O vendedor de livros em Hanoi

Passava por ele todas as vezes que saía do hotel, em Hanoi, no Vietnã, e ouvia sempre a mesma pergunta: “Quer comprar livros? Tenho muitos livros!”. 

Eu, que trouxe dois e comprei outros três em livrarias na Tailândia e no Camboja, olhava os livros de relance e atravessava a rua. 

Hoje, nas minhas últimas horas em Hanoi, resolvi parar para conversar com ele. Puxei um banquinho e sentei ao lado de um dos caixotes em que ele carregava os títulos, todos usados, mas bem conservados.

O seu ponto de venda fica na loja do amigo, um espaço bem pequeno. Disse a ele que era brasileira, ele todo entusiasmado mexeu na pilha de livros e de lá tirou “O Alquimista” de Paulo Coelho. 

  
Me contou que já havia lido quase todos os livros que carregava para revender. Faz amizade com os funcionários de muitos hotéis na cidade e toda semana passa recolhendo o que é deixado por nós, visitantes. 

Seu nome é Huynh. “Significa irmão mais velho, pois eu sou o primeiro dos cinco filhos”, explicou. 

Começou a ler bem pequeno, mas foi aos 15, quando conseguiu emprego em um dos hotéis em Hanoi, que descobriu o grande tesouro deixado pelos turistas: livros descartados após serem lidos. 

Perguntei sobre a sua família e ele contou que as filhas, de 7 e 11 anos, estão aprendendo inglês. Ele tem incentivado as garotas a gostarem de ler tanto quanto ele gosta. Tarefa difícil, segundo ele. “A mãe só gosta de televisão. Eu não vejo televisão, prefiro os livros. Na televisão só tem coisa ruim”, reclamou. 

Eu disse a Huynh que havia deixado dois livros no Camboja e que, infelizmente, não poderia contribuir com a sua biblioteca/loja, pois havia colocado outros dois na mala e um eu carregava comigo, já que ainda não havia terminado de ler. Ele perguntou o que eu lia no momento e eu tirei da bolsa “O último dançarino de Mao”, sugestão de alguém no Facebook e que consegui achar numa livraria bem pequena em Chiang Mai, na Tailândia. 

  

“Madame, esse livro é muito bom”, ele exclamou, antes de se empolgar e começar a me contar sobre outros livros que também havia gostado. 

Eu não tinha muito tempo, pois o motorista que me levaria para o aeroporto chegaria em 30 minutos. 

Contei que gostava muito de escrever e que “talvez, um dia, quem sabe” eu iria escrever um livro. 

Antes de me despedir, dei a ele o equivalente a $3 e disse que era para ele doar um dos livros para alguém, já que eu não poderia carregar mais nada comigo.

“Boa viagem, madame! Volte quando escrever o seu livro. Eu também quero lê-lo”, ele gritou, segurando uma vassoura, enquanto eu me afastava. 

  
Voltarei, Huynh. Prometo que voltarei. 

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Sobre abraços apertados, sorrisos largos e a alegria do povo no Camboja

A minha jornada na Ásia ainda não chegou ao fim. Mas esta é a última semana que passo aqui em Phnom Penh, trabalhando com as crianças. Daqui, sigo para o Vietnã, último país a ser visitado por mim em uma viagem que mudou completamente a minha forma de enxergar o mundo e as pessoas que dividem o seu espaço nele comigo. 

 

Pôr do sol em Kampot, Camboja
 
 
Monges em Kampot, Camboja
 
Na Tailândia eu me encantei com a hospitalidade do seu povo. Com a generosidade de gente disposta a te dar a mão, mesmo sem entender o que você precisa. Me encantei com a beleza irretocável dos lugares pelos quais passei.

No Camboja, me encanto todos os dias com o sorriso de um povo que sofreu (e ainda sofre) tanto, mas que não se deixa abater pelos acontecimentos do passado e pela pobreza que ainda toma conta do país. Gente que carrega um sorriso largo enquanto trabalha horas a fio para ganhar em um mês o que muitos de nós gastamos em uma refeição. 

