corta Chicago, os sonhos que se tornam realidade na Disney, a beleza das montanhas na Califórnia. Mas o cair da noite no deserto foi o que me tirou o fôlego. Que espetáculo, putaqueopariu mermão! 

Joshua Tree, Califórnia, fev. 2017

No México, eu paro a todo instante para sorrir para as pessoas, porque elas vivem sorrindo de volta. Dá vontade de abraçar todo mundo que encontro. 

E nas minhas andanças pelo mundo, quanto mais gente eu observo, mais apaixonada pela vida eu fico. 

Se tem uma coisa que vale muito a pena nessa vida é ver gente: diferente de mim, diferente de você, diferente de todo o mundo. Gente como a gente, mas bem diferente, entende?

Gente é bom demais. 

Nós dois, duas malas e quatro países 

Depois das férias de um mês e meio que se estenderam por 9 meses no Brasil, voltamos ao Canadá no final de janeiro. Uma passagem beeem rápida pelo inverno canadense! 

Ficamos em Toronto por apenas duas semanas – tempo suficiente para resolver algumas pendências, organizar as nossas coisas, rever os amigos e perceber que não estávamos muito afim de curtir o frio. No dia 8 de fevereiro partimos para Los Angeles, Califórnia, e lá ficamos por 10 dias. Eu já sabia que ia amar aquele canto do mundo, óbvio. Quem não gosta da Califa, gente? 

Os famosos coqueiros
LACMA – vale a pena a visita ao museu
Sou daquelas que não resiste a uma parede cheia de rabiscos. Essa aqui é no Café Gratitude, um vegano maravilhoso em LA
 

Não escolhemos Los Angeles à toa. O Marc quueria participar de uma conferência de investidores que aconteceria na cidade no dia 15 e, como ainda não conhecíamos a Califórnia, saímos de Toronto com apenas a passagem de ida. 

Santa Mônica Píer
Runyon Canyon, trilha queridinha dos famosos pelas montanhas de Hollywood. A vista é sensacional!
Pink Wall na loja Paul Smith, localizada na Melrose Ave.


The Last Bookstore, em downtown de Los Angeles. Se você é louco por livros, vai morrer de amores por esta livraria

Cactos e Joshua trees

Além de explorar Los Angeles, passamos dois dias no deserto. Dirigimos por mais ou menos duas horas até Joshua Tree – o cenário durante o percurso é de tirar o fôlego! Foi uma experiência completamente diferente de tudo que já havíamos feito. Você se sente num daqueles filmes de faroeste estrelados por John Wayne! 

Pagamos $25 para entrar no Parque Nacional de Joshua Tree e o ticket dá direito a retorno por sete dias
Aritta, a rainha do deserto
O parque é imenso e oferece muitas trilhas! Fizemos uma de 6km subindo uma montanha até chegarmos numa mina desativada
Ventava bastante nesse dia e na sombra fazia um friozinho. À noite faz muito frio no deserto.
Nos apaixonamos por Joshua Tree, que fica bem perto de Palm Springs, outra cidadezinha bem famosa perto de LA. A casa na qual ficamos foi um achado, pois desde que apareceu em um editorial de moda da Vogue (só ficamos sabendo disso depois) vive ocupada. Apesar de super simples, a cabine era a coisa mais charmosa do mundo! O único problema era ir ao banheiro de madrugada, já que ele ficava do lado de fora e eu sou do tipo que morre de medo do escuro. E já que mencionei a nossa casa…

Airbnb é vida

Como faz muito tempo que não atualizo os leitores sobre o meu paradeiro, acabei nem comentando sobre o nosso vício em Airbnb. Pra quem não conhece, é um aplicativo no qual você acha quartos ou casas/apts com preços muito mais em conta do que hotéis. Você lê os comentários de quem já se hospedou nos locais e consegue ter uma boa ideia sobre a qualidade, conforto e segurança do local. Acho muito mais legal do que ficar em hotéis pois me sinto “em casa”. Além disso, para quem não se importa em se hospedar na casa de alguém, a interação entre o hóspede e o dono da casa pode ser mais uma vantagem em relação aos hotéis. 

