Voltando aos poucos…

Nem sei como começar. A verdade é que voltar a escrever no blog depois de tantos meses sem aparecer por aqui me dá a sensação de reencontrar um velho amigo ao qual não via há anos. São tantos asuntos, confissões, novidades, que a gente se sente meio perdido, acanhado.
Talvez por isso eu tenha apagado três vezes este post e recomeçado. Queria ser justa com aqueles que continuam me enviando mensagens com pedidos de dicas sobre Toronto e dizer que sim, vou voltar a escrever no blog e prometo que a frequência será maior.
Desde já peço àqueles que me mandam sempre msgs aqui ou me adicionaram no facebook, que me enviem sugestões de posts! 🙂

Beijo e até logo!

Aritta

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Aquilo que só aprendemos quando não temos medo do desconhecido

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Existem algumas (ou muitas) coisas na vida que nenhuma escola, universidade ou até mesmo a sua família e amigos podem ensinar. São aquelas coisinhas que muitas vezes nós nem percebemos que aprendemos, mas que algumas situações trazem à tona e nos fazem cair na real que de alguma forma evoluimos.
Eu demorei muito tempo para me conhecer melhor. E acho que o momento “eu me conheço 100%” nunca chega para nenhum de nós, levando em conta que o ambiente, as pessoas, tudo que nos cerca contribui para esse aprendizado. E tem aquele velho ditado: a vida nos surpreende a cada dia.
Podemos escolher entre acordarmos prontos para um novo dia, um novo começo ou tirar os pés da cama com os passos já contados. Na maioria das vezes nos sentimos amedontrados em tentar um novo caminho.
Tentar o novo é difícil, cansativo e exige paciência. Mas a mudança dentro de você pode ser vista a olho nú. E isso não tem preço.
Ninguém disse que seria fácil – e nunca é. A escolha entre reclamar das dificuldades ou tentar mudar o que não agrada cabe a nós. Mas também cabe a nós termos consciência de que as dificuldades são aquelas que mais nos ensinam.
Tenho convivido com pessoas completamente diferentes de mim. Não apenas culturalmente, mas diferentes na forma de pensar, na forma de enxergar a vida. Com algumas tenho aprendido muito e quer saber? Com as outras também.
Porque ainda que aquele alguém que é completamente diferente de você te leve a pensar: Essa pessoa não tem nada a me acrescentar. Pode acreditar, ela tem sim.
São as criaturas com as quais não me identifico nem um pouco as que mais me intrigam. E essas me ensinaram a respeitar as diferenças. A aceitar que não existe certo e nem errado. Existem escolhas, caminhos e mais caminhos.
Cabe a mim guardar o que aquela pessoa tem a me oferecer como aprendizado e fazer o possível para que um pouco do que sou seja passado para ela.
Talvez, apesar das diferenças, esse alguém também tenha acordado com o mesmo objetivo que o seu: um novo dia sem passos contados. E se os seus caminhos se cruzaram é porque de alguma forma esse alguém tem algo a te oferecer.

E que o amanhã nos traga novas surpresas! 

Um dragão chamado Natal

Acabei esquecendo de publicar este texto aqui no blog. Escrevi no dia 24 e publiquei no Facebook!
Segue aqui também:

Enfim, chegou o dia mais temido por mim desde o início do intercâmbio: o Natal. Venho de uma família católica, e apesar de não ser praticante, Natal lá em casa sempre foi como nos filmes de final de ano. Árvore montada, casa decorada e família reunida para celebrar. Eu, para ser bem honesta, nunca gostei dessa data. Talvez pelo fato de ter perdido a minha mãe no mês de dezembro, fiquei um tanto …quanto traumatizada.
Ao longo dos anos tentei de todas as formas transformar esse dia em algo mais divertido. Foi quando aos 12 (?) bebi escondido quase uma jarra de Sangria e tomei o meu primeiro porre. Depois, descobri que a noite ficava mais interessante quando eu visitava a casa dos amigos depois da ceia lá em casa. As festas da Julia, minha amiga que no início do ano se tornará mamãe, eram as mais animadas. Transformávamos a sala numa pista de dança e saíamos de lá quando o dia amanhecia.
Na casa da Mari, a minha best, o destaque eram as comidas maravilhosas que a mãe dela sempre preparou. Mãos de fada. A ordem era: ceia lá em casa, uma passada na ceia da Mari e final de noite na festa da Juju. Eu nem lembrava a tristeza que este dia me trazia.
Hoje, a Juju mora em Sampa, a Mari também não vive mais em Porto Seguro e eu estou em outro continente. E nesta manhã, apos tentar de qualquer jeito dormir o máximo que eu pudesse para acordar somente no dia 26, pensei: Não foi só a minha vida que mudou. Todas nós estamos em lugares diferentes, onde realmente deveríamos estar. Onde escolhemos estar.
Algumas pessoas, como um senhor paquistanês de 50 e poucos anos que conheço, e que veio morar em Toronto em busca de segurança, não escolheram estar longe dos amigos e da família. Ele está proibido de ver os filhos há 6 meses, pois a filha de 11 anos, a pedido da mãe, inventou uma mentira para a polícia. Desde então ele diz que trabalha somente para ocupar a mente e ter o que comer. Perdeu a vontade de viver. Emagreceu 11 kg e tem dificuldades para dormir. Em alguns momentos percebo o seu olhar distante e tenho vontade de lhe oferecer um abraço, mas digo apenas que tudo vai ficar bem. Ele balança a cabeça e continua calado.
Ontem passei vinte minutos conversando com ele sobre a vida e sobre como o Natal é um dia melancólico para mim. Ele me olhou com aquele olhar de quem já passou por muitas coisas nessa vida e disse: -Aritta, para nós que estamos longe de quem mais amamos, amanhã é só mais um daqueles dias em que teremos de matar um dragão. Mais um, dentre tantos outros que já combatemos e entre tantos outros que nos esperam.
E vamos ao combate.
Um Feliz Natal pra nós.

Oito meses de Canadá e a reflexão natalina

E então é isso. Oito meses completos hoje longe do ninho, sem ouvir o sotaque cantado; sem falar “rei”, “vei” e “oxente”. Sem ver o povo vestindo branco às sextas-feiras e sem o cheiro do acarajé fritando no óleo de dendê.
Sem dirigir pela orla de Ondina e admirar o Porto da Barra quando o sol se põe. Sem subir a ladeira da Aloísio de Carvalho e descer a mesma admirando a Baía de Todos-os-Santos bem alí, no Corredor (lindo) da Vitória.
Troquei o suor do sol de cada dia da Bahia pela pele ressacada com o frio do Canadá. Eu hoje visto roupa térmica, casaco de puff e bota cano alto. A marca do biquine eu só vejo em fotos do verão que passou e as ladeiras que subo me trazem paisagens frias, mas ainda assim belas.
Já é quase Natal e pela primeira vez não ouço o clássico natalino cantado por Simone em cada canto por onde eu passo.
Talvez eu entre no Youtube e escute “Então é Natal” ao menos uma vez. Por que há uma voz interna em mim, louca para gritar: -Sim, eu fiz muita coisa, Simone! O ano já pode terminar!

Cheiro de pai

A gente pode esquecer da fisionomia, pode esquecer da voz, pode esquecer de como nos comportávamos ao lado daquela pessoa. Mas o cheiro é algo que fica para sempre. Pode ser que não haja reencontros, mas se a pessoa foi de alguma forma muito especial, o cheiro fica.
O meu pai era o homem mais cheiroso do mundo. E sim, que me dêem licença para o uso do clichê, era o meu herói. E eu sabia muito bem que o amor incondicional que ele sentia pelas suas duas meninas – eu e a minha irmã Anna Clara -, era capaz de desarmar aquele super-homem. Meu pai era teimoso, defendia com unhas e dentes as suas ideias e ai de quem discordasse do seu ponto de vista. Muita gente dizia que ele só pensava em sí próprio. Visão errada de quem não sabe interpretar o amor. Porque o meu pai amava muito e talvez esse fosse o seu maior defeito. Ele amava tanto que por muitas vezes não soube como lidar com tanto amor.
Não sei ao certo quando perdi o poder de desarmar o meu herói. Também não consigo lembrar quando deixei que as adversidades da vida me afastassem daquele que sempre quis o melhor para mim. Quando foi que deixamos de ser amigos e nos tornamos apenas pai e filha.
Talvez tenha sido durante uma de muitas das nossas discussões bobas sobre o namoro proibido ou a conta altíssima do telefone. Rebeldia da adolescência. Talvez tenha sido por eu me achar madura demais, quando na verdade o que eu mais queria era o seu abraço antes de dormir.
Hoje a saudade é grande. É o dia de lembrar nos abraços que não foram dados e nas vezes em que tentei dizer que o amava mas acabava deixando pra depois. É clichê, mais uma vez eu sei. Como todos os outros textos para alguém que já partiu. Mas não há lógica para mim em tentar ser diferente quando se escreve para contar que eu só queria algo simples: o cheiro do meu pai.
E dizem por aí que os pais por diversas vezes superprotegem os filhos. Ah, Deus! Que bom seria caso o contrário também pudesse acontecer. Queria eu ter colocado o meu herói debaixo das minhas pequenas asas e protegê-lo das coisas feias desse mundo.
Mas não tive força suficiente para carregar no colo um homem com um coração tão grande.
Com todo amor do mundo no seu aniversário.