Trabalhador em um arrozal , Kampot, Cambodia
 
Pescadores em Kampot, Camboja
 

Salinas (produção de sal marinho) em Kampot, Camboja

 Aqui, todas as crianças te cumprimentam com um “Hello!” bem alto e cheio de vida, seguido pelo sorriso gostoso de quem ainda não perdeu a inocência. Nas áreas rurais, perdi as contas de quantos pequeninos acenaram para mim cada vez que passava por elas em um tuk tuk ou montada em uma motocicleta, enquanto elas me seguiam em suas bicicletas ou caminhavam descalças pelas estradas de terra num sol de 40 graus.  

Kampot, Camboja
 
 
Kampot, Camboja
 
Caminhar pelas ruas de Phnom Penh pela primeira vez foi como receber um soco no estômago. Eu já visitei lugares pobres no Brasil, sou nordestina e sei bem da triste realidade do nosso sertão. Sou bem informada quanto aos problemas que o nosso mundo enfrenta. Ainda assim, me surpreendo com a realidade aqui em Phnom Pehn e em cidades vizinhas, as quais visitei no último final de semana. 

 

Phnom Penh, Camboja
 
Não há coleta de lixo na maior parte dos lugares, as casas e ruas são repletas de entulhos por todos os cantos. Crianças brincam em valas abertas, descalças, peladas. Não há bairros de luxo. Há algumas casas de luxo rodeadas por barracos. Há carros de luxo dividindo o tráfego com milhares de motocicletas caindo aos pedaços, carregando 3, 4 pessoas. E as crianças sorriem, os adultos sorriem. 

Kampot, Camboja
  
Kep, Camboja
 

Não encontrei ao menos uma pessoa que se lamentou pela vida que leva. O povo Khmer tem orgulho do seu país, mesmo com todos os problemas que eles enfrentam. São pessoas incapazes de reclamar da pobreza que os assola, e, ao invés de lamentos, compartilham alegria. 

Na instituição de acolhimento onde realizo o trabalho voluntário falta tudo. Mas sobra amor. Sobram sorrisos com dentes falhos, abraços apertados apesar dos finos braços e apertos de mão capazes de reenergizar a nossa alma. 

Sobram crianças cheias de energia e vida, como Sopheap, esse menino lindo que na foto abaixo toca a minha orelha. Ele é cego dos dois olhos e essa é a sua forma de reconhecer quem o abraça. O irmão gêmeo de Sopheap,  Sambo, é cego de um dos olhos. Os dois foram abandonados ainda bebês. 

Sopheap toca a minha orelha e em seguida me abraça bem forte
 
 
Com Rayot, o mascote da turma que tenho cuidado
 

Eu tenho mais do que preciso. E muitas vezes reclamo. Mas muito em mim tem mudado a cada dia que vejo aquelas crianças. Já não me importo em fazer xixi de cócoras, em limpar baba e cocô incontáveis vezes e nem com o cheiro de xixi impregnado nos colchonetes em que deito para brincar com as crianças. Talvez seja mesmo verdade que a gente se acostume a tudo… 

Ainda me choco ao descobrir a história de cada uma das crianças. E reconheço que ocupo um lugar de sorte no mundo. Eu tive tantas oportunidades na vida, tanto amor me foi dado e eu mais do que nunca sou grata pela vida que me foi proporcionada. 

Em menos de uma semana me despeço do Camboja e dessas crianças lindas. Levarei comigo a imagem de um povo alegre e as lembranças de um período de intenso aprendizado, onde reafirmei a minha teoria de que uma mão solidária pode não mudar o mundo, mas se ela mudar o mundo de alguém, já é um lindo começo. 

Apesar de não ser tão religiosa quanto a minha família, tenho as minhas crenças. A minha fé na humanidade e no poder do amor é grande. E como um dia disse Madre Teresa de Calcutá, “a falta de amor é a maior de todas as pobrezas”.

Tailândia: o paraíso é aqui 

Viajei pela Tailândia por quase três semanas. Passei por Bangkok, Ayutthaya, Chiang Mai, Pai e Koh Samui. Na capital, Bangkok, onde a disparidade entre os ricos e pobres é maior, descobri que os mais pobres (e com menos dentes) sorriam mais. E que um pedido de desculpas pode ser feito com uma caixa de nuggets, por um garçom que não quer desapontar um novo cliente. 