Já alugamos somente quartos e também casas só pra nós e nunca tivemos problemas! Farei um post só sobre as nossas experiências com Airbnb no Brasil, Canadá, Estados Unidos e México. 

A nossa cabine no meio do deserto
Já pode voltar? Dêem uma olhada na vista que a gente tinha ao acordar
Posando de blogueira, né?
Me apaixonei pelos detalhes na decoração da casa
Aproveitamos que estávamos no paraíso e na manhã do dia 14 –  meu aniversário – renovamos os votos de casamento e fizemos as fotos no Parque Nacional de Joshua Tree. 

Dia super especial!
Aqui, estávamos num dos pontos mais altos do parque, de onde se tem a melhor vista. Pensem num vento frio?


Recapitulando: ao chegar nos EUA ficamos 4 dias em Los Angeles, num airbnb bem pertinho de Hollywood. No quinto dia, partimos pra Joshua Tree, no deserto californiano, onde ficamos até o dia 14. Voltamos pra LA e ficamos num airbnb em Venice Beach. 

Venice Beach
Santa Mônica

Passamos mais 4 noites em Los Angeles e seguimos pra Las Vegas (que não estava nos planos, mas eu nem lembro por qual motivo acabamos indo parar lá hahaha). Ficamos 4 dias naquela loucura (a cidade é linda, mas eu tô muito velha pra toda aquele furdunço). Fizemos um tour de helicóptero para o Grand Canyon, que estava na minha lista de lugares que eu queria muito conhecer, e eu quase tive um ataque do coração quando o Marc me disse que iríamos pra lá! É ainda mais lindo do que eu imaginava. 


 

Tequila e Mariachis 

Na nossa última noite em Vegas, discutimos sobre o que faríamos nos próximos dias e para onde seguiríamos. Não chegamos num consenso – o Marc queria seguir para Utah – e eu queria conhecer San Diego e San Francisco – então, compramos passagens aéreas para Guadalajara, no México. Tudo a ver, né? 

Grand Canyon e México: dois sonhos realizados no mesmo dia! 

Centro Histórico de Guadalajara
Centro Histórico de Guadalajara
Há muitas esculturas e instalações de arte espalhadas nas praças do centro histórico
Enquanto escrevo esse texto, estou sentada no terraço da casa que alugamos aqui na segunda maior cidade do México. Vejam que fofa, apesar de bem simples… 

A dona dessa casa é Canadense e se mudou pra ca há 6 anos. Alugamos a casa inteira e ficamos aqui até meados de março
Escritório

Eu sempre quis conhecer o país! Sou apaixonada pela cultura, pelo colorido e pela comida mexicana… tem coisa mais gostosa do que tacos e guacamole gente? E o preço das coisas? Tudo muuuito barato: comida, transporte, aluguel…. Chocada! 
Mercado San Juan de Dios, o maior mercado de Guadalajara. Fiquei louca com o tanto de coisa que a gente encontra lá
Carne en su jugo no Mercado San Juan de Dios
Aliás, esqueça tudo que te ensinaram sobre comida mexicana. Fiquei chocada na primeira noite que saímos para jantar! 

Eu não conhecia quase nada do cardápio além de tacos e quesadilla, que por sinal são completamente diferentes da comida mexicana que a gente come no resto do mundo. Fiquei uns 20 minutos analisando o cardápio e passei o maior sufoco pra pedir a comida. No final das contas, deu tudo certo (fora as tortillas que a gente não esperava serem suuuuuper picantes). 

Ainda não temos uma data pra voltar pro Canadá. O Marc tem a sorte de poder trabalhar de qualquer canto do mundo e, enquanto não fincamos raízes em um só lugar, continuo fazendo alguns freelas e tentando focar no blog, que anda muito abandonado. Vamos ficar aqui mais umas semanas, pelo menos até o meio de março. Quando sentirmos que é hora de irmos para outro lugar, a gente discute as possibilidades por alguns minutos e, se não chegarmos a um consenso, giramos o globo e seguimos pra onde o dedo apontar.

Sorry pelo post gigantesco!
¡Hasta luego! 