Vina e o feijão mágico

O feijão que ela cozinhava. Eu sei que isso nao é algo muito educado da minha parte. Falar de alguém que já  morreu e começar o parágrafo com algo tão banal. Mas se me perguntarem o que ela tinha de melhor, eu diria que era o feijão que só ela sabia preparar. Não que ela não fosse uma mulher de muitas qualidades, muito pelo contrário, mas das lembranças que tenho, é o feijão que mais se destaca.

Franzina, manca de uma perna e de aparência frágil, ela jamais gostou que a chamássemos de vó. Era sempre difícil me referir a ela de outra forma, já que desde que me entendia por gente a minha vó, a verdadeira, me dizia “seja educada e a chame de vó”. Mas não adiantava, ela sempre vinha com a resposta: -Nunca tive netos. E acho que isso era muito mais vaidade do que falta de amor por nós.

De mim, eu sempre achei que ela não gostasse muito. Hoje entendo que era apenas o seu jeito meio rude de me amar. Dizia que eu era rebelde. E quanto mais educada eu tentava ser pra mudar essa imagem que ela tinha sobre a minha pessoa, mais rebelde ela dizia que eu era. E eu acredito que ainda sem nenhuma demonstração de afeto de ambas as partes, nutríamos um amor ao nosso jeito, meio estranho.

Vovó Vina, ou melhor, Vina, já que ela pode, e certamente o faz, estar me observando e eu nunca gostei de contrariá-la, era irmã de criação do meu avô e uma pessoa difícil de lidar. Eu me lembro que quando criança eu acreditava que ela era imortal. Não que ela tivesse super-poderes, além do tempero mágico daquele feijão que ninguém mais conseguia copiar, mas é que quando eu nasci ela já era idosa e assim permaneceu por muitos e muitos anos. O tempo passava, a década mudava, muita gente partia e ela tava ali, dedicando o seu tempo aos jogos de baralho, à religiosidade e à pintura dos seus cabelos a fim de driblar as marcas do tempo.

Minha maior frustração foi quando, ao retornar de férias para a casa dos meus avós, me deparei com aquela cabecinha pequena, antes coberta com fios finos e de um negro quase azulado, agora completamente branca. Naquele dia percebi que o tempo, aquele que ela sempre tentou contornar, estava ganhando o combate. E fiquei triste, muito triste.

Há dois anos Vina cozinhou a última panela de feijão, comeu a pequenina porção que o seu estômago comportava e seguiu para o banho. E ali no chuveiro, enquanto a água caía sobre o seu corpo franzino, ela desistiu de lutar contra o seu inimigo, após esquivar-se por 91 anos. Eu não chorei e não tive tempo de me despedir. Não tive tempo, ou foi falta de coragem, não sei, de dizê-la que apesar da sua insistência em negar, ela era sim a minha avó. Mas eu jamais deixei de dizer que o feijão dela era o melhor do mundo. Isso ela com certeza sabia. 

Silêncio

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Cada movimento, por mais singelo que fosse, provocava um barulho ridiculamente estrondoso para aquele par, que nada mais queria, além de ficar imóvel, fingindo prestar atenção a qualquer coisa que não fosse os detalhes um do outro.
Ela fingia observar o abajur antigo no canto esquerdo da mesa. Ele, por sua vez, fixava o verde dos seus olhos numa pequena mancha no lençol.
Assim ficaram por longos 5 minutos, sem dizer uma só palavra, até que ele puxou o corpo dela em direção ao seu peito, passando os dedos pelos seus cabelos. Sem muito pensar, ela respondeu ao carinho: cruzou uma das pernas por cima da dele e pousou a mão no rosto que exibia a barba por fazer.
O silêncio tomou conta do quarto por tempo suficiente para que ela, que descansava o ouvido no peito esquerdo dele, contasse 80 batimentos cardíacos.
Foi quando ele a abraçou ainda mais forte e a beijou de uma forma que só ele sabia fazer, quebrando a tensão que reinava no quarto.
O silêncio de antes foi tomado pelo barulho dos beijos e da respiração ofegante dos dois, que já não se importavam se o abajur estava aceso ou se o lençol estava manchado. Já não se importavam com a quantidades de porquês. Viveriam um dia de cada vez.