  

Bangkok
 
Wat Pho Temple em Bangkok
 
 
Temple of The Emerald Buddha , Bangkok
 
  
Chatuchak Market, um dos maiores em Bangkok. Funciona nos finais de semana

 
Chatuchack Market , Bangkok
 
 
Tuk tuk, um dos meios de transporte mais usados no sudeste asiático
 
 
Drinks e comida boa no bar Tuba, Bangkok
 
Aprendi que atravessar a rua me dava mais frio na barriga do que me perder em um local aonde poucos me entendiam. E aprendi, também, que se quem tem boca não for a Roma, vai ao menos se virar na Ásia. 

Aprendi que dizer não para alguém que te dá até 70% de desconto só para não perder a compra é uma missão quase impossível. Aqui, não vi pedintes nas ruas. Mas todo mundo tem algo a vender, mesmo que você seja o responsável por definir o valor do produto.  

O comércio se divide entre lojas de artesanatos, casas de massagens, conveniências da rede 7/11, bares e só. Multiplique as casas de massagens por 100 a cada quarteirão. 
 

Massagens a $8 /hora
 

Em Ayutthaya, a uma hora e meia de trem de Bangkok, encontrei um motorista de Tuk Tuk (carrinhos bem pequenos usados como taxi em muitos países da Ásia) que quase não falava inglês, mas perguntou a minha nacionalidade e me entregou um caderninho onde clientes de diversas nacionalidades haviam pontuado o seu serviço. Os asiáticos também são bons em marketing. 

 

Trem Bangkok – Ayutthaya
 
 
Wat Yai Chaimongkon, templo em Ayutthaya
 
 
Templo em Ayutthaya

 
Wat Phra Mahathat , Ayutthaya
 

Fiquei apenas algumas horas em Ayutthaya. Um dia/tarde foi suficiente para conhecer todos os templos. No outro dia, peguei um trem em Bangkok e enfrentei doze horas de estrada até Chiang Mai, uma cidade onde o turismo é visto de forma mais concentrada do que na capital, por ser menor e com o comércio liderado por imigrantes europeus, australianos e americanos. 

 

Trem de Bangkok para Chiang Mai, 12 horas $35
 
 
Templo em Chiang Mai
 
  
Art in Paradise, Museu 3D em Chiang Mai

  
Em Chiang Mai eu vivi uma das melhores experiências da minha vida, quando ao invés de escolher o tour preferido pela maioria dos turistas, convenci os guias a me apresentarem a verdadeira cultura local por um tempo maior do que o de um dia sugerido no programa deles. E me joguei em uma aventura de três dias de trilhas no meio da floresta, dormindo em barracos de madeira usadas pelos trabalhadores dos arrozais, visitando fazendas que produzem grande parte dos produtos consumidos pelos moradores e fui até acolhida por um casal de lavradores que não tinha muito, mas que me preparou um dos melhores jantares que eu já tive: sopa de bambu, frango ao curry e arroz. 

 

Jantar com o s moradores que me receberam por uma noite no pequeno vilarejo
 
Tenho muitas fotos dos três dias na floresta e resolvi que contarei tudo em um post separado. Dessa forma esse aqui não fica tão longo e pesado com fotos. 

Amphoe Chom Tong, uma das muitas cachoeiras que tive a chance de ver durante as trilhas

Por sinal, eu que não era fã de curry aprendi que na hora da fome, a gente deve exigir do nosso estômago um pouco menos de frescura. 

Sopa com legumes durante o almoço à beira da cachoeira

As trilhas não foram fáceis. No primeiro dia, ao atingirmos o topo de uma das montanhas, um dos guias desmaiou. Talvez por não ter se alimentado direito. No segundo – e mais intenso dia – foram 20km de subidas e descidas em mata fechada. Se você acha que subir uma montanha é difícil é porque nunca teve que descê-la quando a terra estava molhada. 