Que nunca nos falte vontade


Casei!

Cheguei do fórum, tirei o salto, coloquei a certidão de casamento na cabeceira da cama, dei um beijo no marido (ain, que estranho falar marido) que se mandou pro futebol e fiquei imóvel na cama. Olhava pro teto e me perguntava: e agora? O que a gente faz? O que vai mudar?

O casamento não foi planejado. Não, eu não estou grávida e não casamos pra que eu tenha a cidadania canadense, nada disso. Vamos combinar que quem conhecer o meu marido e a sua paixão pelo Brasil vai achar que ele sim, tava querendo ganhar a cidadania brasileira. O cara é tão louco pelo Brasil que quer mudar o nome pra João. Isso é conversa pra outro post…

A gente se ama muito, mas casar não era algo que planejávamos para este ano. Nem mesmo pro ano que vem. Fazíamos mil planos envolvendo viagens e outros programas a dois, mas nunca tocávamos no assunto casamento. Já havíamos combinado de morar junto assim que retornássemos do Brasil. Por conta disso, antes de vir, empacotei todos os meus pertences e deixei no porão da casa que alugava com amigos. Ele fez o mesmo.


Viemos apenas de férias do Canadá para o Brasil (eu no final de abril e ele no início de junho). Eu havia acabado de me formar e já não via a família há mais de dois anos. O plano era passar uns 40 dias por aqui e depois voltar. Mas, no dia do embarque, cancelamos os voos. Ah, os planos…

Descobri que o meu avô, que me criou desde que eu era uma pirralha, estava com um câncer super agressivo na bexiga. À medida que a minha viagem se aproximava, ele piorava. E foi vendo a minha tristeza e o meu desespero em querer ficar no Brasil para cuidar do meu avô, que o Marc me pediu em casamento e me prometeu estar ao meu lado enquanto eu cuidasse do meu velhinho. E ele esteve em todos os momentos.

Foram meses difíceis. O Marc me acompanhava até quando eu dormia no hospital com o meu avô. Imagino que a maioria dos casais tenha dias de pura paixão logo após o pedido de casamento. Eu nem lembrava que ia casar. Também fiquei um pouco mais fria com o Marc, pois estava sensível demais. E ele me compreendia.

Foi o Marc que levantou o meu avô nas duas (ou três?) vezes que ele caiu de madrugada, enquanto tentava ir ao banheiro sozinho. Ele nunca reclamou de nada. Nem mesmo cogitou me deixar aqui sozinha.

O casório seria em dezembro. Com a piora do meu avô, o padre aceitou vir celebrar o religioso aqui em casa, no dia 8 de outubro. Contei no post anterior que ele faleceu no dia 26 de setembro. Cancelamos o religioso, pois seria muito doloroso realizar a cerimônia logo após a sua morte.

Eu tive uma crise na noite anterior ao casamento civil. Discutimos por algum motivo bobo e eu entrei na neura de achar que talvez eu houvesse me precipitado em casar assim logo depois do pedido, sem programar nada, sem pensar muito, sem fazer planos. Como se esses mais de quatro anos de idas e vindas não fossem suficientes para que eu tivesse certeza do quanto nos amamos. Como se esses quatro meses dele aqui, ao meu lado, não bastassem para me mostrar que eu tenho um parceirão ao meu lado.


Planos.

A palavra ecoava na minha cabeça enquanto eu olhava pra aliança, escolhida às pressas na primeira loja que achamos. A gente se apega tanto à ideia de que devemos fazer planos, nos programar, fazer listas, cumprir a ordem “natural” de algumas coisas. Eu não sei vocês, mas a vida me deu umas rasteiras brabas, só pra me mostrar que quem manda é ela. Aprendi a lição e deixo ela quietinha seguir o seu curso.

Dias atrás perguntei ao Marc se ele tinha certeza que queria casar comigo. Com sua sinceridade fora do normal ele me disse: – Certeza eu não tenho, pois a única certeza da vida é a morte. Eu tenho muita VONTADE e acho que isso, aliado ao amor que eu tenho por você, já é suficiente.

Ele fez questão de enfatizar a palavra vontade.

Bingo. Esse cara tinha mesmo que ser meu marido.


Sem planos, sem listas, sem saber o que faremos amanhã e sem ter certeza se a hora era certa, mas com muita vontade de seguirmos juntos por aí, a gente se casou. Foi simples, meio improvisado e lindo.

O que eu espero daqui pra frente? Que nunca nos falte VONTADE.
 

 

Não, dessa vez não foi a bunda virada pra lua


Dizem por ai que quem grita aos quatro ventos que é muito bom naquilo que faz é convencido. Ou que adora se exibir. E a gente se acostuma a esconder muito do nosso orgulho, não o orgulho desdém, mas aquele que nos faz dar dois pulinhos em frente ao espelho do quarto, enquanto estamos sozinhos, depois de termos passado em um exame, sermos promovido ou após qualquer outra conquista, só pra que não nos chamem de “nada modestos”.
A gente canta vitória só com os amigos mais chegados, ou nem mesmo com eles, pois tem sempre um que fala sobre a tal da energia negativa e da inveja. “Ih, pare de falar sobre o seu sucesso, tem gente que vai se morder de inveja”, nos dizem.

E com isso a gente se esquece até de dar os pulinhos em frente ao espelho, porque o tal do costume em internalizar a felicidade torna a comemoração do nosso sucesso cafona, arriscada e desnecessária.

Esquecemos também das qualidades que a gente tem, porque quase nunca falamos sobre elas. Já percebeu o quanto é difícil fazer o seu próprio currículo? E porque a gente precisa praticar tanto para uma entrevista de emprego, se tudo que a gente precisa fazer é falar sobre as nossas qualidades e competências?

Demorou uma eternidade, mas certo dia me dei conta de que passei muito tempo sem reconhecer o quanto havia conquistado. E que eu nunca pulava em frente ao espelho e quando vibrava o fazia sem muita empolgação, pois sempre achava um motivo para atribuir as minhas conquistas a outros fatores e não à minha capacidade. É a chamada Síndrome do Impostor, descoberta lá pelos anos 80 e que atinge 70% da população, principalmente as mulheres.

E sabe porque a síndrome leva esse nome? Pois com as conquistas, muitas vezes vem o sentimento de “fraude” e de que a qualquer momento alguém vai descobrir que não somos tudo aquilo que os outros pensam.

A gente se convence de que os elogios e o reconhecimento dos outros pelo nosso sucesso nem sempre são merecidos, e atribuímos as nossas conquistas à sorte, a um empurrãozinho dado por alguém ou, sei lá, ao horóscopo do dia.

Demora um bom tempo para que a gente deixe de lado a vergonha de se exibir, de assumir que se tem talento e a não ter medo de dizer que não, não foi porque você é aquariano nascido no terceiro decanto ou porque Saturno está em Sagitário que você se formou com louvor, conseguiu o emprego dos seus sonhos ou foi promovido. Você conquistou tudo isso porque merecia. Porque fez a sua parte.

Mas e a sorte, mulher? Não tem gente que nasce com a bunda virada pra lua? Ih, ô se tem. A sorte ajuda sim. E muitas vezes. Mas eu disse A-J-U-D-A. Pois a sorte não te dá o emprego dos sonhos, não te transforma num aluno exemplar e não tem influência alguma no quanto os outros vão admirar o seu trabalho. O nome disso é talento, força de vontade e persistência. O nome disso é VOCÊ. E ninguém vai tirar o seu mérito.

Agora vai ali na frente do espelho e dê dois pulinhos pra comemorar uma conquista recente. Não, relaxa que você não vai parecer que é bobo. Bobagem mesmo é não reconhecer que você é capaz de conquistar o mundo. Ou que já conquistou e ainda nem percebeu.

 
*Aritta Valiense era jornalista e achava que não tinha talento algum até criar asas e coragem para desbravar o mundo. Foi viver no Canadá, onde descobriu que não só tem talento, mas também capacidade para fazer um monte de coisas legais. Acaba de se formar com louvor em Marketing e nas horas vagas gosta de dar pulos de felicidade para comemorar todas as suas conquistas.