Pensei em desistir assim que levei o primeiro tombo e resolvi me proteger apoiando as mãos em um tronco cheio de formigas vermelhas. As coceiras – de picadas de mosquito, formiga, calor – incomodam mais do que o cansaço. Mas as paisagens e o cheiro da natureza fazem tudo isso e muitos outros empecilhos desaparecerem. É incrível a capacidade que o nosso corpo tem de se adaptar a ambientes diferentes…
No terceiro dia de trilha eu já nem fixava o meu olhar no chão, como fazia nas primeiras horas, morrendo de medo de encontrar uma cobra. 

  
Mesmo com todo o desconforto de ter que fazer xixi e cocô no meio do mato, comer comidas estranhas, acordar no meio da noite com uma aranha tentando subir na minha perna, cair, me arranhar, ter dores na ponta dos dedos do pé de tanto descer ladeiras íngremes, ter dores no quadril após caminhar por 8 horas (com paradas para banheiro e comida), nunca irei esquecer a sensação de ver o pôr do sol sentada em um barraco no meio de um arrozal, ouvindo apenas o canto dos pássaros e o barulho dos girinos. 

Apreciando a natureza em uma barraca usada pelos trabalhadores dos arrozais

Três horas após começarmos a trilha eu disse a Tom, o guia tailandês de 23 anos, que estava com fome, e ele me entregou um pacote de noodles, ou miojo como chamamos no Brasil. Sem entender como eu comeria aquele pacote de miojo sem ter uma panela e muito menos um fogão, Tom logo me mostrou que eles comem o mesmo cru, como tira-gosto. E eu comi com a mesma felicidade com a qual comeria uma coxinha. 

Em Chiang Mai também realizei um dos meus sonhos: ter contato direto com elefantes. Gastei horas pesquisando sobre locais confiáveis, onde os elefantes são bem tratados e não apenas usados como forma de arrecadação de dinheiro. Não queria vê-los sendo mal tratados. E a experiência foi literalmente emocionante.

 

Dando banho nos elefantes

Também contarei tudo em um post separado. Porque os elefantes merecem um espaço só pra eles! E porque a minha wifi está péssima! 

Apesar de terem as suas peculiaridades, as cidades turísticas na Tailândia seguem o mesmo padrão. Algumas, como Pai, recebem um maior número de australianos e europeus. 

O meu último destino no país foi a ilha de Koh Samui. Peguei um voo em Chiang Mai e segui para o paraíso em busca de sol e banhos de mar. Foram quatro dias em um lugar que, se não for o paraíso, fica bem pertinho dele. 

 

Crystal Beach, Koh Samui
 
  
Paraíso!!
 

Anthong National Marine Park

  
 

A Tailândia é o tipo de destino que te surpreende a cada dia. E se você tiver tempo e disposição, consegue, em uma só viagem, desfrutar de diversos tipos de turismo. Sol e praia, Aventura, Metrópole… 

Os Tailandeses me conquistaram. Eles são especiais. É um povo que está sempre de alto astral e bem receptivo. Te cumprimentam mesmo sem te conhecer e são, na maioria das vezes, solicitos e muito humildes. Claro que é preciso estar atento com aqueles que tentam se aproveitar da distração do turista. É preciso manter os olhos bem abertos e não vacilar com os pertences. E para que o turista esteja sempre atento, há avisos do tipo em vários pontos turísticos. 

Hoje sigo para o Camboja, onde iniciarei as duas semanas de trabalho voluntário. Eu tenho milhares de fotos para postar, histórias para contar… Mas a internet é bem lenta e fico à mercê do pouco tempo que passo nos hotéis para poder postar aqui no blog. 

Irei dividir o meu roteiro nesses quase vinte dias no país de forma mais organizada e postarei assim que tiver a chance.

🙂 

O dia em que uma caixa de nuggets me fez chorar 

 
Chove muito em Bangkok na noite de hoje. Cheguei no hostel faminta, após passar um dia inteiro visitando templos em uma cidade vizinha. Sem muitas opções de comida na vizinhança, peguei um guarda-chuva na recepção e encarei a tempestade na busca por algo sem curry e sem a aparência estranha. Se você nunca me viu com fome não sabe que nem mesmo a maior tempestade do mundo me impediria de achar comida… 

Após caminhar por um quilômetro

Avistei uma pizzaria com o slogan bem grande em letras vermelhas “Seu pedido em 30 minutos!!! Garantimos!”. Não dava nem para ver o nome do local direito, já que a chamada para a promoção cobria toda a placa. O menu oferecia uma variedade de pizzas e outros pratos carregados de carboidratos. Optei por um espaguete com camarão, e, no recibo, com o valor de 130 Bahts (um pouco mais de 5 dólares) também havia bem grande “Seu pedido estará pronto em até 30 minutos! Garantimos!”. 

Sem paciência e com fome

Sentei em frente a uma garota que também parecia conferir o horário na tela do celular a cada 2 minutos. Se eu não conhecesse bem direitinho a cara de quem tá faminto, diria que ela aguardava ansiosamente a mensagem de algum paquera. Mas não, ali era fome. E eu estava no mesmo barco. Éramos duas. Não havia outros clientes. 

Faltavam dois minutos para o prazo dos 30 minutos se encerrar e o mesmo rapaz veio correndo na minha mesa explicar que traria o meu pedido em 3 minutos. Eu, impaciente e acostumada com clientes que reclamam de propaganda enganosa, fiz uma cara feia e disse que gostaria de cancelar o pedido. “No, no, no”, implorou o rapaz enquanto voltava caminhando de costas para a cozinha. Seis minutos mais tarde, ele volta com a sacola e o meu pedido: -Me desculpa, senhora, me desculpa. 

Eu balancei a cabeça sem dar muita atenção ao seu pedido de desculpas, peguei o guarda-chuva e deixei o local. 

Atravessar as ruas em Bangkok é um verdadeiro desafio. À noite e com chuva, é quase missão impossível. Lá estava eu aguardando pelo momento exato em que os carros e motos me dariam uma brecha, a uns 200 metros da pizzaria, quando vejo uma figura franzina, correndo em minha direção e acenando sem parar. Era o vendedor que me atendeu, que também preparou o meu pedido e deixou o meu estômago furioso com os quatro minutos extras que ele precisou esperar. Ele me estendeu uma sacola com uma caixinha dentro e enquanto eu agradecia sem entender o que estava acontecendo, ele tentava a qualquer custo parar o transito para que eu atravessasse. Quando, enfim, ele conseguiu, eu atravessei, agradeci pela ajuda e percebi que ele continuava balbuciando “Desculpa, desculpa” sem parar…

De volta ao hostel abro a caixinha e vejo seis singelos nuggets. E me vi chorando. Não pelo gesto do rapaz. E sim, porque a sua preocupação em ter o meu pedido de desculpas aceito me fez refletir sobre a minha intolerância desnecessária. Foram apenas quatro minutos para alguém que está de férias, sem motivo algum para se estressar. 

Foram quatro minutos extras, em que aquele rapaz, percebendo o meu descontentamento, encarou a tempestade sem nenhuma proteção para me levar uma caixa de nuggets e me ajudar a atravessar a rua. 

Em Bangkok. Na Tailândia. Onde pagamos $5 por uma refeição que serve dois e que, de brinde, vem acompanhada por uma lição sobre altruísmo dentro de uma caixa de nuggets. 

Chegou o grande dia! 

  
Era sempre a mesma história: uma dor de estômago insuportável que batia quando eu me via em uma situação que me deixava muito ansiosa. Uma prova, competição de qualquer tipo, uma viagem… 

Buscopan foi meu melhor amigo durante anos. Quando as pílulas não colaboravam, lá ia o meu paizinho me carregar para a emergência mais próxima e eu acabava com uma boa dose do remédio direto na veia. 

Aos poucos as dores frequentes foram substituídas pelas borboletas no estômago e eu já tinha um pouco mais de controle sobre as minhas emoções (ou não). 

No trajeto para o aeroporto a minha ansiedade insistia em cutucar o meu estômago e eu, que não sei meditar, controlar a respiração ou fazer uso de qualquer outra técnica de relaxamento, dessas que a gente aprende até em vídeos do Youtube, escrevo porque não tenho buscopan e, muito menos, o meu pai, para me ajudar a controlar a minha ansiedade.

O voo seria semana que vem, mas como eu sou do tipo que faz-o-que-der-na-telha só para mimar a mimha ansiedade, troquei para hoje! 

E lá vamos nós (eu, dois livros, algumas peças de roupa, muitos brinquedos e livros para as crianças e quilos de frio na barriga) desbravar a Ásia. 

  
Que essa cutucada no estômago, ainda que desconfortável, jamais me abandone. Pois é o desafio do “novo” o meu maior combustível. 

Voltarei em breve com muitas fotos e posts sobre a minha jornada! 

🙂 

Compartilhando experiências

Hoje a tarde participei de um bate-papo com estudantes internacionais da ILSC, escola a qual frequentei nos meus primeiros seis meses aqui em Toronto. 

Eu nunca havia “apresentado” a minha vida dessa forma, conversando com um grupo de pessoas. Confesso que estava um pouco nervosa no início, mas o bate-papo foi tão gostoso que eu me senti super a vontade em compartilhar a minha história com outros estudantes internacionais. 

Bate-papo com estudantes da ILSC

Os estudantes fazem parte de um programa preparatório para quem quer entrar em Colleges e Universidades aqui em Toronto. Então, o propósito da minha visita foi contar como eu me preparei para o College, como tem sido a minha rotina e outros assuntos como o blog, o trabalho e a minha rotina em geral aqui no Canadá. 

One year from now I want to…

Eu cheguei na sala de aula carregando um vaso de vidro, que ficou em cima da mesa durante os 45 minutos em que contei a minha história para os alunos. 

  
Nos quinze minutos finais, expliquei que um pouco antes de decidir fazer um College em Toronto eu estava perdida. A minha irmã veio me visitar e deixou uma cartinha que carrego até hoje na minha carteira. 

Eu nunca fui de fazer listas, mas a carta da minha irmã me fez pensar no que eu gostaria de alcançar nos próximos anos. 

Entreguei a cada um dos alunos um pedaço de papel e pedi que escrevessem o título “Daqui a um ano eu quero ter…” e em seguida os seus planos, metas e sonhos. Expliquei que poderiam escrever qualquer sonho… Mudar de país novamente, encontrar um novo amor, achar um bom trabalho, perder peso, abraçar alguém que não vê há muito tempo, esquecer alguém que o machucou, etc. Pedi para que colocassem o e-mail no final e me comprometi a escrever a cada um deles daqui a um ano para perguntar se aquele sonho conseguiu ser realizado. 

Voltei no metrô lendo cada um dos bilhetes… E me surpreendi com a sinceridade de alguns. Entre os planos mais previsíveis como “achar um bom trabalho”, “conhecer outros países” e “virar fluente em inglês” também se encontravam “abraçar a minha irmã que está com câncer”, “perder o meu medo de fazer amigos” e “terminar um namoro que me faz sofrer”. 

Alguns escreveram frente e verso, perderam a vergonha de desabafar e confiaram a mim os seus medos e sonhos.

Me desculpei pela improvisação e falta de experiência em apresentações do tipo. Ouvi de um dos alunos um “Muito obrigada por vir aqui. É muito bom ouvir a história de alguém que começou da mesma forma que nós”. 

O bate-papo terminou depois de uma hora. E eu sai de lá com uma jarra cheia de sonhos e o coração cheio de felicidade. 
Muito obrigada, ILSC! 

Sobre perdoar e a leveza que isso te dá

Foto: Aritta Valiense
 
Eu tenho muitos defeitos. Mas eu me orgulho muito da minha capacidade de não guardar rancor. E acho que saber perdoar é uma das minhas maiores qualidades. E não sou nada modesta com relação a isso. Afinal, quem ditou essa maldita regra de que não devemos exaltar as nossas qualidades? Já tem gente demais apontando os nossos defeitos,  melhor que você mesmo assuma e grite aos quatro cantos que conhece bem as suas qualidades ao ponto de não precisar que ninguém as reconheça…

Naquela tarde, daquele ano que eu não lembro, eu apanhei pela primeira vez na minha vida. Apanhei de verdade, com direito a olho roxo, arranhões e tudo que a gente vê em noites de UFC. Em casa eu nunca havia apanhado. Nem mesmo um tapa, que eu me recorde. Nesse dia eu apanhei até ser socorrida por pedrestes, quando as duas garotas que me batiam já estavam cansadas de me socar. A coisa foi feia. 

A história foi a seguinte: eu sempre fui “pra frente” como dizem os meus familiares. Adorava participar de apresentações, metia o meu nariz em tudo que me dizia respeito e o que não dizia também. Eu era “vanguarda”, como diz Kênya, amiga minha de infância. Achava que vivia no futuro. E acabava me metendo em briguinhas entre grupos de escolas diferentes, disputa pelo garoto mais popular do colégio e tudo que a fase nos proporciona. Ah! Eu era precoce ao extremo. 

Certa vez a coordenadora da escola me chamou para dizer que alguns garotos estavam me chamando de Pipoca. “Faz um barulho danado, ganha a atenção de todos eles e não mata a fome de ninguém”. Foi a única vez que me chamaram de pipoca. Que bom, porque nem de pipoca eu gosto. 

Uma tarde, voltando da escola, avistei duas conhecidas e uma delas acenou para que eu me aproximasse. O short azul marinho do uniforme eu só usava com a barra dobrada porque achava muito comprido. Caderno em mãos, cheio de recortes de revista na capa, mochila da Benetton. Nariz empinado.  Eu devia ser mesmo meio metidinha. 

Assim que cheguei mais perto, uma delas me perguntou: “Foi você que falou para fulaninho, que contou para fulaninho, que eu era isso bla bla bla”. Eu não tinha falado. E se tivesse, eu assumiria e terminaria esse meu texto com uma lição de moral sobre não falar mal dos outros. Mas eu não havia falado…

E nem tive tempo de me explicar. Enquanto uma delas – que era menor do que eu e tinha a força de Anderson Silva – me segurava, a outra me dava socos no estômago. O meu caderno já estava jogado no meio da rua, assim como a mochila. As duas se revezavam entre murros no meu rosto, barriga e chutes na canela. Não lembro como cheguei em casa, mas lembro bem o olhar assustado da minha vó, o meu pai desesperado, com raiva, com pena, todos os sentimentos ao mesmo tempo. Fomos para a delegacia.

As garotas também foram. E as mães das garotas, amigas das garotas, amigas das mães das garotas, todo mundo foi parar lá. Coisa de cidade pequena…

Nada ficou resolvido e nem lembro a punição dada à elas. Não tenho certeza, mas acho que uma delas foi suspensa da escola em que estudava, já que tudo ocorreu bem em frente ao local. Posso estar errada. 

Tive a chance de conversar com uma das meninas muito tempo depois. Ela me pediu desculpas. A outra nunca me procurou. Mas eu as perdoei de verdade tão logo quanto os roxos desapareceram. 

Também quando eu era adolescente um namorado me traiu com uma garota e acabaram tendo um rolo que durou um bom tempo. Quase dez anos se passaram e há alguns meses ela me enviou uma mensagem com um pedido de desculpas. Eu nem lembrava mais de toda a confusão. Mas a humildade dela em me enviar uma mensagem mesmo tanto tempo depois do ocorrido foi um gesto lindo. 

A minha melhor amiga me diz que tenho coração mole. Eu prefiro acreditar que perdoando eu faço as pazes não só com quem me magoa, mas também comigo mesma. Sou intensa demais, falo demais, choro demais, desabafo com qualquer um e não tenho como carregar tanta coisa num coração que já é ocupado demais pela saudade. 

Já levei muitos socos no coração. E esses foram dados por quem eu amava. E doeram mais do que qualquer surra muito bem dada. Perdoei erros graves, levei mais socos, perdoei novamente. Já fui chamada de palhaça, de boba, inocente. Nunca me chamaram de egoísta, ainda bem. E quer saber? Eu durmo tranquila… Não vivo prisioneira dos meus erros e dos erros dos outros porque sei pedir desculpas e sei também perdoar. 

Muita gente sai da nossa vida sem que tenhamos a oportunidade de pedir desculpas. Há quem parta sem ter a coragem de te encarar de frente e reconhecer os próprios erros. E a desculpa que nunca chega incomoda, revira o estômago e belisca o peito. Mas a gente aprende a perdoar também quem não nos pede perdão. Porque há sempre um lado que precisa dar o coração a torcer. E esses geralmente são os mais felizes.